Artes urbanas e favelas

De Dicionario de Favelas Marielle Franco
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Por Priscila TellesThiago Matiolli

Ver também: Mapeamento de homenagens à Marielle Franco

Introdução

No dia 05 de novembro de 2016, um sábado chuvoso, o Instituto Raízes em Movimento[1] realizou o 3º encontro do Vamos Desenrolar - Oficina de Produção de Memórias e Conhecimento[2], que abordava as artes urbanas. As discussões trataram do campo das expressões culturais na cidade em espaços abertos, favelas, praças públicas, ruas… A proposta foi refletir sobre as resistências e criatividade na construção desses espaços que geralmente são construídos no vácuo de políticas públicas culturais e na busca de expressões libertárias. O encontro trouxe à superfície experiências musicais, grafite, teatro, saraus, rodas culturais, enfim, caminhos alternativos de apropriação e combate à indústria cultural de massa. Os Dinamizadores foram: Adriana Lopes: pesquisadora e professora da UFRRJ; Carlos Meijueiro: pesquisador e ativista cultural; Cláudio Vaz: professor de artes e ativista cultural; Gustavo Coelho: pesquisador sobre pichação e outras culturas de rua (diretor do documentário “Luz Câmera, Pichação”); e Rico Neurótico: MC[3] e produtor cultural da Roda Cultural de Olaria. Este último, personagem que fica no entrecruzamento dos assuntos abordados neste verbete, bem como nos exemplos tomados para ilustração do argumento: a Roda Cultural de Olaria e o Circulando - Diálogo e Comunicação na Favela. 

 

O tema das “artes urbanas” não é de conceituação simples e, muito menos, taxativa. Porém, quando retomamos o debate promovido pela edição do Vamos Desenrolar citado acima, é possível encontrar algumas pistas. Por exemplo, Adriana Lopes iniciou a conversa falando sobre a importância do funk e a presença potente das mulheres nesse ambiente produtivo, destacando que  “a arte urbana é mais que o grafismo, a gente escreve com nossos corpos, com nossas roupas...”; Cláudio Vaz disse que não se importava de ter seus projetos copiados por outros produtores e com humor afirmou “Se fizer bem feito é bom, se não fizer bem eu vou lá e reclamo!”; Gustavo Coelho lembrou dos movimentos “xarpi” - que será retomado mais a frente -, bate bola e baile funk “A pixação não é feia, pelo contrário, tem muita delicadeza no traço”; e, por fim, mas não menos importante, MC Rico Neurótico lembrou que “A rua não é só a ferramenta, é o nosso campo de atuação..”

No intuito de se aproximar de uma caracterização das artes urbanas que norteie este verbete, exploraremos melhor estas pistas na próxima seção. 

 

Artes Urbanas

As falas destacadas acima nos trazem várias características das artes artes urbanas: a importância dos corpos; o apreço pela questão estética e a qualidade da obra; as possibilidades de sua prática enquanto resistência; a diversidades das linguagens que a compõem: a música, as artes plásticas (como o grafite e a pichação), as representações teatrais (como os bate-bolas citados) - aos quais podemos somar a literatura, a dança, e o audiovisual; e, ainda, a rua, ou o espaço público como lugar predominante de sua manifestação. Aqui, não abordaremos todas essas dimensões, focaremos em duas delas (sem, contudo, deixar totalmente de lado, as demais): sua pluralidade e o espaço público como seu palco principal.

A cidade está longe de ser um lugar que possa ser compreendido em sua totalidade. Seus habitantes cultivam estilos particulares de entretenimento, mantém vínculos de sociabilidade e relacionamento, criam modos e padrões culturais diferenciados. Marcada, então, pela sua diversidade e heterogeneidade, a cidade se encontra como lugar privilegiado para análise de uma multiplicidade de atividades e formas de participação. Dentre essas formas de participação, as expressões artísticas, em suas diversas dimensões – sonoras, visuais e performativas –, têm se mostrado um objeto relevante para se pensar essa urbe. Como veremos na realização dos festivais circulando.

A rua, cada vez mais, tem se tornado palco de diferentes tipos de manifestações artísticas e culturais. Em uma caminhada vespertina pelo centro da cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, é possível ver músicos de rua, artistas circenses, entre outros que, encontram nesses espaços, lócus para suas atividades. Afastando-se um pouco da região central carioca, nota-se que em diversos bairros das Zonas Norte, Sul e Oeste, as praças também têm sido logradouro de manifestações deste cunho. As Rodas Culturais e, mais especificamente, a Roda de Olaria é um importante exemplo disso. 

 

 

Artes urbanas e periferia 

As relações entre cidade e favela, ou outras formas espaciais periféricas, podem ser pensadas, em suas diversas dimensões, sob a chave de uma dualidade: a importância dos corpos e energias de moradoras/es desses espaços são indispensáveis para o funcionamento da cidade como um todo; ao mesmo tempo em que há uma profunda necessidade de controle social destas populações, tendo em vista o tensionamento que sua circulação pelo espaço urbano causa. Sob este pano de fundo que devemos refletir sobre as artes urbanas produzidas e vivenciadas nas favelas. 

O caráter indispensável de moradoras/es da periferia para o funcionamento da vida citadina foi ressaltado na realização da edição de 2017 do Circulando, com o lema: “o rolé das favelas produz cidade[4]” - em termos concretos e simbólicos. O mote daquele ano era mobilidade urbana, ou melhor, “rolébilidade” - entendida como a forma de mobilidade periférica, com todas suas dificuldades e estratégias, desde a debilidade do transporte público até às  circulações internas à favelas, pelos seus becos[5]; um circuito que tenta, com maior ou menor sucesso, controlar o rolé de faveladas/os na cidade, permitindo a circulação precária para o trabalho, mas restringindo-a com relação ao lazer. De todo modo, a “rolébilidade” também nos permite questionar se a arte periférica também não é fundamental para a vida urbana, cimentada pela força e criatividade favelada.. 

O circulando deu o papo reto: as favelas contribuem, literalmente, para a construção das cidades, com sua mão de obra e suor, todavia, pouco conseguem gozar da urbanidade que ela proporciona, sobretudo em termos de direitos, inclusive os culturais. Estes são limitados de, ao menos, duas maneiras: invisibilizando e criminalizando suas manifestações artísticas ou negando-lhes contato com outras produções, mesmo as mais mainstream. Por exemplo, o afastamento do cinema ou de teatros. 

Com relação à criminalização da produção artística, é preciso ressaltar que as populações periféricas, em geral, também são construídas como “classes perigosas”. Um fenômeno histórico que remete ao processo de urbanização na Europa do século XIX, quando há uma intensa concentração demográfica nas cidades e, consequentemente, o desencadeamento de uma série de problemas ligados à vida nestes espaços. O que teria levado ao surgimento de uma “questão urbana” como objeto de reflexão das elites políticas e intelectuais. Neste processo, a miséria e o controle social de um contingente populacional tão grande se tornou um desafio quase intransponível. Uma das tentativas de solucioná-lo passou pela divisão das pessoas entre uma “classe operária respeitável”, que querem emprego, mas não o encontram e se comportam de modo disciplinado e moralmente aceito em sociedade; das massas empobrecidas, ou “classes perigosas”, incorrigíveis e incontroláveis, fonte de três perigos para as elites urbanas: o sanitário, o da criminalidade e da sublevação política (Topalov, 2015; Foucault, 2005). 

Este último risco talvez seja a preocupação mais efetiva dessas elites urbanas, ainda que nem tanto das classes médias, capturadas pelo discurso do medo e da segurança pública. A predominância de um discurso que ressalta, cotidiana e midiaticamente, os perigos de uma “violência urbana” acaba compondo um dispositivo que justifica ações de controle dos riscos reais da transformação política desencadeada pelas classes ditas “perigosas”. Como, por exemplo, na criminalização de práticas artísticas faveladas ao longo da história do Rio de Janeiro que tinha como alvo o samba, no início do século XX, e passa a ter como inimigo no fim deste século e início do XXI, o funk. Ambas formas culturais que descrevem e, em alguma medida, denunciam as condições de vida de seus compositores.

Mas, essa criminalização não é um processo contra o qual não se poder resistir. A relação das elites urbanas com as populações periféricas é muito mais sutil e complexa, do que a de uma mera subordinação.  E uma chave para entendermos isso é dada, novamente, por Christian Topalov (2015), historiador francês. Essa interação tomaria forma num jogo de apropriações e ressignificações de práticas realizado pelas elites urbanas e as populações mais pobres. Nas quais práticas populares de resistência são apreendidas por tais elites, que as reconfiguram de modo a esvaziá-las de seu teor político; ao mesmo tempo em que, ainda que em menor grau, práticas de controle social podem ser repensadas e reconstruídas de modo que possam também se tornar veículos de contestação social e políticas (Topalov, 2015).

Neste sentido, e voltando à questão do samba e do funk, vemos a complexidade de um dispositivo de controle social que é econômico e repressivo. Com o passar do tempo, esses ritmos foram depurados e aceitos em outros espaços da cidade. Assim, por exemplo, seguem as repressões às festas e eventos nas favelas, ao som de funk, principalmente, mas ainda do samba também, ao mesmo tempo em que essas músicas bombam em eventos caros das zonas mais abastadas da cidade, ou ao som do cantor Thiaguinho em sua “tardezinha” no estádio do Maracanã. Quer dizer, as práticas culturas periféricas são aceitas quando estão desassociadas de seus lugares de origem e entram em circuitos lucrativos da indústria cultural, mas seguem sendo marginalizadas quando são indóceis demais para serem controladas e entrarem no jogo econômico. 

Por outro lado, há ressignificações também em sentido contrário, produzindo resistências. Isso podemos ver em eventos como a Roda de Olaria e o Circulando, onde práticas culturais de elites não são negadas, pelo contrário, são apropriadas e recebem um sentido político novo, de contestação e reinvenção de significados. Deste modo, por exemplo, o Circulando conta em muitas de suas edições com apresentações teatrais, levadas a cabo, pelo grupo Teatro da Laje, coordenado pelo professor Veríssimo Júnior; ou através da poesia, cujos limites são totalmente ampliados e transformados, sem perder seu lirismo, na Roda de Olaria.

Assim, tal como propomos aqui, pensar a relação entre as artes urbanas e a periferia é reconhecer que sua riqueza, diversidade e capacidade de ocupar o espaço público estão envolvidas numa complexa prática de criminalização que envolve uma seleção e depuração de práticas que podem atender a certos circuitos lucrativos (e que passam a ser legítimas e aceitas na sociedade) de outras que seguiram como ferramentas de controle social. Ao mesmo tempo em que, esse controle não é fácil e confortável, mas que é constantemente tensionado pela reinventidade (mote do Circulando de 2016) favelada e periférica, que produz ou ressignifica artes mais consagradas. 

 

A Roda de Olaria

As rodas culturais também nos permitem perceber como a arte urbana e periférica, em suas múltiplas dimensões, é capaz de cimentar a vida na cidade ressignificando o espaço público. É possível contabilizar mais de cem rodas culturais que ocorrem diariamente, em diversos lugares da cidade, com a participação aberta a todo e qualquer artista e de forma gratuita (Alves, 2016). Em grande medida, elas se configuram como eventos independentes, sem aportes financeiros ou institucionais de prefeituras e secretarias de cultura, cuja finalidade é ocupar o espaço público para incentivar, valorizar e promover arte, cultura e entretenimento gratuito para os mais diversos habitantes citadinos. 

As Rodas Culturais são uma teia de artistas e trabalhadores independentes, como poetas, fotógrafos, Mcs, músicos, grafiteiros, artistas plásticos, artistas circenses, atores, profissionais do audiovisual, esportistas urbanos etc. Essa rede unifica, intensifica e expande a sustentabilidade da cultura de rua dos bairros cariocas[6].

Foi na 3ª edição do Vamos Desenrolar sobre Arte Urbana que Rico, MC e produtor cultural da Roda de Olaria[7] falou sobre a importância deste tipo de evento na construção dos espaços que geralmente são reconhecidos como vazios ou ausentes de políticas públicas culturais. Em contrapartida, o MC ressaltou uma série de dificuldades que a Roda de Olaria[8] sempre enfrentou desde que começou a ocupar as Quadras Gêmeas em 2012.

Segundo Rico, no início era apenas um encontro despretencioso de amigos MCs que, nas noites de quintas-feiras, levavam violões e cajóns para a praça, e se sentavam em roda para conversar e improvisar algumas rimas sob uma tenda branca. Com o passar do tempo o público foi ficando cada vez maior e as Quadras Gêmeas passaram a se tornar palco de um encontro protagonizado por pessoas de diferentes faixas etárias, moradores do bairro de Olaria e adjacências.

No entanto, Rico afirmou que a história da Roda de Olaria é de uma luta constante por conta de uma série de problemáticas que os produtores precisavam administrar: desde a falta de dinheiro para alugar os equipamentos, negociações para conseguir o Nada Opor[9] às repressões policiais durante o evento. No encontro, o MC enfatizou: “a única forma que a gente tem de diálogo com o poder público é de forma ‘truculenta’, que é com a polícia. A polícia não entende quando você chega num espaço e quer ocupar para mudança; é revitalização do espaço a princípio de tudo. Tivemos essa truculência com a polícia, mas mesmo assim a gente continuou fazendo.” 

Um dos primeiros impactos foi uma multa. Em uma das quintas-feiras do ano de 2015 enquanto Rico, Felippe, Bruno e outros amigos começavam a montar o som, chegou, nas palavras de Rico, “um cidadão” da IRLF (Inspetorias Regionais de Licenciamento e Fiscalização) e disse que não poderiam realizar o evento. Por conta de todo esse transtorno em relação à multa, a Roda ficou temporariamente parada, mas depois de um curto período de tempo, as atividades foram retomadas. No entanto, duas semanas depois, dois policiais militares do 16º Batalhão de Olaria interromperam o evento e exigiram a retirada das caixas de som e esvaziamento do local.

Semanalmente o alvará que permitiria o funcionamento da Roda precisava ser negociado e renegociado com o batalhão do bairro. Isto significou, durante todo o ano de 2016, que a Roda legalmente estava proibida de acontecer. Frente a isso, os produtores criaram um movimento que denominaram “Resistência Cultural”. No total, foram quatorze encontros de “resistência” com atividades diversas: desde campeonatos de basquete e skate a batalhas de rimas, exposições de telas e debates. Após o último encontro, a Roda de Olaria conseguiu novamente o alvará e retomou as atividades Porém, vale notar que, múltiplas formas de silenciamentos, repressões e denúncias continuaram a ocorrer. 

Assim sendo, os produtores culturais da Roda de Olaria encontram, em meio às dificuldades de realizar a Roda, suas próprias formas de uso da praça; suas próprias maneiras de fazer (Certeau, 1994). É neste contexto que o trio de produtores vêm desde 2012 “resistindo” e fazendo da rua, nas palavras de Rico, seu “campo de atuação”. 

No dia 9 de janeiro de 2018 houve a promulgação da Lei Estadual nº 7837 que declara Patrimônio Cultural Imaterial do estado do Rio de Janeiro a cultura hip-hop e todas as suas manifestações artísticas. Deste modo, as rodas culturais finalmente estariam dispensadas da prévia autorização da Polícia Militar. Ainda assim, é válido salientar que a dificuldade de manter o evento continua grande. Mesmo amparada pela lei, os produtores não possuem qualquer aporte financeiro ou institucional. Consequentemente, não conseguem arcar com todos os custos para sua realização. Hoje, as reuniões da Roda de Olaria ocorrem com pouquíssima frenquência. 

 

Circulando

O Circulando -  Diálogo e Comunicação na favela é um evento realizado pelo Instituto Raízes em Movimento desde 2007. Atualmente, ele tem uma regularidade anual, mas já foi realizado mais de uma vez por ano, quando necessário, até o ano de 2010. Ele, começa a ser gerido em 2006, em parceria com o Observatório de Favelas e a Escola Popular de Comunicação Crítica (ESPOCC), tendo sua primeira edição realizada no ano seguinte. Trata-se de um evento de artes, cultura e comunicação. A propósito, o nome do evento surge já nas primeiras reuniões de produção da primeira edição. E, em ata de 2006, assim ficou registrado a importância de comunicação e direito de expressão e manifestação de modo ativo. 

A importância e o direito de todos se expressarem, se manifestarem de forma ativa e por meios ativos, de ganharem visibilidade e partilharem idéias e visões diferentes de mundo. Ainda, a importância de se chamar a atenção para o potencial expressivo e “comunicador” de cada indivíduo e meios que, às vezes, muita gente não vê como meios de transmissão de mensagens. E a importância de se chamar a atenção para a forma estereotipada como os chamados meios de comunicação de massa retratam as comunidades populares e de se indicar, quando não viabilizar, possibilidades de abordagens diferenciadas sobre essas comunidades, por essas comunidades (INSTITUTO RAÍZES EM MOVIMENTO, 2017, p. 139).

É importante começar destacando o aspecto de comunicação que caracteriza o evento. Trata-se de uma dimensão de dupla direção. Quer dizer, por um lado, o Circulando tem uma preocupação inicial de dialogar com as/os moradoras/es do Complexo do Alemão; inicialmente, trazendo informações e conteúdos produzidos por atores não locais e difundindo-os favela adentro, mas também, e sobretudo, nos anos mais recentes, têm sido uma maneira do Instituto Raízes em Movimento, apresentar sua produção anual para a localidade. Neste, sentido é (se) comunicar de modo crítico e dialogado com o local que dá sentido à existência da organização, e cuja relação de pertencimento muitas vezes é construída pela mídia tradicional, com seus sangrentos telejornais, entretenimentos baratos e programas evangélicos pentecostais. É nessa seara de luta e produção de narrativas, que o Circulando se insere primeiramente.

Por outro lado, é falar para fora também, tensionar as representações sobre o Complexo do Alemão, que produzem efeitos concretos muito nocivos para o bairro. Por exemplo, no ano de 2010, duas semanas após a megaoperação de ocupação militarizada do Complexo do Alemão, foi realizado uma edição “extra” do Circulando, montado com urgência, mas sem perder a eficiência, para refletir sobre tudo o que estava acontecendo. Para tanto, foi fundamental a ocupação do espaço público, para levar à cidade novos sentido sobre a vida no bairro, com suas dificuldades e diversidades. Uma ferramenta de comunicação de base, interna e externa, através da ocupação do espaço público local, produzindo afetos e solidariedade, este é, o primeiro objetivo do Circulando. 

Nisto temos o comum que se transmuta na multiplicidade, como diversidade, reconhecimento de uma nova configuração dos processos de organização de sujeitos democráticos capazes de expressar potência política (filosófica, estética), que atua de modo horizontal e, portanto, num espaço que lhe permita criar modos de vida, de sentir, ver, agir, ouvir de maneiras diferentes a partir das múltiplas experiências, inclusive do modo de ocupação do espaço – as ruas, becos e vielas, ligam-se e interligam-se, conectam-se e desconectam-se com aquilo que de mais potente tem do que nomeamos cidade: a vida. Compreendendo isso, o Circulando - Diálogo e comunicação na favela propõe alargar, circular, comunicar sob as mais diversas formas de expressão artísticas que compõem a favela. Isso implicar dizer que a favela além de produzir arte, ela produz vida como forma de existência.

Aqui nos reconectamos com o objetivo central do verbete e podemos mesmo afirmar que, falar da produção das artes urbanas é falar da produção da vida na cidade. O que nos remete aos já citados, direitos culturais, como um bem social e o exercício da liberdade de expressão e pensamento. E aqui, sua dimensão principal é a diversidade dos gêneros artísticos que compõem o evento, ressignificando, como apresentado na seção dois deste texto: as formas hegemônicas de produção artística e cultural.  São diversas linguagens que se apresentam no Circulando: grafite, poesia, cinema, teatro, música, fotografia e dança. Às quais se somam outras atividades, voltadas para brincadeira de criança, informativos para serviço públicos e outras organizações locais, e ações de cunho mais acadêmico, como lançamento de livros ou rodas de debates/conversa. 

Essa dimensão artística do Circulando também é uma via de mão dupla interna e externa ao Complexo do Alemão, na chave da arte e cultura como um direito. Por um lado, visa dar espaço e apresentar a produção local às/aos moradoras/es do bairro, mas também aos visitantes que vêm de outros lugares para participar do evento. Desta forma,são convidadas bandas - como o Bloco de samba da Grota - ou ainda cantoras/es, poetas, fotógrafas/os ou grafiteiras/os locais; ou abre-se espaço para o já citado Teatro da Laje ou ao bloco das águas, do bairro vizinho da Penha. 

Por outro lado, há convidados, “de fora”, que compartilham produções pouco acessíveis ao Complexo do Alemão, seja pela falta de apoio para garantir sua difusão em comparação às produções mais lucrativas, seja porque certas produções de organizações parceiras, dificilmente seriam conhecidas localmente, sem a mediação do Instituto Raízes em Movimento, através do Circulando. Podemos citar, a título de ilustração, as participações de fora até do estado do Rio de Janeiro, como a Orquestra Afrobeat Anjos e Querubins e de Juninho, Iracema, Lemuel diretamente da aldeia Tupinambá de Itapoã, em Ilhéus na Bahia. 

Neste sentido, poderíamos também, definir o Circulando como um festival de artes urbanas, com diversas linguagens sendo apresentadas no espaço público periférico. Mantendo seus compromissos com a comunicação e produção de narrativas críticas sobre as favelas, voltado para dialogar com a cidade do Rio de Janeiro como um todo, mas também para dentro do espaço onde é realizado e o ponto de partida para toda sua formulação, o Complexo do Alemão. 

 

Considerações finais

Os exemplos da Roda de Olaria e do Circulando ilustram bem a ideia de falar em “artes urbanas” para tratar da produção cultural oriunda das populações faveladas, por conta de duas de suas características: a primeira é a diversidade de manifestações (por isso, o plural) e a fuga de um concepção de arte pensada a partir de um parâmetro estético mais estático, que considera apenas as formas mais hegemônicas e legitimadas, muitas vezes condensadas no que se costuma chamar de cultura erudita; a segunda, que diz mais respeito ao adjetivo “urbano”, aponta para o espaço por excelência de dessa produção cultural, que é o espaço público, da cidade. 

Todavia, retomando as pistas oferecidas pelo debate promovido no encontro sobre “artes urbanas” do Vamos Desenrolar citado lá no começo do texto, vemos que também estão envolvidas as questões do corpo, da resistência e do apuro estético. Esse conjunto de elementos nos abre um mar de possibilidades de reflexão em torno do triângulo: arte, favelas e cidades.   

 

Referências bibliográficas

ALVES, Rôssi. Resistência e empoderamento na literatura urbana carioca. Estudos de literatura brasileira contemporânea, n. 49, p. 183-202, set./dez. 2016.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. artes de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.

FOUCAULT, Michel.  O Nascimento da Medicina Social. In.: FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. 20ª edição. Rio de Janeiro, Graal, 2005, pp.79-98.

INSTITUTO RAÍZES EM MOVIMENTO. Instituto Raízes em Movimento: um canto à experiência. In.: SANTOS JÚNIOR, Orlando Alves do; NOVAES, Patrícia Ramos; LACERDA, Larissa; WERNECK, Mariana (Orgs.). Caderno Didático “Políticas Públicas e Direito à Cidade: Programa Interdisciplinar de Formação de Agentes Sociais”, Observatório das Metrópoles, 2017, 135-142)

OLIVEIRA, Priscila Telles de. Roda Cultural de Olaria: "resistência" e formas de atuação. 2018, 149f. Dissertação (Mestrado em Antropologia) ,Universidade Federal Fluminense (UFF). Niterói, 2018.

TOPALOV, Christian. Da questão social aos problemas urbanos: os reformadores e a população das metrópoles em princípios do século XX. In.: RIBEIRO, Luiz Cesar Queiroz; PECHMAN, Robert Moses (Org.). Cidade, povo e nação: gênese do urbanismo moderno. Rio de Janeiro, Letra Capital, Observatório das Metrópoles, INCT, 2015, pp. 23 – 52. Disponível em: http://web.observatoriodasmetropoles.net/images/abook_file/cidade_povo_nacao2ed.pdf.

 

 

 

  1. Para maiores informações sobre a organização, ver o verbete “Instituto Raízes em Movimento”, neste dicionário.
  2. Para saber mais sobre o evento, ver o Verbete “Vamos Desenrolar”, neste dicionário.
  3. O termo MC é uma adaptação do inglês master of cerimony, que significa Mestre de Cerimônia. É aquele (a) que, enquanto a é tocada, elabora, recita e canta suas rimas e poesias.
  4. A cada ano, o Circulando tem um mote diferente e, em alguns deles, uma camisa com seu lema é vendida no evento. Em 2017 foi rolébilidade; em 2015, com o mote da memória, a camisa trazia o lema: “Meu nome é favela, minha história também”; e, em 2018, abordando a diversidade, o slogan foi “somos juntxs”.
  5. Ver o verbete “mobilidades”, neste dicionário.
  6. Disponível em: <https://www.facebook.com/pg/circuitocariocaderitmoepoesia/about/?ref=page_internal>. Acesso em: 29/02/2020.
  7. A Roda de Olaria possuía até o ano de 2018 três produtores culturais: Laércio Soares Corrêa, Bruno Teixeira e Felippe Massal. Eles são conhecidos por seus amigos mais próximos como Rico, Bruno Xédom ou “Xerélos” e Massal. Rico é MC e lutador de Jiu-Jtsu, Bruno é tatuador e grafiteiro, e Felippe Massal faz graduação em Direito é responsável por fazer as filmagens das batalhas e fotografias do evento.
  8. Bem como outras Rodas Culturais cariocas.
  9. Alvará de Autorização Transitória para eventos em geral: culturais, sociais, desportivos, religiosos e quaisquer outros que promovam concentrações de pessoas. No caso das rodas culturais, este alvará precisava ser emitido pelo Batalhão da Polícia Militar do bairro.