Chacina de Acari - 26 de julho de 1990

Por equipe do Dicionário de Favelas Marielle Franco

A Chacina de Acari ocorreu no dia 26 de julho de 1990 quando 11 jovens, sendo 7 menores de idade, da favela do Acari, no Rio de Janeiro, foram sequestrados de um sítio em Suruí, município de Magé, onde passavam o dia, por um grupo que se identificava como sendo formado por policiais. Mesmo após pedir jóias e dinheiro em troca da liberação dos jovens aos familiares, nenhum deles retornou a suas famílias e seus corpos nunca foram encontrados. Formada pelas mães das vítimas, a organização Mães de Acari foi pioneira na luta contra a violência da polícia no país, ainda que em 1993, Edmea da Silva Euzébio, líder do grupo, tenha sido assassinada. A Anistia Internacional relatou em 1994 que os sequestradores haviam sido identificados pelo setor de inteligência da Polícia Militar como sendo policiais militares. Em 2010 o caso prescreveu e nenhum acusado foi responsabilizado pela Chacina. Em 2019, foi anunciado que sete acusados de matar Edméa Euzébio vão a júri popular - o que também ainda não aconteceu. A história das mães dos garotos desaparecidos que buscam justiça foi contada no livro "Mães de Acari", do jornalista Carlos Nobre. O caso está na lista da Superinteressante (2015) de "5 crimes que chocaram o Brasil na década de 1990". Após 32 anos, em 1º de julho de 2022, foi sancionada lei que determina que o Governo do Estado do Rio de Janeiro pague indenização às mães das vítimas da Chacina de Acari.

Autoria: Equipe do Dicionário de Favelas Marielle Franco
Este trabalho é uma parceria entre os grupos GENI/UFF, RADAR SAÚDE FAVELA e CASA (IESP-UERJ) com o Dicionário de Favelas Marielle Franco.
Foto: João Roberto Ripper/Acervo Anistia Internacional


História[editar | editar código-fonte]

O crime [editar | editar código-fonte]

No dia 26 de julho de 1990, onze jovens da Favela de Acari, dentre eles alguns menores de idade, passavam o dia em um sítio em Magé, na Baixada Fluminense. Abordados por policiais que vasculharam o local em busca de dinheiro e apreensões, os jovens foram levados à força para local desconhecido. Os sequestradores entraram em contato com as famílias dos jovens pedindo joias e dinheiro, e após supostamente negociarem a libertação por meio de pagamento, durante cerca de uma hora - segundo a única testemunha do caso, Dona Laudicena, já falecida - os sequestradores levaram as 11 vítimas a um local abandonado. Nem seus corpos, até hoje, foram encontrados. As mães dos desaparecidos começaram uma busca pelos filhos e por justiça, e ficaram conhecidas como Mães de Acari. Em 1993, Edméa da Silva Euzébio, uma das mães, foi assassinada quando buscava informações sobre o paradeiro do filho, Luiz Henrique da Silva Euzébio. O inquérito policial, sob o número 07/98, na Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense, foi encerrado por falta de provas em 2010, e ninguém foi indiciado.

O assassinato da líder do grupo Mães de Acari[editar | editar código-fonte]

A mãe de uma das vítimas da Chacina de Acari, Edméa da Silva e Sheila da Conceição foi igualmente assassinada em 20 de julho de 1993 na saída de um presídio, quando estava na cia de sua cunhada, também assassinada. Segundo familiares e a Anistia Internacional, Edmea havia conseguido reunir novas provas sobre o caso do desaparecimento do filho e dos 10 jovens de Acari. Segundo uma denúncia apresentada na justiça em 2014, o crime teria sido ordenado pelo coronel e ex-deputado reformado da PM e ex-deputado estadual Emir Campos Larangeira, que seria líder de um grupo de extermínio formado por policiais militares. Também foram réus os Policiais Militares Eduardo José Rocha Creazola - o "Rambo"; Arlindo Maginário Filho; Adilson Saraiva Hora - o "Tula"; Irapuã Ferreira; o ex-PM Pedro Flávio Costa; o servidor municipal Luiz Cláudio de Souza - o "Mamãe" ou "Badi"; e o agente penitenciário Washington Luiz Ferreira dos Santos. Este último processo foi desmembrado do principal e entrou na fase de produção de provas. Segundo o Ministério Público, os acusados formavam um grupo conhecido como "Cavalos Corredores", liderado pelo coronel Emir Larangeira, agindo com mais frequência na década de 90, época que o oficial comandou o 9º BPM (Rocha Miranda). Foi informado em março de 2019 que sete dos acusados vão a júri popular.

Filme[editar | editar código-fonte]

A exibição do filme "Luto como mãe", em 24 de julho de 2010, na quadra da Escola de Samba Favo de Acari, marcou os 20 anos da chacina e trouxe de São Paulo as Mães de Maio, cujos filhos sumiram em circunstâncias semelhantes. O promotor Rogério Scatamburlo, coordenador do Centro Integrado de Apurações Criminais (Ciac), disse que vai checar a existência do inquérito na Deac da 6ª DP e o depoimento da testemunha sobre o caso de Acari.

Nomes das vítimas[editar | editar código-fonte]

  1. Viviane Rocha, 13 anos
  2. Cristiane Souza Leite, 16 anos
  3. Wudson de Souza, 16 anos
  4. Wallace do Nascimento, 17 anos
  5. Antônio Carlos da Silva, 17 anos
  6. Luiz Henrique Euzébio, 17 anos
  7. Edson de Souza, 17 anos
  8. Rosana Lima de Souza, 18 anos
  9. Moisés dos Santos Cruz, 31 anos
  10. Luiz Carlos Vasconcelos de Deus (vulgo Lula), 37 anos
  11. Edio do Nascimento, 41 anos

 

Sobre a Chacina de Acari[editar | editar código-fonte]

Autores: Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência.

Na noite de 26 de julho de 1990, onze jovens, a maioria moradores da favela de Acari ou de suas proximidades, foram levados à força por homens que se diziam policiais, do sítio em que se encontravam em Magé, região metropolitana do Rio de Janeiro.

Os onze desaparecidos foram Rosana Souza Santos (17 anos); Cristiane Souza Leite (17); Luiz Henrique da Silva Euzébio (16); Hudson de Oliveira Silva (16); Edson Souza Costa (16); Antônio Carlos da Silva (17); Viviane Rocha da Silva (13); Wallace Oliveira do Nascimento (17); Hédio Oliveira do Nascimento (30); Moisés Santos Cruz (26); Luiz Carlos Vasconcelos de Deus (32). Em janeiro de 1993, Edméia da Silva Euzébio, mãe de Luiz Henrique da Silva Euzébio, foi assassinada enquanto saía de um presídio, onde fazia investigações por conta própria em busca informações que levassem a solucionar o caso. A Anistia Internacional relatou em 1994 que os sequestradores haviam sido identificados pelo setor de inteligência da Polícia Militar como sendo policiais militares do 9º Batalhão da Polícia Militar em Rocha Miranda e como detetives do Departamento de Roubo de Carga, da 39ª Delegacia de Pavuna. A investigação indicava que os policiais militares envolvidos vinham extorquindo algumas das vítimas antes do sequestro. Segundo denúncias feitas na época do caso, alguns desses policiais seriam integrantes de um grupo de extermínio denominado “Cavalos Corredores”. De acordo com informações recebidas pela Anistia Internacional, as buscas feitas pelas autoridades em possíveis locais de enterro foram negligentes e destrutivas, possivelmente resultando em danos permanentes aos locais. O caso foi objeto de petição junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, para que seja apreciado pela Corte Interamericana da Organização dos Estados Americanos (OEA). A “Chacina de Acari” ficou marcada como o primeiro grande crime envolvendo várias vítimas de uma só vez, cometido por policiais, em serviço ou não, contra moradores de favelas e periferias pobres, após o restabelecimento do regime democrático. As “Mães de Acari” se tornaram símbolo de uma longa e difícil luta por justiça, iniciando um caminho trilhado por muitas mães, pais, irmãos e amigos de vítimas do Estado que se seguiram. Apesar dos esforços de mães e autoridades, os onze jovens ou seus corpos jamais foram encontrados. Numerosos indícios e informações apontam a participação de policiais militares e civis na chacina. Mas sem os corpos nunca houve processo judicial; o inquérito não foi concluído e ninguém foi denunciado pela justiça. Em 2010, transcorridos vinte anos do ocorrido, o caso prescreveu e foi arquivado. Atualmente, quase trinta anos depois, o sequestro continua envolto em total impunidade.