Pentecostalismo e o sofrimento do (ex-)bandido: testemunhos, mediações, modos de subjetivação e projetos de cidadania nas periferias (Resenha)

Por equipe do Dicionário de Favelas Marielle Franco

Autor: Leonardo Fernandes Hirakawa.

Referência[editar | editar código-fonte]

MACHADO, Carly Barboza. Pentecostalismo e o sofrimento do (ex-) bandido: testemunhos, mediações, modos de subjetivação e projetos de cidadania nas periferias. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 20, n. 42, p. 153-180, jul./dez. 2014. Disponível em:<http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832014000200007>. Acesso em 28 out 21.

Breve contextualização[editar | editar código-fonte]

A autora é professora de Antropologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ, desenvolve pesquisa no campo que envolve as temáticas de religião, mídia, política e cidade, desenvolveu uma pesquisa de campo na sede da igreja Assembleia de Deus dos Últimos Dias (Adud), com sede no município de São João de Meriti. Analisou os “testemunhos”, rotinas e comportamento dos seus frequentadores, mais especificamente dos “resgatados da morte” que, majoritariamente, pertenciam ao “mundo do crime”. Pode-se observar a partir de seu texto a grande capacidade da pesquisadora em reter detalhes do funcionamento daquela organização religiosa e, consequentemente, suas fontes de poder e prestígio.

Resumo dos principais argumentos[editar | editar código-fonte]

A aflição da violência foi analisada de forma introdutória no texto. Problematizando principalmente a atenção dada à prática dela do que aos indivíduos que já sofreram ou sofrem. Esse deslocamento é importante para o mister da autora, pois dá sequência ao aparecimento dos “sofredores”, representados como “ex-bandidos”.

A chave analítica, portanto, utilizada foi o sofrimento. Este, segundo a autora, é visto pelo pentecostalismo como força propulsora de mudança e, em certo sentido, como propaganda para atrair outros “sofredores”.

Porém, essa “conversão” não é tão simples e desmedida. Para que haja a aceitação deste grupo religioso deve-se, sobretudo, o “sofredor” estar arrependido dos males que causou. Assim, esses males que, via de regra, são supervalorizados, servem de massa midiática para a sustentação organizacional da Adud.

Alguns aspectos rituais dessa transição foram identificados, como exemplo, a modificação da identidade visual do “resgatado” que após o seu ingresso na igreja veste terno e é rebatizado com o prenome “Apóstolo”. Essa modificação, segundo a autora, representa um espaço social onde a experiência do “sofredor” possa ser valorizada sem nenhum tipo de julgamento pela coletividade e, ainda, vista com júbilo por eles.

Esse processo de procura pelas pessoas passíveis de resgate é chamado pela autora como “economia das almas”. Atraindo para seus cultos diversas pessoas de um nicho diferente de onde são retirados os “resgatados”. Assim, congregam em conjunto, porém com suas divisões, políticos, artistas, policiais etc. Esse “potencial de congregar divergências” é para a igreja a marca do projeto de resgate.

Para além deste debate, segundo a autora, a igreja promove a mediação entre o “mundo do crime” e a sociedade “de bem”, ou seja, pretende transformar o bandido em um ex-bandido arrependido e desejoso de recuperação. Para este fim, a fama e a mídia servem como esteio de reprodução da lógica do sofrimento.

Apreciação crítica[editar | editar código-fonte]

A autora encerra seu trabalho salientando a necessidade de desenvolvimento de novos estudos sobre a temática do aprisionamento como redenção. Em minha análise, porém, as evidências demonstradas na pesquisa refletem um curioso movimento entre a condição de sujeito do mundo do crime para a tentativa de reinserção na sociedade. A religião é a condutora dessa expectativa e, concomitantemente, o soerguimento da igreja pentecostal.

Ficou mais evidente, diante da dinâmica apresentada, o papel racional que assume a igreja diante da desconstrução da sujeição criminal. Esta, entretanto, não é completamente apagada, mas sim utilizada como capital social na nova conjuntura assumida pelo “irmão”. Desta forma, o ciclo de “salvação” alcança uma categoria que, de acordo com o posicionamento da pesquisadora, não é atendido/compreendido nem pelo Estado, nem pela sociedade. Sob perscruto da “justiça de Deus” em oposição à justiça dos homens constroem-se pontes que ligam através do arrependimento e de seu necessário testemunho o ex-bandido ao status de “resgatado”. Estes desfrutam de uma posição de fama e conforto inconcebível na vida secular pós-crime na sociedade.

  1. ↑ http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=142488
  2. ↑ sujeição criminal