A Rocinha, a favela mais densamente povoada do Brasil

Por equipe do Dicionário de Favelas Marielle Franco

Neste bairro do Rio de Janeiro, migrantes do Nordeste pobre chegam em busca de trabalho nos bairros ricos vizinhos. No país de Lula, 16 milhões de pessoas vivem em favelas — 8% da população, contra 6% há dez anos.

Autoria: Anne-Dominique Correa. Publicado originalmente no Le Monde.

Reportagem[editar | editar código-fonte]

Quinze metros quadrados. Essa é a área onde Joao Pedro Lima, um pai solteiro de 21 anos, de braços musculosos e tatuados, vive com sua filha de 1 ano, Sophia. O kitnet, um pequeno estúdio adaptado no porão de um prédio de três andares feito de tijolos, fica no fim de uma viela estreita e escura. É o único lugar que ele conseguiu alugar na Rocinha, a maior favela do Rio de Janeiro, situada em uma encosta na zona sul da cidade. Sem espaço suficiente, pai e filha dividem uma cama de solteiro e meio, e o banheiro foi instalado dentro do box do chuveiro, separado do restante do estúdio apenas por uma porta de correr. Sem lugar para uma mesa, Sophia come no sofá, com o prato no colo. O móvel, estreito e coberto por um tecido florido, fica encostado na cama. Joao, por sua vez, faz as refeições em pé.

Apesar da falta de conforto, o jovem, que trabalha em uma agência de viagens, não reclama. Pelo contrário, ele se considera um “privilegiado”. “Aqui, esse lugar é um luxo”, afirma. Como em outras favelas do Brasil, a Rocinha enfrenta uma intensa expansão demográfica. “Está cada vez mais difícil encontrar um lugar decente para morar”, lamenta Joao. “Onde eu vivia antes, não tinha ventilação, e minha filha tinha crises de asma.”

De acordo com o último censo demográfico do Brasil, realizado em 2022 e divulgado em 11 de novembro de 2024, a população que vive em favelas passou de 11 para 16 milhões de pessoas nos últimos dez anos. Isso representa um aumento de 6% para 8,1% da população nacional, que era de 203 milhões de habitantes em 2022.

“Rocinha está crescendo para cima!”[editar | editar código-fonte]

Nesse período, a Rocinha, a maior favela do Brasil, ganhou pelo menos 2.860 novos moradores, totalizando uma população de 72.021 pessoas. Com 48.367 habitantes por quilômetro quadrado, é a área de maior densidade populacional do país. No entanto, a associação de moradores da comunidade afirma que o número real é ainda maior. Segundo seus levantamentos, há cerca de 170.000 moradores na Rocinha, o que resultaria em uma densidade de 118.000 pessoas por quilômetro quadrado – 22 vezes a média do Rio de Janeiro!

O crescimento acelerado se deve, principalmente, à localização privilegiada da favela, explica Kharine Gil, socióloga e pesquisadora do Dicionário das Favelas Marielle Franco, um centro de estudos sobre favelas e periferias. Cercada por dois dos bairros mais ricos do Rio – São Conrado, ao sul, e Gávea, ao norte –, a Rocinha atrai muitos migrantes, principalmente do Nordeste, a região mais pobre do Brasil. A maioria chega em busca de trabalho nos bairros vizinhos, geralmente como pedreiros, garçons ou empregados domésticos.

Segundo o censo, 56,8% da população da Rocinha se declara parda (termo usado para designar pessoas de pele morena ou mestiça) e 16,1% se considera negra.

Entretanto, a favela já não tem mais espaço para acomodar tanta gente. “A Rocinha não pode mais crescer para os lados”, constata Alex de Jesus Telles, um vendedor ambulante de óculos de sol de 48 anos. Parado ao lado de sua barraca, na saída do metrô aos pés da favela, ele observa as casas de tijolo e concreto empilhadas umas sobre as outras, formando prédios coloridos e irregulares, que ocupam quase toda a encosta antes coberta por mata atlântica. “Agora, a Rocinha cresce para cima!”, exclama.

200 toneladas de lixo por dia[editar | editar código-fonte]

Para conseguir espaço, muitos moradores constroem novos andares sobre suas casas. Alex mesmo ergueu dois kitnets sobre a residência herdada dos pais, para garantir moradia para seus seis filhos. A poucos minutos dali, um prédio de 11 andares bateu recordes de altura na favela e ganhou o apelido de “Empire State” entre os moradores.

Mas essas construções improvisadas raramente seguem normas de segurança e planejamento urbano. “A maioria não tem ventilação adequada, iluminação natural ou exposição ao sol”, alerta Geronimo Leitão, arquiteto e urbanista da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Construídas sem planejamento, muitas dessas casas bloqueiam as janelas dos vizinhos, ocupam os últimos espaços verdes e até invadem calçadas movimentadas, onde motos-táxi circulam sem parar.

Algumas vielas, chamadas de “becos”, se tornaram tão estreitas que parecem túneis. Muitos lugares já não são acessíveis para carros, dificultando o acesso a serviços essenciais, como correios – a maioria dos moradores sequer tem endereço oficial – e até ambulâncias ou caminhões de bombeiros. “Já precisei carregar doentes e cadeirantes em carroças para levá-los ao posto de saúde”, conta Giliard Barreto, ex-agente comunitário de saúde e cofundador do coletivo humanitário Tamo Junto Rocinha.

A coleta de lixo também é um grande problema. Os moradores precisam descartar seus resíduos em grandes contêineres nas ruas mais largas, onde os caminhões conseguem passar. Mas esses pontos não dão conta das cerca de 200 toneladas de lixo produzidas diariamente na favela. Como resultado, pilhas de sacos plásticos, restos de comida e até eletrodomésticos quebrados se acumulam ao longo das vias, exalando um cheiro insuportável.

“Um terreno fértil para doenças”[editar | editar código-fonte]

Quando chove, a situação piora. “As ruas sem escoamento adequado viram verdadeiras cachoeiras e arrastam o lixo para o fundo da favela”, explica Joao Mina, sociólogo urbano do Instituto de Estudos Sociais e Políticos. O lixo se acumula em um canal a céu aberto na região conhecida como Valão, onde também escoam esgotos. Esse córrego poluído, coberto por placas de metal, se tornou um foco de transmissão de doenças.

Na Rocinha, “as moradias sem ventilação e superlotadas são um ambiente perfeito para a disseminação de doenças”, alerta Roberta Gondim, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz. Em 2023, o índice de tuberculose na favela foi de 35,4 casos para cada 10.000 habitantes – dez vezes a média nacional, que é de 3,7.

Mesmo com o esforço das equipes de saúde da Rocinha, que fazem visitas domiciliares para diagnosticar e tratar moradores, a doença persiste. “Enquanto as condições de vida não melhorarem, as pessoas continuarão adoecendo”, afirma Gondim. “O problema não é a falta de remédios, médicos ou tecnologia, mas sim as desigualdades sociais.”

“Precisamos de regulação”[editar | editar código-fonte]

Diante da crise habitacional e sanitária, a Associação de Moradores da Rocinha busca soluções. “Estamos negociando com empresas privadas para garantir água potável, saneamento e tarifas mais baixas de energia”, diz João Bosco, presidente da entidade. Ele lembra que 3.861 famílias vivem em situação de extrema pobreza, com menos de R$ 209 por mês, e não conseguem pagar contas de luz. Como alternativa, muitos fazem ligações clandestinas, sobrecarregando a rede elétrica.

Para o urbanista Marat Troina Menezes, a Rocinha precisa de mais do que medidas emergenciais: “É necessário controle e fiscalização, com presença do poder público para impedir construções irregulares”. Nos anos 2000, programas federais de urbanização trouxeram melhorias, mas, desde então, as obras foram interrompidas.

Com a crise econômica e o escândalo da Lava Jato, que paralisou investimentos, a Rocinha voltou a se deteriorar. Mesmo com o relançamento de programas sociais pelo governo Lula, especialistas acreditam que o futuro da favela segue incerto.

Ver também[editar | editar código-fonte]