Emerson Claudio Nascimento dos Santos, o Repper Fiell

De Dicionario de Favelas Marielle Franco
Ir para: navegação, pesquisa

Por Núcleo Piratininga de Comunicação 

Fiell.jpeg

Às vésperas de completar a maioridade, Repper Fiell, como o paraibano Emerson Claudio Nascimento dos Santos é conhecido no movimento Hip-Hop, nasceu no bairro de Monte Castelo, na zona Leste de Campina Grande, na Paraíba. De uma família de quatro irmãos – ele é o caçula dos filhos homens, Emerson assumiu o nome artístico Fiell aos 18 anos   antes de lançar seu primeiro CD: “Mundo Cão”.

Depois da estreia em 2003 vieram “Árbitro da Própria Vida”, em 2006, “Pedagogia da Dominação”, em 2013, e “Precisamos nos armar de Informação”, em 2015. Repper Fiell prepara seu quinto CD, que está previsto para ser lançado em 2020. Sua carreira artística inclui ainda o curta metragem “788” – filme premiado nos festivais “Favela É Isso Aí”, de Belo Horizonte (MG), e “Câmara Mundo”, da Holanda --, clips de sucesso, como “Chamada a cobrar”, e o livro “Da Favela para as Favelas".

Nascido em 29 de maio de 1979, a transformação de Emerson em Fiell ocorreu lentamente. Tudo começou depois de um programa de TV. Era fim dos anos 1980, o menino tinha uns 10 anos e o movimento Hip-Hop acabara de desembarcar no Brasil. À época, os jovens da periferia de São Paulo se reuniam na Galeria 24 de Maio e na estação São Bento do metrô para ouvir o som que ecoava do Bronx – o bairro novaiorquino que virou o berço do Hip-Hop nos anos 1970, nos Estados Unidos.

Aquela mistura de ritmo e poesia com crítica social mudou a vida de Emerson. O RAP virou sua escola, se transformou em religião e passou a ser sua filosofia de vida. Foi amor à primeira vista. Aos 18 anos, já vivendo com uma tia (Dona Luzia), na favela Cidade de Deus, em Jacarepaguá, na zona Oeste do Rio de Janeiro, Emerson ouviu, pela primeira vez, uma fita cassete dos Racionais MCs nos anos 90.

O grupo paulista acabara de lançar o CD “Sobrevivendo no Inferno”, que falava de violência policial, da vida nas prisões, do tráfico, do racismo.  Inspirado naquele som, que parecia a revanche dos excluídos, Emerson não parou mais de criar rimas feitas através do seu olhar de jovem negro, nordestino e imigrante.

Depois de trabalhar como entregador de farmácia e ajudante de cozinha, virou lavador de carro. O dono da concessionária onde trabalhava cedeu uma casa para Fielll morar em Jacarepaguá – não demorou muito para o endereço virar o ponto de encontro dos rappers da cidade. Emerson foi submergindo à medida que Fiell crescia como artista, músico e articulador do movimento Hip-Hop carioca.

A guinada final ocorreu em 2006, quando Fiell mudou-se para o Morro Santa Marta, em Botafogo, na zona Sul carioca. O braço esquerdo ganhou uma tatuagem gigante com o rosto de Malcolm X – um dos maiores defensores do nacionalismo negro nos Estados Unidos. Profissionalmente, Emerson virou Repper, ao invés de Rapper, como se autodenominam os americanos – ele decidiu abrasileirar o nome valorizando o Repente, o improviso cantado, alternado por dois cantores, que passou a infância ouvindo. Seu avô era repentista. O jovem negro, nordestino e imigrante ganhava um novo predicado: Fiell, o repper militante.

Em 2007, Fiell lançou o projeto cultural Hip-Hop Santa Marta – evento que junta artistas da própria favela, de diferentes bairros da cidade e até de outros estados. Desde então, o encontro vem sendo produzido pelo coletivo de Hip-Hop, Cinema, Comunicação Popular e Direitos Humanos Visão da Favela Brasil, coordenado pelo repper militante.

No ano seguinte, com a entrada em operação da primeira Polícia Pacificadora (UPP) no morro Santa Marta, teve início uma sucessão de violações de direitos humanos na favela. Fiell escreveu “Cartilha de Abordagem Policial” – um livreto que ganhou versão em inglês e foi fundamental para garantir os direitos dos moradores e reduzir os abusos contra a população local perpetrada pela equipe da UPP.

Em 2010, Fiell lançou a Rádio Comunitária Santa Marta. No ano seguinte, a rádio saiu do ar, quando Fiell e o amigo Peixe foram detidos pela polícia federal porque a rádio não tinha outorga, ou seja, autorização para funcionar.

Repper Fiell é casado com a pedagoga Márcia Aguiar e pai de Sofia Aguiar Nascimento, de 5 anos de idade.