Educação, Favelas e Quebradas: Racionais MC's - Escutas Comentadas

De Dicionario de Favelas Marielle Franco
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Autoria: Prof. Rodrigo Torquato - IEAR-UFF

Apresentação inicial

Trata-se de um Curso de Extensão, realizado no biênio 2019/2020, no Instituto de Educação de Angra dos Reis, da Universidade Federal Fluminense (IEAR/UFF), e coordenado pelo professor Rodrigo Torquato e pelo graduando e companheiro de luta Mario Ghettogroove Sergio. É uma realização do Grupo de Pesquisa ALFAVELA/UFF, em parceria com o Coletivo UBUNTUFF/IEAR – “Eu sou porque nós somos”. A carga horária é de 80 horas de duração, distribuídas em quarenta horas de aula e quarenta horas de leituras e escutas dos materiais indicados para fundamentar os debates. A primeira turma é composta por 170 inscritos, entre os quais estão professores, estudantes, ativistas sociais e demais interessados, que participam de forma presencial e/ou a distância por meio de canais da internet. EDUCAÇÃO, FAVELAS E QUEBRADAS: RACIONAIS MC,s – ESCUTAS COMENTADAS dá prosseguimento a um rol de estudos – transformados em Extensão –, iniciado em 2016 com os cursos “CAROLINA MARIA DE JESUS: UMA INTELECTUAL VISCERAL” e “PAULO FREIRE - LEITURAS COMENTADAS” (Grupo de Pesquisa ALFAVELA-UFF).

A justificativa para a inclusão de um Verbete, no Dicionário Marielle Franco, referente a um Curso de Extensão com tamanha ousadia, se dá por um motivo político e um pedagógico.

O primeiro – o político – representa o notório desconhecimento, por parte dos atuais governantes, das atividades de Pesquisa e Extensão realizadas nas Universidades Públicas Brasileiras. Tal desconhecimento é reforçado e agravado com as inúmeras declarações proferidas por agentes políticos, lotados em cargos do Governo nas esferas Federal, Estadual e Municipal.

O segundo – o pedagógico – converge para a ideia de que o registro dos objetivos, da metodologia e dos conteúdos, aqui, neste Dicionário, servirá de ponto de partida para a difusão e replicagem desse Curso em outros Estados Brasileiros, ou, até mesmo, em outros países.

Logo, diante dos múltiplos ataques que a Universidade Pública Brasileira vem sofrendo, principalmente após o ingresso das Classes Populares no universo acadêmico (conquista oriunda das lutas sociais), torna-se necessário amalgamar o conhecimento científico produzido nesses espaços com as culturas e conhecimentos forjados nos cotidianos das Favelas e Quebradas. Em outras palavras, a pretensão de um Curso dessa magnitude é compreender o que se passa nos cotidianos desse espaço popular, a fim de expor essa realidade fora dos limites do distanciamento acadêmico.

Educação, Favelas e Quebradas: Racionais MC's - Escutas Comentadas: fundamentação e metodologia


Aprofundar-se no universo de culturas e conhecimentos apresentados por este Grupo de Rap, os Racionais MC’s, constituído por jovens de “Quebradas”, revelará um Brasil construído por aqueles que “sobrevivem no inferno” (em zonas de conflitos) e, consequentemente, constróem uma “narrativa visceral” de suas vivências, o que não pode ser descartado pela Universidade Pública. No entanto, é preciso admitir que, para abordar de forma profunda a obra de Racionais MC’s, faz-se mister considerar a complexidade apresentada nas narrativas e as várias dimensões que constituem a realidade descrita.

Exatamente por isso, parte-se do pressuposto de que aquele que vem fazer um Curso de Racionais MC’s, numa Universidade Federal, traz consigo não somente o interesse acadêmico e/ou uma simples curiosidade, mas, fundamentalmente, muitos saberes acerca dos temas abordados pelos próprios Racionais em sua Obra.

Esses diálogos possibilitarão uma compreensão que vai além da proposta do grupo, tanto do ponto de vista histórico, sociológico, geopolítico, antirracista, quanto da perspectiva metodológica, pois, de alguma forma, para o estudo de temáticas tão viscerais, será necessário o diálogo com os diversos saberes presentes. Dessa forma, a metodologia do Curso é sustentada a partir de dois Princípios: 1) o Princípio da Complexidade dos Conteúdos na Obra de Racionais MC’s; e 2) o Princípio da Horizontalidade dos Saberes.

O primeiro Princípio, a Complexidade dos Conteúdos, sustenta a ideia de que as obras dos Racionais apresentam um raio-x do Brasil, amalgamando uma quantidade de conteúdos que perpassa um período histórico de trinta anos. Logo, todos os saberes, conhecimentos e problematizações envolvidos em suas músicas e narrativas compreendem um grau significativo de complexidade das problemáticas tratadas.

Sendo assim, o segundo Princípio, a Horizontalidade dos Saberes, encontra-se totalmente imbricado ao primeiro, na medida em que mostra que a quantidade de conteúdos da obra de Racionais realiza-se num grau tamanho de complexidade e de profundidade, que uma pessoa só, seja acadêmica ou militante, não consegue abarcar, de forma vertical e unilateral,  todos os saberes dessas narrativas.

É importante ressaltar que são esses Princípios que dão sustentabilidade e fundamentação ao que se denomina aqui de Desafio Metodológico, cujo ancoradouro se firma em três práticas educativas, oriundas de movimentos sociais e de educação popular:

I –  PVNC (Pré-vestibular para Negros e Carentes) – A formação política do estudante de Favelas e Quebradas, com compromisso para além do individualismo e da ideia de meritocracia com a entrada na Universidade – A DISCIPLINA CULTURA E CIDADANIA.

II – MST – (Movimento dos trabalhadores rurais sem-terra): Participação horizontal de todos, a partir da concepção de brigadas – AS BRIGADAS DE ORGANIZAÇÃO POLÍTICO-PEDAGÓGICA DA ESCOLA NACIONAL FLORESTAN FERNANDES.

III – PAULO FREIRE – a substituição da concepção de aula por CÍRCULO DE CULTURA.

A denominação Desafios Metodológicos reside na ideia de que um curso com o grau de complexidade como o da obra de Racionais não permite fazer uso de uma metodologia com procedimentos definidos. No entanto,  para poder dar alguma coesão, do ponto de vista didático-pedagógico, foi necessário sistematizar com rigor o temário pretendido  para trabalho, articulando com  a importância que tem a obra de Racionais. Para isso, as aulas foram divididas em cinco momentos.

1º momento – Escuta-leitura dos textos obrigatórios

O primeiro momento consiste na Escuta-leitura das músicas selecionadas para o encontro do dia. Assim, parte-se da ideia de que a Obra principal a ser abordada no curso são as letras dos Racionais MC’s. Todas as Leituras Complementares que venham dialogar com as Letras das Músicas (como, por exemplo, no caso da categoria de Necropolítica ou na questão do machismo), ancorando o temário de conteúdos programáticos, são secundárias, visto que o Curso adotou como Leitura Principal a Obra Completa dos Racionais MC’s, desde ‘Holocausto Urbano’ até ‘Cores e Valores’. A duração prevista desse primeiro momento é de 20 minutos.

2º momento – Apresentação do tema que dialogará com os comentários

O segundo momento da aula representa a apresentação do tema que dialogará com os comentários analíticos. Aqui, os responsáveis pela coordenação do Curso apresentarão alguns temas. Em alguns encontros, os expositores serão convidados que estudam o tema e estão melhor qualificados para apresentá-lo. Esse momento se dá, após a escuta-leitura dos textos-músicas da obra de Racionais. A duração prevista é de 1h10 minutos.

3º momento – Café com articulação

O terceiro momento se configura como uma “parada pro café”. No entanto, além de representar um período de pausa e alimentação,  será um intervalo de tempo em que todos os participantes do Encontro, inclusive os que estiverem via internet, terão um momento específico para questionar quem apresentou o tema, criticar ou sugerir algum aprofundamento. Somente neste momento do café com articulação, aquele que apresentou o tema do dia poderá replicar as críticas a ele dirigidas. Caso estas venham ocorrer após esse momento, quem apresentou a temática deverá esperar até acabar o Encontro para replicar, caso tenha esse interesse.

Esse momento do café é de suma importância para os objetivos do Curso, pois visa à prática da articulação, do diálogo e das trocas de afetos. No entanto, é também o momento de tirar dúvida, de fazer uma crítica a quem apresentou o tema / conteúdo do dia. A duração prevista é de 30 minutos.

4º momento – Comentários temáticos a partir das canções, das músicas, dos textos-músicas 1h50

Esse momento é o que materializa os Princípios que sustentam o Curso. Nesta etapa, haverá um microfone aberto para a participação do coletivo, proporcionando a valorização e a horizontalidade de todos os saberes, de forma a revelar o reconhecimento do grau de complexidade da Obra dos Racionais MC’s. Será sugerido um tempo de até 5 minutos para cada participação.

O grande desafio desse momento é manter a proposta de que aquele/a que fizer a apresentação do tema naquele dia, que acontecerá no segundo momento,  não terá o “direito” de réplica. É nesse momento do Encontro que uma prática cara aos objetivos do Curso será exercitada: a prática da Escuta. É um momento para aprender a escutar o outro.

As críticas são muitas vezes criminalizadas, como aconteceu com os próprios Racionais. A crítica à sociedade brasileira foi criminalizada por diversas autoridades, o que acarretou muitas consequências à carreira e à difusão da Obra do Grupo. Ou seja, ao narrarem os contextos nos quais estavam inseridos, foram obrigados a expor as próprias vísceras, isto é as NARRATIVAS VISCERAIS (conceito derivado da categoria Pesquisa e Pesquisador/a Visceral, que, posteriormente, deverá ganhar uma verbete próprio). Aquelas nas quais quem narra cria uma vulnerabilidade para si, pois, após narrar, é obrigado a conviver com as consequências que a sua narrativa vai gerar no contexto em que está inserido.

No caso dos Racionais MC’s, a sua NARRATIVA VISCERAL transformou a vida deles, como eles mesmos assumem em entrevistas, em um verdadeiro inferno. Assim, eles tiveram de sobreviver num outro inferno – pela segunda vez, já que a primeira era a própria vida de sofrimento e lutas cotidianas – devido às críticas que faziam ao Brasil.

5º momento – Momento de informes

O último momento ficará reservado para informes gerais, com duração prevista de 10 minutos.

O Conteúdo está diretamente ligado à análise das músicas e dos livros da Bibliografia Complementar do Curso, distribuídos pelos Eixos Temáticos elencados abaixo:

1 - História e Contexto Histórico,

2 - Violências Cotidianas, Direitos Civis e Criminologia Crítica,

3 - Escolas, escolarização e racismo,

4 - Estéticas, machismo e Mulheres Negras,

5 - Literaturas "marginais?",

6 - Relação Favela x asfalto e Necropolítica,

7 - Musicalidades e Literaturas precedentes,

8 - Formação de Professor(a) nas/das Favelas-Quebradas,

9 - Inteligência Bandida - uma questão conceitual,

10 - Encerramento

Já no que tange à Didática de ensino para cada Encontro-aula, a proposta é uma atividade planejada de forma prévia, porém, aberta de tal modo, que impulsione a participação do coletivo presente, especialmente em um dos momentos previstos na Metodologia.

Para a aprovação e conclusão do Curso serão consideradas a presença e a participação nos debates e exposição dos textos, previstos dentro da Metodologia. Os critérios de avaliação serão: APTO ou NÃO APTO.

O objetivo Geral é proporcionar uma Formação Coletiva, Crítica, Política e Dialógica. Já os objetivos específicos são: a) estudar e divulgar a Obra dos Racionais MC’s; b) apresentar e tentar compreender os contextos de quem está obrigado a “sobreviver no inferno”; c) discutir a importância dos Saberes e Conhecimentos oriundos da Favelas e Quebradas; ampliar a formação dos professores e dos militantes sociais que atuam no Campo da Educação e dos Direitos Sociais e Humanos.

Referências Bibliográficas


Principais

RACIONAIS MC’s. Obra Completa (DISCOGRAFIA) – do Holocausto Urbano até Cores e Valores.

JOCENIR. Diário de um detento: o livro. São Paulo: Labortexto Editorial, 2001.

Complementares

BAMBIRRA, V. O capitalismo dependente latino-americano. Florianópolis: Insular, 2012.

BARATTA, A. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal: introdução à sociologia do direito penal. 6 ed. Rio de Janeiro: Editora Revan: Instituto Carioca de Criminologia, 2011. 

BATISTA, N. Punidos e mal pagos: violência, justiça, segurança pública e direitos humanos no Brasil hoje. Rio de Janeiro: Revan, 1990.

BATISTA, V. M. Introdução crítica à criminologia brasileira. 2 ed. Rio de Janeiro-RJ: Revan, 2012.

__________. O medo na cidade do Rio de Janeiro: dois tempos de uma história. Rio de Janeiro: Revan, 2003.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

D`ELIA FILHO, O. Z. Indignos de vida: a forma jurídica da política de extermínio de inimigos na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revan, 2015.

DOWDNEY, L. Crianças do tráfico: um estudo de caso de crianças em violência armada organizada no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2003.

FANON, Frantz. Os condenados da terra. Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2005.

FREIRE, Paulo. Conscientização: teoria e prática da libertação; uma introdução ao pensamento de Paulo Freire.São Paulo: Moraes, 1980.

_____________. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016.

_____________. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

LEITE, M. P. Para além da metáfora da guerra. Percepções sobre cidadania, violência e paz no Grajaú, um bairro carioca. RJ: PPGSA/IFCS/UFRJ (tese de doutorado em Sociologia), 2001.

LUDEMIR, J. Sorria, você está na Rocinha. RJ: Record, 2004.

MACHADO DA SILVA, L. A. Sociabilidade violenta: por uma interpretação da criminalidade contemporânea no Brasil, in RIBEIRO, L. C. Q. (org.) Entre a coesão e a fragmentação, a cooperação e o conflito. SP, Perseu Abramo/RJ: Fase, 2004.

MARINI, R. M. Subdesenvolvimento e revolução. 5.ed. Florianópolis: Insular, 2014.

_____________ Dialética da dependência. Petrópolis/RJ: Vozes; Buenos Aires: CLACSO, 2000.

MARTINS, J. S. Linchamento: a justiça popular no Brasil. São Paulo: Contexto, 2015.

MOLINA, A.G.P. O que é Criminologia? São Paulo: Ed. Revista do Tribunais, 2013.

Relatório da Intervenção no Rio– 16/02/2018 a 16/04/2018 – Centro de Estudo de Segurança e Cidadania/ CESEC & Observatório da Intervenção, 2018.

RAUTER, C. Criminologia e subjetividade no Brasil. Rio de Janeiro: Revan, 2003.

RIBEIRO, A. C. T.  Cidade e capitalismo periférico: em direção à experiência popular.  Margem Esquerda, v. 12, p. 25-31, 2008.

RIBEIRO, L. C. Q. e KAZTMAN, R.   A cidade contra a Escola? Segregação urbana e desigualdades educacionais em grandes cidades da América Latina. Rio de Janeiro: Letra Capital: FAPERJ; Montevidéu-Uruguai: IPPES, 2008.

SANTOS, J. C.  Direito Penal - Parte Geral. 4.ed. Florianópolis: Conceito Editorial, 2010.

SILVA, R. T.  Escola-Favela e Favela-Escola: "esse menino não tem jeito!" Petrópolis

TERRA, J. M. & CARVALHO, T. F. Justiça paralela: criminologia crítica, pluralismo jurídico e (sub) cidadania em uma favela do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revan, 2015.

VALENTE, J. L. Upps: governos militarizados e a ideia de pacificação. Rio de Janeiro: Revan, 2016.

ZAFFARONI, E. R. O inimigo no Direito Penal. 2 ed. Rio de Janeiro-RJ: Revan, 2007.

ZAFFARONI, E. R., BATISTA, N., ALAGIA, A., SLOKAR, A. Direito Penal Brasileiro – I. Rio de Janeiro: Revan, 2003.  

ZOLO, D. Teoria e crítica do Estado de Direito. In. COSTA, P. & ZOLO, D. (org.) O Estado de Direito: história, teoria, crítica. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

RAMOS, Guerreiro. Mito e verdade da revolução brasileira. Editora Insular – IELA, 2016.

Sites indicados

1 - GRUPO DE PESQUISA ALFAVELA

2 - Beat Street 1984

3 - Breakdance 1984 Break Dance

4 - Passinhos dos anos 80 e 90 e etc.

5 - Endereço dos Bailes

 

 

Curso de Extensão "Educação, Favelas e Quebradas – Escutas Comentadas" (IEAR/UFF)

A abertura do Curso de Extensão “Educação, Favelas e Quebradas – Escutas Comentadas”, realizado no Instituto de Educação de Angra do Reis da Universidade Federal Fluminense (IEAR/UFF), ocorreu em 23 de novembro de 2019, com coordenação do prof.º Dr.º Rodrigo Torquato da Silva e organização do grupo de pesquisas Alfavela/UFF.

Em tempos de quarentena, o grupo trabalhou para fazer a edição do 2º Encontro, que está disponível por meio de plataforma on-line, sob coordenação do prof.º dr.º Rodrigo Torquato da Silva e do estudante do curso de Pedagogia Mario Ghettogroove Sergio, junto com o Grupo de Pesquisas Alfavela/UFF.

Você pode acompanhar às aulas[1] através destes links:

Aula 1

Aula 2

 

Ver também: Pesquisa - Pesquisador/a Visceral - Emergência e Genealogia das Categorias

 

 

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