Campanha de Vacinação na Maré

Por equipe do Dicionário de Favelas Marielle Franco

Verbete criado pela Equipe do Dicionário de Favelas Marielle Franco.

Sobre a campanha[editar | editar código-fonte]

Em 2021, diante do início de vacinação no Brasil contra a Covid-19, organizações como a Redes da Maré, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), desenvolveram uma importante ação de combate à pandemia no Complexo de Favelas da Maré.

Foto: CONASEMS

O Complexo de Favelas da Maré possui mais de 140 mil habitantes, mais que 95% dos municípios do Brasil. No Dicionário de Favelas Marielle Franco, há diversas manifestações que ajudam a entender as dificuldades da proteção contra a pandemia nos territórios de favelas e periferias - e na Maré não seria diferente. Você pode conferir alguns dos exemplos clicando aqui.

Bate Papo na Saúde | Fiocruz[editar | editar código-fonte]

No Canal Saúde, da Fiocruz, há uma entrevista com o assessor de Relações Institucionais da Fiocruz, Valcler Rangel e com a coordenadora da Redes Maré, Lidiane Malanquini sobre o tema. Confira:


Esta edição do Bate Papo na Saúde fala sobre a vacinação em massa contra a Covid-19 no Complexo da Maré (RJ). A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro e a Redes da Maré promoveram uma campanha de vacinação em massa contra a Covid-19 em mais de 140 pontos da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A vacinação em massa foi o ponto de partida para o estudo conduzido pela Fiocruz com o objetivo de mapear o impacto da vacinação na população da Maré.

De acordo com matéria publicada no CONASEMS:

Com muitas informações coletadas e um amplo espectro de intervenções visando proteger a população, a Fiocruz propôs a realização de uma pesquisa a partir da experiência no território. Daí surge com os parceiros o projeto de avaliação da efetividade da vacinação em massa da população adulta da Maré, visando verificar, dentre outros aspectos, a circulação de variantes e a proteção indireta de crianças e adolescentes. O estudo irá acompanhar por seis meses o comportamento do imunizante em duas mil famílias, o que corresponde a oito mil moradores. “A gente quer que os dados produzidos e gerados possam consolidar informações que permitam um planejamento em saúde no território. Depois da pandemia, qual o impacto sobre a saúde pública? Queremos criar um modelo de vigilância em saúde na Maré que possa inspirar outras comunidades”, defende Luna Escorel.

As vacinas são disponibilizadas a partir do que os pesquisadores chamam de sobras de produção da Fiocruz, responsável por produzir a AstraZeneca no Brasil, mediante acordo com a Política Nacional de Imunização (PNI). O alvo da campanha foram jovens de 18 a 33 anos que ainda não haviam entrado na lista de vacinação do município, o que representa cerca de 31 mil pessoas. No entanto, o projeto contemplou em apenas seis dias – de 29 de julho a 3 de agosto – quase 37 mil moradores da Maré, ao incluir as pessoas que por algum motivo perderam a primeira dose.

Só foi possível atingir uma meta tão avançada porque se juntaram ao poder público muitas pessoas comprometidas em ajudar. A força tarefa de imunização contou com a presença de 1.620 voluntários, entre moradores da comunidade, educadores e profissionais de saúde. “Centenas de jovens ocuparam as ruas para pré-cadastrar quem não tinha cadastro nas Unidades de Saúde da Família. Em duas semanas realizamos uma campanha maciça de comunicação e saímos na favela inteira com tabletes na mão para incluir os moradores na campanha. Usamos megafone, lambe, carro de som, cartazes, redes sociais e nos reunimos com centenas de comunicadores populares”, descreve o coordenador da Fiocruz.

A rede de saúde municipal

No Complexo da Maré existem sete unidades básicas de saúde e 100% de cobertura da Estratégia Saúde da Família, de acordo com o coordenador da Atenção Primária da Área Programática 3.1 do Rio de Janeiro, Thiago Wendel Gonzaga. Para imunizar a população, a Secretaria Municipal de Saúde montou uma operação envolvendo 130 pontos de vacinação, com a participação de cinco associações de moradores, 15 escolas municipais da região e a Vila Olímpica. Em média nove mil pessoas foram vacinadas por dia. “Todo esse trabalho só foi possível através da parceria com a Fiocruz e a Redes da Maré. O meu desejo era conseguir mais doses e estender a vacinação a outras comunidades como o Complexo do Alemão e Manguinhos”, afirma Thiago.

A área coordenada por Thiago Wendel é responsável por assegurar a atenção à saúde de bairros da zona norte do Rio de Janeiro, reconhecidos pelo baixo índice de desenvolvimento social. A Secretaria de Saúde tem investido em três frentes para conter a pandemia na região: oportunizar a vacinação; testar para diagnosticar precocemente e bloquear a transmissão; além de cuidar das pessoas de forma mais equânime, com equipes de saúde da família monitorando os casos. Enfermeiro da Estratégia Saúde da Família desde 2012, Thiago, que já trabalhou em outras comunidades no Caju e no Catumbi, sabe bem de onde fala. “Sou morador do Complexo do Alemão. Fazer parte dessa história tem sido incrível, porque a resposta da favela veio de um favelado. Meu trabalho como enfermeiro, todos os dias, é tentar diminuir as iniquidades que eu vivi. Participar desse movimento de preservação de vidas traz a sensação de que cada um que eu cuido poderia ser meu pai, meu avô”.

Vacinação em massa contra a Covid-19 mobiliza a Maré | Agência Fiocruz de Notícias[editar | editar código-fonte]

Para acessar a matéria na íntegra, clique aqui.

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Ancorado em dois pilares centrais, a vacinação em massa e a testagem em grande escala da população, o estudo que será coordenado pela Fiocruz é um desdobramento de diversas ações de mobilização social que vêm sendo implementadas na Maré desde junho do ano passado com o projeto Conexão Saúde - De Olho na Covid.  O projeto, que hoje é referência no combate à pandemia em territórios de favelas, oferece gratuitamente serviços de testagem, telessaúde e apoio no isolamento domiciliar a pessoas com Covid e foi preponderante para o avanço da pesquisa entre os moradores da Maré.

A partir desta experiência, que reúne a Fiocruz, SAS Brasil, Redes da Maré, Dados do Bem, Conselho Comunitário de Manguinhos e União Rio, já foram realizados mais de 27 mil testes diagnósticos (entre sorologia e PCR), 10,5 mil consultas de telessaúde, acompanhamento e apoio para o isolamento domiciliar de mais de 1 mil famílias com pessoas que testaram positivo para Covid. Além de múltiplas ações de comunicação territorial.

“Graças à mobilização dos diversos parceiros que se envolveram desde o início, foi possível integrar a atenção básica de maneira sistêmica ao enfrentamento da pandemia na região, oferecendo, desde a possibilidade de um diagnóstico precoce e acompanhamento clínico até a testagem molecular e o rastreamento de contactantes. O impacto foi sentido no controle da pandemia com a redução de 61% da mortalidade nos primeiros dez meses de implantação do projeto. Esse legado é acrescido agora com a vacinação de toda a população, o acompanhamento da sua efetividade na proteção dos moradores e a possibilidade de intensificar a vigilância genômica no território”, ressalta o assessor de Relações Interinstitucionais da Fiocruz, Valcler Rangel.

Metodologia em duas etapas[editar | editar código-fonte]

O estudo inclui duas linhas de atuação que serão conduzidas de forma simultânea. A primeira consiste na identificação de casos sintomáticos que serão submetidos ao teste de RT-PCR. Os participantes devem informar imediatamente ao centro caso apresentem os sintomas definidores de suspeita de Covid-19. Além disso, de forma ativa, as equipes do estudo também acompanharão as atividades das Unidades Básicas de Saúde para orientar a realização do teste molecular dentro da janela de sete dias desde o início dos sintomas.

O resultado da testagem será cruzado com o monitoramento da situação vacinal e o desfecho do quadro, com sua classificação final de gravidade. Desta forma, será possível calcular a proteção que a vacina está conferindo à população. Além disso, todos os resultados positivos serão encaminhados para realização de sequenciamento genético, a fim de identificar possíveis variantes do vírus e colaborar na vigilância genômica da região.

Já a segunda linha é caracterizada como uma coorte populacional composta por 2 mil famílias residentes na Maré, mobilizando, ao todo, aproximadamente 8 mil indivíduos, que serão acompanhados por seis meses. Nesta ação será realizada a avaliação de soroprevalência, proporção de vacinados e ocorrência de casos, com o intuito de mapear a transmissão do vírus no ambiente familiar. A análise incluirá também os membros que não são público-alvo da vacinação: “É nesta etapa que conseguiremos levantar os dados para responder a questão se ao vacinar os adultos, também protejo as crianças?”, complementa o coordenador do estudo.

Mobilização do território como diferencial[editar | editar código-fonte]

A mobilização dos moradores para adesão à vacinação em massa e ao estudo conduzido pela Fiocruz está sendo liderada pela Redes da Maré, instituição com mais de 20 anos de atuação no território. A organização também tem feito a articulação de outros atores como associações de moradores, influenciadores, comunicadores populares e lideranças para informar e esclarecer a população da Maré sobre a importância das ações.

Durante os dias de vacinação, mais de 500 pessoas, entre articuladores de campo e  voluntários, estarão envolvidas na logística de mobilização e informação dos moradores. "Este é um momento importante, não só de reconhecimento da potência do território e do nosso trabalho, mas do estabelecimento de direitos, de forma republicana, para os moradores de favelas. A parceria com instituições de diferentes níveis é um caminho concreto para reverter os danos causados pela pandemia e para a implementação de políticas públicas que respondam aos desafios estruturais  que vivenciamos no território", salienta a diretora da Redes da Maré, Eliana Silva.

“A mobilização social que está por trás de toda essa iniciativa é um fator central para os bons resultados observados até aqui e continuará sendo determinante para o sucesso da campanha de vacinação. Ter a vacina é importante, mas a comunicação eficaz para conseguir mobilizar a comunidade sobre a importância de ir se vacinar é um ponto central. Esse estudo traz um aprendizado fundamental sobre esse aspecto da mobilização na periferia”, conclui Valcler Rangel.

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Campanha para a Segunda Dose[editar | editar código-fonte]

Texto originalmente publicado pela Agência de Notícias da Fiocruz, por Luciana Bento. Acesse o original aqui.

Com o sucesso da primeira fase da campanha #VacinaMaré, ocorrida no início de agosto, o desafio agora é completar o ciclo de imunização, aplicando amplamente a segunda dose da vacina nos moradores adultos da Maré. Para isso, a Fiocruz, as Redes da Maré e a Secretaria Municipal de Saúde se unem novamente em um mutirão de vacinação que acontecerá entre os dias 14 e 16 de outubro. A ação conta com apoio do SAS Brasil, da PUC-Rio e do Conexão Saúde - De Olho na Covid.

Atualmente, 96% da população adulta do território está vacinada com pelo menos uma dose de um dos imunizantes contra a Covid-19. Referência no combate à pandemia em favelas, a Maré apresenta taxa de letalidade abaixo da média do município do Rio de Janeiro e a Fiocruz lidera estudo no território para avaliar efetividade da AstraZeneca, além de monitorar variantes, contaminação de vacinados, entre outros aspectos.

"O projeto #VacinaMaré foi um sucesso já na primeira fase, superando as expectativas. Agora vamos acelerar o processo com a aplicação da segunda dose, possibilitando já avaliarmos alguns resultados da vacinação em massa na proteção da comunidade local, incluindo as crianças", ressalta o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz.

A iniciativa antecipará o retorno dos moradores vacinados com a primeira dose às unidades de saúde para que completem o ciclo de imunização, recebendo a segunda dose. Por isso, embora na carteira de vacinação possa constar outra data, moradores que já tenham sido vacinados com a primeira dose há pelo menos dez semanas estão aptos a tomar a segunda dose.

A campanha #VacinaMaré – 2ª Dose acontece a partir de uma grande mobilização no território, que envolve organizações não-governamentais, associações de moradores, clínicas da família, voluntários, moradores, artistas, comunicadores e influenciadores digitais. A ideia é incentivar e esclarecer a população sobre os benefícios da vacinação em massa e celebrar a alta taxa de imunização de moradores da Maré contra a Covid-19.

“É essencial que os moradores compareçam em massa para garantirmos a imunização de toda a comunidade. A proteção só acontecerá após a aplicação da D2 e não podemos perder esta oportunidade mobilizando 100% das pessoas para comparecer. O vírus ainda circula e não podemos relaxar. Venceremos a Covid-19 mantendo o uso de máscaras, as medidas de higiene e com vacina no braço”, destaca Valcler Rangel, assessor de Relações Institucionais da Fiocruz.

Desta vez, clínicas da família e associações de moradores formarão a rede de pontos de vacinação, que acontecerá das 8 às 17h, prioritariamente na população entre 18 e 33 anos. A Maré apresenta um perfil populacional majoritariamente jovem (51,9% com menos de 30 anos) e esta faixa etária forma a maior parte da população vacinada na primeira fase da campanha. No entanto, todos os moradores acima de 18 anos que ainda não se vacinaram com a primeira ou segunda dose estão aptos a se vacinar nos dias da campanha.

Apresentações culturais e intervenções artísticas com coletivos e artistas da Maré acontecerão próximas aos locais de vacinação, reforçando o caráter de comemoração de resultados que a campanha propõe. “Vamos celebrar, tomando o cuidado de não formar aglomerações, com pequenas intervenções artísticas. Mas temos resultados a comemorar, depois de tantos desafios causados pela pandemia e agravados pelos problemas históricos do território: a taxa de letalidade na Maré é menor do que a do município e conseguimos, com um projeto pioneiro, dar um tratamento adequado e com base científica para os moradores da favela”, avalia Eliana Silva, diretora da Redes da Maré.

A expectativa, ao final da ação, é de que casos graves e óbitos pela doença caiam ainda mais na Maré. Dados do boletim Conexão Saúde – De Olho no Corona mostram que a taxa de letalidade por Covid-19 na Maré é praticamente metade da taxa do município do Rio de Janeiro. De todas as pessoas infectadas pela doença na Maré, desde o início da pandemia, 4% faleceram. Na cidade do Rio, este percentual ficou em 7%.

O combate à pandemia no maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro se tornou referência a partir do projeto Conexão Saúde – De Olho na Covid, que oferece gratuitamente – desde junho do ano passado – serviços de testagem, telessaúde e apoio no isolamento domiciliar a pessoas com Covid, além de ampla campanha de esclarecimento sobre a doença e combate a notícias falsas no território.

Estudo sobre efeitos da vacina[editar | editar código-fonte]

A vacinação em massa de moradores faz parte de um estudo liderado pela Fiocruz, que acompanhará por seis meses (até janeiro de 2022) os efeitos da vacina em duas mil famílias da Maré, totalizando cerca de 8 mil pessoas. Desde a primeira fase da #VacinaMaré, moradores estão sendo chamados a participar voluntariamente do estudo, assinando um termo de consentimento e se comprometendo a notificar os pesquisadores sobre sintomas e possíveis contaminações por Covid-19. Pontos para seleção e inscrição de moradores da Maré que se interessem em participar dos estudos da Fiocruz serão montados nas clínicas da família durante os dias de vacinação da segunda dose.

A pesquisa está dividida em dois estudos que acontecem simultaneamente. O primeiro pretende medir a efetividade do imunizante AstraZeneca contra infecções, levando em conta os critérios de idade, gênero, tipo de vacina ministrada, tempo de infecção após a vacinação, tempo até a segunda dose, ocorrência de casos graves e prevenção de óbitos.

O segundo estudo vai monitorar a circulação de variantes da Covid-19 entre os moradores, a ocorrência de casos entre pessoas vacinadas, possíveis efeitos adversos da vacina e o nível de proteção de crianças e adolescentes não vacinados.

"Este é um projeto único do ponto de vista do entendimento da efetividade das estratégias de vacinação em territórios urbanos e periféricos. Ela combina múltiplos desenhos de estudo e inova na forma como a pesquisa é feita, uma vez que temos a participação direta da população e das organizações locais na formulação e na execução do projeto", esclarece o infectologista da Fiocruz Fernando Bozza, coordenador da pesquisa.