Preto vivo!

Por equipe do Dicionário de Favelas Marielle Franco

Preto Vivo

Vim de um lugar pobre Mas rico de se viver Lugar que respira Cultura Que nasceu da luta

Luta que até hoje é travada Que a televisão esconde Mas que mancha a calçada Que com a infância ela some

Vejo nas esquina O muro pixado com aviso Luz de salão e alerta ligado Barricada transformando a quadra em condomínio

Uma pena, deixaram o menor caminhar sozinho Isso não é primeiro de abril O menino trocou a bola pelo radinho E o jovem trocou o diploma pelo fuzil

Isso me esgota Me trás irá, não é normal É a mãe que não pode ir a formatura Porque tinha que ir a um funeral

Um grito Uma lágrima A voz de quem não pode ser ouvido Uma lástima

Queria construir uma revolução Mas como começar com a geladeira vazia? A mesa do trabalhador não tem pão nem queijo, nem mortadela sadia

Aonde eu olho Por baixo da alegria carioca Vejo um corpo adoecido, uma mente cansada Rezando por folga

Mentes incríveis se perdendo no escuro Jovens talentosos ganhando pixo de saudades no muro Criança não pode brincar na rua O pai não pode levar o filho na escola

É tiro pra todo lado Covardia pra todo lado O que fazer nesse mundo onde o opresssor lucra com a dor do injustiçado

E você nem imagina Não tenho o que falar Não da pra acreditar Alguns ainda se orgulham com essa chacina

Me entristece o pobre aplaudindo o descaso A polícia mata sem olhar rg Não conseguem ver? Essa porra é uni duni tê Vai ser trágico quando o escolhido for você

A única alternativa é persistir insistir Passar a visão pros meus Pedir proteção a Deus

Sair nessa guerra pra espalhar poesia Aprender e partilhar sabedoria Inspirar Eduardos e Marias Transformar o Coletivo de rua em família

E ainda vou puxar grito pro resto Pra calçada com buraco o posto sem vacina o esgoto a céu aberto

Falar o que então da escola sem professor a falta de saneamento o descaso com a coleta E o político com uma par de acessor

Precarizaram meu transporte Minha rua tá sem luz Minha pia tá sem água E o filho do pobre tá morrendo na fila do Sus

Mas vou resistir enquanto o sangue correr na veia Filho de trabalhadores Que venceu as dores Pra entregar o mínimo

Nessa vivência vou ser resistência Sobrevivência em situação de subsistência

Resisto É nessa guerra Que eu puxo no grito Preto Vivo!


Poesia autoral: Lucas Marte - Cientista Social, Escritor, Poeta, Educador, Artista Visual e Fundador do Coletivo Ecos-SG

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