Trabalhadores e bandidos: categorias de nomeação, significados políticos (resenha)

Por equipe do Dicionário de Favelas Marielle Franco

Autora: Hellen Oliveira.

Referência[editar | editar código-fonte]

FELTRAN, Gabriel. Trabalhadores e bandidos: categorias de nomeação, significados políticos. Temáticas (UNICAMP), v. ano15, p. 11-50, 2007.

Breve contextualização[editar | editar código-fonte]

Gabriel Feltran é professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Pesquisador do Núcleo de Etnografias Urbanas do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP). Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com estágio doutoral na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS). Professor visitante na University of Oxford (2019), Goldsmiths College London (2019), Humboldt University (Berlim, Kosmos Fellow 2017) e CIESAS Golfo (México, 2015). Autor de "The Entangled City: crime as urban fabric" (Manchester University Press, 2020); "Irmãos: uma história do PCC (Cia das Letras, 2018)" e editor de "Stolen Cars: a journey through São Paulo's urban conflict (Wiley, SUSC Series, 2021 in print).

Principais argumentos[editar | editar código-fonte]

O texto “Trabalhadores e bandidos: categorias de nomeação, significados políticos” é uma formulação etnográfica e de trajetória na qual o autor acompanha o cotidiano de uma família moradora de área de periferia na cidade de São Paulo entre os anos de 2005 e 2007. Por meio da observação dos discursos, dinâmicas intrafamiliares, e a construção diária das relações na cidade, procura-se destrinchar a noção comum que antagoniza “trabalhadores” e “bandidos” enquanto categorias sociais. Neste sentido, Feltran avalia um crescimento do “marco discursivo do crime” nos territórios periféricos urbanos, e as disputas que este fenômeno apresenta no debate público.

Em um exercício avaliativo das incursões etnográficas, o autor primeiramente realiza um balanço de suas próprias perspectivas analíticas sobre os espaços considerados periféricos e sua organização social. Esta, inicialmente, se dava por meio das trocas de informação e dados entre pesquisador e militantes da ocupação urbana, que se preocupavam – dentre outras demandas – com a fixação da moradia, a condição de circulação na cidade, as crises empregatícias vivenciadas entre as décadas de 90 e 2000, e as formas de articulação da militância a partir de um agrupamento heterogêneo de indivíduos, habitantes destes locais. O crime, neste contexto, era visto como algo entrelaçado, ou até mesmo resultante, do que chamou de série de “crises” locais, como um fenômeno oriundo da impossibilidade de solução das outras questões sociais, políticas e econômicas tratadas pelas primeiras gerações de trabalhadores organizados. Assim, a disputa discursiva era entre a necessidade de avanço em demandas e o retrocesso social, figurado negativamente pelo crime. 

Em contraste, o texto do autor se preocupa com a passagem geracional entre estes citados anteriormente e os moradores mais jovens da periferia: “fui me dando conta que, na passagem da geração, uma nova camada de tecido social se assentava sobre os processos sociais fundadores das periferias da cidade”. Nesta temporalidade, Feltran avalia que as crises não estão mais no centro da disputa, sendo elementos constitutivos da realidade e da própria sociabilidade já levados em conta na formação de trajetórias, projetos de vida e organização social pela geração mais jovem. Sob o aprofundamento do sistema de mercado, e da própria ideia de inclusão pelo consumo, a disputa discursiva centrava-se nas formas de obtenção de renda, estabilidade e possibilidade de mobilidade social, disputa a qual antagonizava o “mundo do trabalho” e o “mundo do crime”. No processo de passagem do tempo, o autor observa uma mudança entre organização coletiva no espaço para individualização dos atores. 

A partir da família etnografada e entrevistada, Feltran estabelece alguns parâmetros argumentativos importantes, o primeiro deles é de que – ao utilizar o núcleo familiar como uma alegoria para os tantos outros de seu bairro – a linha moral entre “trabalho” e “crime”, por mais que apareça frequentemente nos discursos dos entrevistados, não é definida de forma estanque, sendo uma percepção flexível conforme os acontecimentos que circundam aqueles indivíduos. Outro ponto é o aparecimento de signos linguísticos que complexificam esta própria noção. Há uma ideia de “opção” pelo crime por parte daqueles que se envolveram em atividades desviantes, no entanto, também há a noção de “chance” e “oportunidade” para aqueles que trilharam o caminho moralmente aceito, de acordo com a normatividade escrita, e pela normatividade social – estabelecida pelos acordos cotidianos. 

Neste sentido, há uma disputa interessante do próprio contexto de ocupações, normativas ou anti normativas, uma tida como escolha – dado que o crime não é visto inicialmente como uma imposição –, mas também a noção de que as possibilidades de carreira e obtenção de recursos fora do “mundo do crime” requerem uma série de oportunidades escassas e atípicas ao ambiente periférico. A escolha e a imposição fazem desta linha moral algo mais embaçado e difícil de ser acessado de forma fixa. Tal noção de mobilidade também é interpelada pela própria trajetória dos atores etnografados, que possuem como ponto comum, apesar das disparidades geracionais, a característica “transeunte”. A primeira geração pode ser interpretada como transeunte por sua condição migrante, que estabeleceu uma série de dificuldades dentro dos “dilemas da integração social que produzem a cidade”, já a segunda geração lida com a característica transeunte do próprio mundo de trabalho, as sequenciais crises empregatícias e a necessidade de consumo como forma de “integração social”, produzem também uma mudança constante de ocupação e lançam as perspectivas destes jovens entre os dois mundos, colocando a questão: o que é mais importante, o que se faz ou o que se ganha? 

Outro ponto importante nesta avaliação das linha moral é a “garantia de segurança”, apresenta-se uma noção de que a polícia e as instituições do Estado são incapazes de suprir esta garantia por conta de uma série de violências praticadas por seus agentes em relação os moradores de periferia, bem como a falta de assistência em momentos necessários. A própria posição institucional frente aos espaços periféricos parte do estereótipo construído sobre os indivíduos periféricos, que não se importa com suas peculiaridades, ou mesmo com a disputa discursiva entre “trabalhadores” e “bandidos”, tendo como norma a utilização da violência contra todos como forma de atuação, junto ao descumprimento do processo legal e as violações de direitos. As instituições, assim, praticavam sob uma uniformidade às avessas, enquanto o “mundo do crime” se apresentava como alternativa de proteção e auxílio, como parte constituinte do local – importante ressaltar que esta constituição ainda levava em conta a divisão discursiva. A legitimidade da coercitividade acompanha a noção de “opção” e “oportunidade” de forma que a punição aplicada pelo crime era legítima ao conhecimento local, pois era de certa forma restrita, enquanto a institucional era geral e desproporcional, mal-informada e autoritária. 

Mas o que reforça e o que enfraquece a disputa entre as categorias “trabalhadores” e “bandidos”? Parte deste debate, quando realizado micros sociologicamente e sob o prisma da vida privada, tem-se a noção de que “bandidos” são aqueles envolvidos em atividades ilícitas, que podem ser moralmente mais ou menos passíveis de punição de acordo com as articulações coletivas circunscritas em um espaço e um tempo. Neste sentido, “bandidos” e “trabalhadores” são identificáveis mais pela ocupação do que pelos ganhos, e convivem num mesmo espaço sem muita conversão além das trocas cotidianas e ordinárias. 

Sob o prisma da vida pública, “trabalhadores” e “bandidos” são definidos conforme a ostensividade das ações institucionais e do uso da violência de Estado, na figura dos órgãos policiais. Quanto maior a operação, mais embaçada a linha moral entre as categorias, e mais dificilmente será feita uma divisão entre estas no momento de incursão, ação e punição. Quanto mais amplo, menos identificável, maior a estereotiparão e maiores os riscos enfrentados por todos os jovens habitantes de áreas periféricas. Pode-se perceber, então, que existe uma atribuição situacional das categorias, de forma que as mesmas não podem ser compreendidas de forma típico-ideal. O próprio autor demonstra como os discursos são primordiais para o entendimento do desenvolvimento destas mesmas. “Bandidos” e “trabalhadores” são, então, fruto das próprias dinâmicas que constroem a cidade, transeuntes em seus postos como a moradia das gerações anteriores, tendo a noção de crise como condição base para o desenvolvimento de suas próprias trajetórias. Crise, situação e flexibilidade são alguns dos componentes mais importantes para as leituras do mundo do crime e do mundo social, que só podem ser separados para fins analíticos, se apresentando como fenômenos integrantes do mundo urbano contemporâneo. 

Outras referências[editar | editar código-fonte]

DA SILVA, Luiz Antonio Machado. Fazendo a cidade: trabalho, moradia e vida local entre as camadas populares urbanas. Mórula Editorial, 2020.

Violência urbana no Brasil ontem e hoje (disciplina acadêmica)

NaMargem - Núcleo de Pesquisas Urbanas