Feminismo e Agroecologia - Ana Santos do CEM e Força Motriz (Live)
Reunião aberta realizada remotamente em 2 de julho de 2020, promovida pelo NATEP-UFRJ e o Coletivo Força Motriz, sendo um dentro de uma série de conversas transmitidas pelo YouTube no período da pandemia de covid-19. O coletivo se apresenta na descrição do vídeo como uma "assessoria técnica popular que visa aplicar o conhecimento técnico de maneira popular na luta pela justiça social e soberania nacional. Fazemos parte da organização política Brigadas Populares."
Para essa conversa, foi convidada Ana Santos, uma das fundadoras da ONG Centro de Integração na Serra da Misericórdia (CEM), que, através da agroecologia, atua no território pela promoção da saúde, da cidadania e da educação popular.
Live[editar | editar código-fonte]
Transcrição da Live[editar | editar código-fonte]
Apresentação[editar | editar código-fonte]
Eduarda Azevedo - Coletivo Força Motriz, representante do NATEP-UFRJ: [...] Núcleo de Assessoria Técnico Popular, coordenado por professora uma professora da UFRJ da engenharia de materiais. Temos três projetos de extensão: o projeto de educação popular; o projeto de construção popular, o TCP; e temos também o projeto (que é esse aqui) o projeto de agroecologia. Então esse aqui é o grupo de agroecologia, que é para pensar a agroecologia socialmente. Como que a gente pode trazer a agroecologia para dentro das comunidades? Então esse projeto, no final da quarentena, nós vamos iniciar ele direto (por enquanto nós estamos fazendo os estudos remotamente), mas a ideia é criar uma horta comunitária dentro da comunidade da Barreira do Vasco, lá em São Cristóvão, aqui no Rio de Janeiro. Tudo vai ser feito de maneira extremamente integrada aos moradores. Enquanto isso, nós estamos fazendo diversas reuniões com pessoas mais experientes já, que tenham projetos mais consolidados nessa área. Estamos também fazendo estudos de diversos temas agroecológicos mais técnicos. Fora isso, daqui a pouco nós vamos começar a efetivamente cuidar do espaço para fazer a nossa plantação.
Hoje, para nossa reunião a gente veio trazer um tema muito importante como maneira de divulgar o nosso trabalho e trazer esse tema que é extremamente importante, mais do que a gente pensa. Além disso, esse coletivo faz parte das Brigadas Populares, que é uma organização política mais abrangente, que podemos falar melhor mais a frente. Fora esses três projeto de extensão que mencionei rapidamente, nós também temos um sistema de atendimento online para moradores de diversas comunidades do Rio de Janeiro, que é o Favela Viva. É um sistema que está acontecendo já e está tendo muito sucesso já, graças a Deus, que pretendemos expandir para mais comunidades. Ele é um sistema que têm atendimentos psicológicos, na área da saúde, na área jurídica e na área social, com diversos profissionais voluntários dessas áreas. A ideia é ajudar as pessoas que estão em maior vulnerabilidade nesse momento a tirarem as suas dúvidas, resolverem as suas questões, principalmente em um período tão delicado quanto é esse período de pandemia.
Agora vou passar a palavra para a Ana, para ela explicar melhor sobre o que que é o CEM e qual trabalho que eles estão realizando nesse momento.
Ana Santos: Olá, boa tarde a todas e todos. Agradeço esse espaço que é de fundamental importância para o envolvimento do nosso trabalho e fortalecimento das bases, uma vez que a gente tá numa das áreas mais frágeis, e trabalhando com uma área tão frágil, que é a agricultura. Apesar de ser a agricultura familiar que alimenta a cidade, que nos alimenta, ela é muito desassistida, assim como a favela, que sofre muito com a ausência do Estado. Me chamo Ana Santos, sou culinarista, educadora popular e desenvolvo um trabalho de agricultura urbana no território da Serra da Misericórdia, no complexo de favelas da Penha. Eu costumo dizer que o Instituto Pereira Passos determina que são 11 favelas, né, mas aqui pra gente são muito mais. Tem a Estradinha, a Favelinha, a Terra Prometida, local da qual eu ocupo, não só morando, como resgatando saberes. O CEM foi fundado em 2011, e é um espaço de troca de saberes entre a comunidade, a academia e é muito forte o trabalho em redes. A gente desde o início entendeu que se a gente não está em rede, o nosso trabalho fica muito vulnerável. Integração porque a gente fortalece essa integração entre a Serra da Misericórdia, que é uma área verde da Grande Leopoldina - ainda um suspiro de Mata Atlântica. Muita gente se pergunta se na favela tem meio ambiente. A agroecologia é muito forte esse trabalho com a academia. É um resgate de saberes ancestrais e é bacana ouvir de vocês esse trabalho na Barreira do Vasco. Não tá tão longe, também na Zona Norte, que é tão sufocada né e tão estimulada pra empresas cada vez mais poluentes. Então saber que a universidade tá atuando a partir da extensão em territórios tão frágeis e, ao mesmo tempo tão potentes, é muito positivo. E eu acho bacana quando vocês falam que é pra fazer com os moradores né, porque ninguém leva nada pra ninguém, mas com alguém. E é com "alguéns" que a gente vai ter essa conversa hoje. Eu normalmente parto pelo caminho das águas, e hoje eu começo pela terra. Uma boa tarde.
Relação entre Agroecologia e Feminismo[editar | editar código-fonte]
Núcleo de Assessoria Técnica Popular (NATEP-UFRJ/UERJ): Eu queria iniciar com uma pergunta que é bem geral, mas que é justamente pra gente começar a gente fazer esse link, né?, da agroecologia com o feminismo, que muitas vezes também negligenciado, que é: Qual é a relação entre o feminismo com a agroecologia?
Ana: A agricultura nasce na mão das mulheres, né? Assim como o cuidar da casa, a mulher sempre cuidou do seu quintal, das suas galinhas, das suas ervas. Eu posso traçar diversos caminhos que chegam nesse feminismo através da agroecologia, mas eu vou partir do momento em que eu estive. O GT [grupo de trabalho] Mulheres da ARRJ que eu entre de 2014 pra 2015, ele nasce em 2013, a partir do encontro estadual de agroecologia, e no ENA, no Encontro Nacional de Agroecologia, de 2014, as mulheres levantam a bandeira “sem feminismo não há agroecologia”. Já no ENA de 2018 as mulheres levantam a bandeira “sem feminismos não há agroecologia”. E pensar em feminismo, eu penso que são duas palavras muito fortes, muito potentes, e que dialogam, e que se fortalecem. Pensar no feminismo pra mim enquanto mulher, preta, pobre e favelada, agente sempre pensa no feminismo a partir da queima do sutiã, da Europa, né? Eu parto do feminismo daquela mulher que foi escravizada e já nasceu trabalhando. Me perguntam quando que eu comecei a ser feminista. Se for pelo trabalho, foi aos 3 anos de idade, sentada já secando a louça, ajudando a minha mãe. Porque ressignificar esse papel da cozinha já é um ato extremamente feminista, né, e a agroecologia tem esse papel muito sutil, delicado e ao mesmo tempo muito potente, de ressignificar esse papel da mulher. Houve uma cartilha, não sei se vocês acompanharam, mapeando tudo que aquela mulher tinha no quintal. Isso foi muito potente. Porque eu lembro da Aline, do Políticas Alternativas do Cone Sul, dizendo que quando ia visitar um quintal, era o homem de frente, mostrando o grande plantio dele, de aipim, de batata doce, e a mulher, uma simples ajudante. Até que elas, essas mulheres porretas, Emília, Marcele do Verdejar, a Aline, e tantas outras companheiras da articulação de agroecologia já chegam pra dentro dessa mulher pra entender esse papel. E eu digo dessa cartilha porque o que eu tô falando ele foi sistematizado e comprovado. Que é quando a mulher começa a falar: “Ah, tem os temperos, a gente cuida dos animais, eu faço a comida pros homens que vão pra roça”. E quando você vai precificar tudo aquilo que elas fazem, se é levantado o que aquela mulher produz no quintal gera às vezes muito mais renda do que o próprio plantio do aipim. Porque é um dinheiro invisível, é um dinheiro que não entra, mas que também não sai. Seja nos temperos, seja na troca entre o ovo e o leite, seja nessa geração de alimento sem veneno e de conhecimento que se dá a partir do seu próprio quintal. E como o mundo, o Brasil, é altamente machista, na agroecologia a gente também se deparou com esse machismo. Então reivindicar o trabalho dessa mulher e essa geração de renda que muita das vezes é invisível, assim como a justaposição do trabalho, né, porque o trabalho de casa doméstico não é tido como um trabalho remunerado, mas é um trabalho. Então a agroecologia parte por esses caminhos, em validar e enaltecer esses trabalhos invisíveis pra muita gente. E aí vocês sabem muito bem, e isso acho que também muito na academia, que a mulher acaba ocupando um papel de relatoria, produção da comida. E aí é quando a gente grita que comida é trincheira de luta, que cozinhar é trincheira de luta. Que é nos nossos quintais que nós fazemos o nosso feminismo. E é reivindicando esses espaços – como a Moena gritou muito bem, né: “sem feminismo não há agroecologia”; “pela vida das mulheres, pela agroecologia” – por muito agricultores rurais, que bebiam e faziam a violência doméstica dentro de casa, é por essas lutas que o feminismo ganhou muita força com a agroecologia. E eu posso colocar aí também nesse panelão o racismo. Que a mulher ela sofre não só por ela ser mulher, ela sofre duas vezes mais quando ela é uma mulher de cor preta. Então quando a gente também fala de feminismos é porque a gente tá incluindo – e aí colocando aí o meu lado, que é a favela – quando eu cheguei falando sobre feminismo eu recebi um tapinha no ombro: “Ana, que assunto é esse? Aqui não dá pra tratar isso não”. Então a gente começou a entender que a cozinha, que é quando os homens falam “Ah, elas tão lá cozinhando” era o local que a gente confabulava. A gente produzia não só as nossas teias de conhecimento como produzia também nossas lutas. No Chile, na época do Pinochet, as mulheres se reunião pra fazer as arpilleras, e lá estavam as mulheres que só estavam costurando. E essa é uma ótima estratégia de luta: utilizar a nossa cozinha, o nosso quintal, aquele plantio que muita gente acha que é pouco, sem validade, plantas alimentícias não convencionais, e os nossos conhecimentos. Como a Marjorie fala, da articulação, cesta de auto cuidado, ervas medicinais, é luta, e essa luta é feminista. E essa luta tem nome, cor e endereço. Muito obrigada.
A atuação da mulher na Pandemia de Covid-19[editar | editar código-fonte]
NATEP: (...) Qual o papel da mulher a partir da agroecologia nesse momento de pandemia? Nesse momento tão difícil.
Ana: Então, prazer em conhecê-la, Georgia. O papel das mulheres sempre foi o da linha de frente, com ou não pandemia. A gente sempre está amarrando e entrelaçando as nossas redes e nos fortalecendo. Partindo pela articulação de agroecologia, do grupo de mulheres do qual eu faço parte, do GT mulheres, esse papel foi muito pro lado do autocuidado. Muitas mulheres como eu, como Cida, como Marcele, como muitas companheiras estão na linha de frente e surgiu uma frase muito forte no GT que foi: “quem cuida de quem cuida?”. Quem cuida de quem cuida. Então esse papel desse GT foi o de fazer esse cuidado. Então foram distribuídas cestas de alto cuidado, com quatro homeopatias, quenturas, pomada milagrosa, sabão artesanal, tudo produzido pelo GT. Inclusive gente, tem uma campanha em aberto aí, se vocês puderem apoiar, compartilhar, é muito bacana. Porque essa campanha ela tá atingindo mulheres que estão na favela, nos meios rurais, nas zonas periurbanas e na baixada fluminense. Já aqui na favela, eu tive um contato com mulheres, mas nunca foi tão forte como tem sido na pandemia. Então todas nos unimos, montamos um grupo de trabalho para as ações de solidariedade, distribuindo cestas agroecológicas, fazendo cadastros, conversando com morador, acompanhando as necessidades. Mas a mulher ela tem tanta potência que esse trabalho supera e ele começa a se estender nos territórios. Então elas decidiram ocupar os espaços na favela, e gente, vocês que estão nesse início de trabalho sabem que ocupar espaço, direito a cidade, já é um caminho de muita luta dos movimentos sociais e principalmente da favela. E direito a essa cidade que se chama favela ainda é muito mais. Quando as mulheres começam a ocupar um espaço que hoje era só de mato e decidem fazer um espaço de cuidado, de produção de ervas medicinais e produção de mudas. Então têm sido esse o nosso caminho, fazer luta a partir da agroecologia, do resgate dos saberes. E agora, não sei se vocês acompanharam, a gente ganhou uma cisterna, uma campanha pra produção de duas cisternas do modelo do semiárido, e esse tem sido o nosso caminho. A gente decidiu aqui que a gente não queria carro-pipa, que a gente queria começar a avançar com mais autonomia, e são essas mulheres que estão na linha de frente. E eu falo isso com muito orgulho, porque aqui na favela, e eu sei que a gente está falando de um machismo que é muito generalizado no mundo, mas a gente sabe que na favela ele é muito forte, principalmente por conta do narcotráfico, que tem arma e que tem poder. E as nossas armas são as sementes, são as ervas, são os encontros, são as transformações. Quando a gente junta começa com duas e no final a gente tem 30 em volta, e não pode aglomerar, e a mulherada quer estar junta, pra produzir, pra transformar. Então volto a dizer, e acho que fazendo um link com a primeira pergunta, sem feminismo não há agroecologia. Não há dúvida.
Estratégias de fornecimento de alimento durante a Covid-19[editar | editar código-fonte]
NATEP: (...) Eu queria fazer uma pergunta, até relacionada com essa questão da pandemia, que é: Nesse momento de pandemia, quais são as estratégias e desafios no fornecimento de alimentação adequada à essas pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade social, como pessoas que mora nas comunidades (que estão sendo muito mais afetadas nesse momento)?
Ana: Ai gente, muito legal. Olha, eu não sou nada linear né, então às vezes eu puxo alguns comentários, né? Acho que é bacana, eu participo de muitas lives e achei bacana ver o rostinho de cada uma de vocês e cada uma fazendo uma pergunta, acho que é uma dinâmica bem bacana, muito interativa. Eu chamei uma galera do Muda, da UFRJ. A UFRJ é muito potente, muito perto da gente, né, com o BRT, e desenvolve um trabalho muito forte de agroecologia. Eu já fico curiosa de conhecer, mas vamos lá. Nossa, Gabi, muito desafio falar de cesta agroecológica na favela. Primeiro porque você imagina, o que que é né (vou me basear nessa última cesta que a gente ganhou com o apoio da AS-PTA, que fez toda a intermediação) você ter uma cesta com seis itens de alimentos secos, a 180 reais, envolvendo legumes e verduras. O que que é você chegar no mercado e você com 70 reais comprar uma cesta que tem cinco quilos de arroz, e essa cesta de 70 e alguma cesta de 180. E aí vem uma frase de uma jornalista muito bacana da UFRJ, eu tive algumas matérias com a UFRJ esse ano, e "o que você quer, encher a barriga ou ter o corpo nutrido?". Putz, falar disso em plena pandemia é muito desafiante. Muito. Porque você trabalhar ao mesmo tempo a potência da agroecologia, você converter essas cestas não só em solidariedade, porque eu acho que pra muitas instituições foi muito novo essas ações de solidariedade, mas você converter isso tudo em formato de luta, quando o povo quer comer, e quando a família tem 7, 8, 9 pessoas é um puta desafio. Então a gente teve que começar a ampliar o fortalecimento dos quintais, doar mudas, estimular que a batata doce que vai pra dentro do prato vai pra debaixo da terra, fazer memórias de sabores, livrinhos de receitas. A parceria com a rede ecológica, né, no projeto campo e favela se dando as mãos, foi essencial. Agora mesmo a gente está montando um caderno de receitas bem bonito. Porque é muito desafiante, você, com o valor que você pode comprar três cestas básicas você comprar uma, sabe. Eu digo que tem a sua história muito bonita, que é fortalecer essas duas pontas da cadeia mais desassistidas, que é a agricultura familiar, como a gente começou a trabalhar com a Leudissec (sic), como a feira agroecológica na UERJ fechou, não tinha como trabalhar, ficou com produtos sem estar escoado, encalhado. Você tem que fazer esse bate-papo com o morador, trazer esse resgate da memória – então a gente começa a trazer taioba, fruta-pão, cana. Porque tinha que ser uma sedução, pra que ele pudesse, não ser algo que a gente estivesse impondo, mas que ele era responsável em fortalecer também essa agricultura. É claro que não é um trabalho de uma única vez, é um trabalho diário, mas é um trabalho também, que eu falei em uma última live, que nos coloca numa posição de disputa do território, que é muito forte entre a igreja e o narcotráfico. Então ao mesmo tempo que essas estratégias que foram muito desafiantes, de ação de solidariedade a partir das cestas agroecológicas elas fortalecem a agricultura urbana e nos invade, faz-nos invadir a casa das pessoas a partir da agroecologia. Esse ponto, por exemplo que você falou eu acho que é uma live inteira, porque é muito assunto que vem a partir dessa distribuição de cestas. É um prazer.
Soberania Alimentar e Resgate de Saberes[editar | editar código-fonte]
NATEP: Qual a relação entre soberania alimentar e o resgate de culturas e saberes com o empoderamento das mulheres agricultoras
Ana: Então, quando a gente começou o trabalho, a gente começou muito... O CEM perdeu a sede, né, não sei se vocês sabem, em 2017 perdeu nossa sede por uma disputa de terra envolvendo a pedreira, que é uma área de mineradora, e, naquele momento, eu tive que me reinventar. Porque você imagina, é o que eu sempre falo, a agroecologia é disputa de terra, né. É direito à terra, direito à moradia. Eu respeito muito o plantio na janela do apartamento, mas você faz agroecologia quando você está lutando. Seja pelo feminismo, seja pela moradia, seja por ocupar esse espaço. Tem um autor que fala que essa própria terra, que foi produzida e construída pelas mãos dos homens, a gente acaba perdendo por um capital. E por que eu estou fazendo esse caminho? Porque sem espaço de plantio, que a gente ficou por um ano e meio, a gente começou a trabalhar em formato de arranjos locais. Então eu comecei a fazer um trabalho muito mais sistematizado na creche, na clinica da família, no CRAES, no quintal, na rua, no parque Ari Barroso, nas feiras. E o fio condutor, o caminho disso aí foi o diálogo com a comida, com a soberania alimentar. Eu participo do conselho de segurança alimentar e muitas mulheres não queria se reunir pelas ervas medicinais, por exemplo. A gente chega nesse lugar por uma trajetória. Porque muitas precisavam alimentar a seus filhos. Sessenta por cento dos chefes de família aqui no complexo de favelas da Penha, são 70.000 moradores, são mulheres. Então você imagina o que é chamar uma mulher pra fazer um xarope hoje, se ela tinha que fazer uma faxina. Mas quando a gente começa a trazer pra esse centro de diálogo a saúde e a comida, a gente ganhou muita força. Então essa relação entre a soberania alimentar veio muito pela necessidade da própria pessoa se alimentar. A mulher precisa cozinhar, e mesmo quando a mulher tem apoio, é ela que precisa pensar o que o outro vai fazer. Ela que tem que pensar todos os dias o que fazer pra comer. Então a gente começou a pegar a partir de necessidades que pra muita gente não é relevante, mas pra dona de casa é. Qual vai ser o seu jantar hoje? O que você vai fazer de almoço? O que o seu quintal pode influenciar no seu lanchinho? Então a gente começou a falar de agricultura urbana, que muita gente não queria tratar pela falta de espaço, pelo caminho da alimentação, pelo caminho da soberania alimentar. Em Janeiro, quando a gente fez o encerramento da colônia de férias, as mulheres participaram de uma oficina junto a FIOCRUZ pra pensar o que era soberania alimentar no Dicionário Marielle Franco. E ali, foi muito bacana porque ali elas falaram: “caramba, Ana, pra gente a gente estava cozinhando pra pensar um prato pro nosso marido, e a gente não sabia que a partir desse nosso trabalho a gente estava se emancipando.
Então esse resgate se dá porque falando de comida, tem que ser troca. Então a gente começa também a fazer essa troca, a apresentar novas receitas, como... é um sucesso total, a maionese de banana verde, mas também ressignificar receitas que eu aprendi com a minha avó, que eu aprendi com a minha mãe, e valorizar. Teve uma subsecretária, Alice, que ela virou pra mim e falou “ah, Ana” porque eu trabalho também oferecendo alimentos em eventos agroecológicos, “Ah Ana, que bacana! As pessoas precisam aprender a comer aipim”. Eu falei “não, a gente precisa resgatar o aipim.” Seja no momento que a gente tá falando de soberania alimentar com as mulheres, a gente está resgatando saberes. Porque falar de comida é falar de memória. Entrelaçar a essas memórias com os nossos quintais e a importância do plantio. De uma cozinha viva, que quando eu compro um alho-poró, que se ele tem raiz, ele vai pra de baixo da terra, é fortalecer essa autonomia de uma mulher feminista e que escolhe o que ela quer comer. Acho que, puxando pras cestas, elas também estão desempenhando esse papel muito bem. Principalmente quando chega uma mulher aqui cheia de batata doce entregando.
Modos de desenvolver a agroecologia nas comunidades[editar | editar código-fonte]
[33:38] NATEP: Como a agroecologia pode e deve ser conversada nesses espaços? Como se dá essa conversa em lugares específicos?
Ana: Eu provoco aqui que a fofoca da favela, o nosso bochicho precisa ser a agroecologia. Partindo, né, como é uma troca de experiências, partindo para a nossa experiência, a gente primeiro teve que escutar. Eu comecei jovem “ah, vamos quebrar o asfalto, vamos plantar em tudo!”. Aí a gente se depara com animais soltos na favela, a gente se depara com a falta de água, a gente se depara com com a disputa de terra, do próprio narcotráfico, a gente se depara com com a ação da pedreira, a gente se depara com com a falta de espaço das pessoas pra plantar, a gente se depara com a necessidade de sementes orgânicas e agroecológicas que é muito difícil de acessar sementes de boa qualidade. A gente se depara com desafios como a própria compostagem, que pode chamar ratos e que a gente tem pensar uma forma muito potente para que ela aconteça. Eu tô falando isso porque a agroecologia é um sonho mas ela também é um trabalho de base muito forte que você precisa fazer antes de começar a plantar. Então esse processo de escuta foi muito importante. Então foi a Escola Superior de Desenho Industrial, - a gente queria muito trabalhar com design e agricultura urbana - com o INT, que trabalha com a certificação de agroecologia, com a AS-PTA, que veio com a proposta de trabalho de Arranjos locais, que é uma ONG que trabalha há 30 anos com agricultura familiar no Brasil, e o CEM, que tinha todo um trabalho de território e rede, desde 2012, quando fundou a Tamo Junto na Penha. E a gente precisava avançar esse trabalho em rede, fortalecendo a agroecologia, porque uma vez que você começa a reunir pessoas, principalmente em territórios de fragilidade, as demandas começam a vir com muita potência. E no final, o que era uma reunião pra gente pensar soluções acabava virando reuniões de trazer demandas. Então a gente começou a fazer esse trabalho de escuta. Propôs: “gente, vamos trabalha agricultura urbana? Ah, vamo”. Mas a agricultura urbana, a agroecologia, tem um leque enorme. Como é que é traduzir isso pra dentro do território? Então quando a gente chega na creche, a creche vira e fala: “Ah, mas a gente queria as nossas hortas pra fortalecer os professores, pra que os professores pudessem traduzir o conhecimento da agroecologia interdisciplinarmente". A gente chega dentro da arena Dicró, que está dentro do parque Ari Barroso, e eles queriam fortalecer esse dialogo da agroecologia com a cultura. Aí a gente chega na clínica da família, que foi aonde a gente começa com o grupo de mulheres, e a saúde era eixo central. E porque eu tô falando isso? Porque quando você quer trabalhar com, você não pode levar nada. Você tem que levar a boa vontade, o interesse e os dois ouvidos. Então nesse processo de escuta, a gente foi mapeando e desenvolveu um trabalho pra cada lugar. Porque não é uma forma de bolo que eu vou desenformar aqui, ali e acolá. Cada território tem as suas fragilidades e cada favela é diferente. Então a gente começou a pensar estratégias, de que as pessoas precisavam dialogar com outros assuntos que pudessem ser a agroecologia. Então a criança que está na creche, com a horta, com os professores, ela chega em casa com a mãe que teve atividade na clínica da família. Um irmão que foi dançar passinho e participou de uma oficina. Com a escola de jovens, que está produzindo mudas pra vender. Então o diálogo com a agricultura urbana dentro do território pra acontecer precisou ter um momento de escuta e de entendimento local. E a comunicação, gente, ela não é fim, ela é meio. A comunicação é essencial em todo o processo. Primeiro porque os membros daquele local, da escola, da casa, da rua… ele precisa estar interagindo ali, e só [será possível com] ele sendo informado. E externo, a creche com a arena Dicró, com a clínica da família. E mais externo ainda, quando a gente consegue dialogar pra outras pessoas, pra que a gente consiga crescer como a gente tem feito com o Organicidade, por exemplo. Então, falar de agroecologia e território, são pontos-chave, né, entender que a soberania alimentar nutricional ela precisa acontecer, porque a gente precisa falar de qualidade de vida, de território de bem viver. A comunicação, tanto de escuta quanto de ação. Claro que nada é perfeito, por isso que eu sou muito atuante de acompanhar, mas esses fatores foram essenciais para o sucesso do nosso trabalho aqui dentro.
Emancipação financeira por meio da agroecologia[editar | editar código-fonte]
[39:56] NATEP: Como a agroecologia pode funcionar como um instrumento pra emancipação financeira dessas agricultares e agricultores e pessoas envolvidas, trabalhadores de uma maneira geral, envolvidas nessas redes agroecológicas?
Ana: A gente em 2019, ano passado, inscreveu um projeto pra FAPERJ, do estado, e nós ganhamos um edital como empreendedores socioambientais do estado do Rio de Janeiro. Por que? Porque a gente fez durante 4 meses, mais ou menos, com a ESDI, um laboratório de produção de viveiros de mudas, a partir do design colaborativo, utilizando tecnologias sociais. A gente identifica que a produção de mudas agroecológicas e orgânicas é um gargalo na agricultura urbana. Quem precisa de mudas, nas bandejas, de células, principalmente, precisa buscar em Teresópolis, em Petrópolis, onde a gente tem um polo muito potente, né, um biosolo, onde o clima ajuda muito. E a gente queria se desafiar aqui na favela e ser produtor de muda. Esse projeto prevê a formação, no total de dois anos, de vinte famílias produzindo mudas. Hoje a gente tem três famílias e com um ganho de mais ou menos de mil reais. Então acho que isso já pode responder essa pergunta, de como a agroecologia funciona como empoderamento e geração de renda local. E a mulher sai daqui pra fazer faxina lá em Santa Teresa, por exemplo. Ela ganha 150 reais o dia. Nesse valor está incluído a alimentação e o transporte dela. A gente numa única feira consegue ganhar em torno de seiscentos reais. Querendo falar um pouquinho de valores, né, acho que pra mostrar que é possível. Eu produzo jaca verde. A gente tem apoio com o agricultor e hoje tem três mulheres envolvidas produzindo. Eu faço linguiça de jaca, hambúrguer de jaca e a jaca verde congelada, como se fosse um frango. Eu só tenho uma pessoa que a gente fornece hoje, por falta de logística. A gente entrega uma vez por mês e tem em torno de oitocentos a mil duzentos num produto que a gente só paga o transporte (que a gente precisa ir e voltar com a mercadoria). Então seja na cozinha, seja produzindo mudas, seja produzindo temperos no quintal, a agroecologia não é só solução pras cidades, como transformação socioambiental, que começa a falar de um local bonito (por isso mesmo que a gente envolveu o design, porque o design não é só sobre a beleza, mas também a funcionalidade), mas a gente também consegue gerar muita renda. Mesmo com a pandemia, a gente não parou de gerar. Se o governo entendesse que a Serra da Misericórdia é um polo agrícola e fomentasse esse local, a gente aqui poderia ser autossustentável. Dá pra gente ser nós por nós? Dá, vai levar um tempo muito maior, mas é possível ser autossustentável na favela a partir da agroecologia urbana. Não tenho dúvida nenhuma.
A discussão sobre meio ambiente nas favelas[editar | editar código-fonte]
[44:33]NATEP: Qual a importância desses espaços integrados pra conversar sobre meio ambiente e preservação ambiental das favelas?
Ana: O meio ambiente precisa fazer parte da gente, por isso o nome do CEM é Centro de Integração na Serra da Misericórdia. Não é “Hoje eu vou falar de meio ambiente”. Nós somos um ambiente. Então a praça que tá sendo feita agora, no início da escada elas puseram o projeto “tinha uma horta no meio do caminho”. Vocês sabem que a favela tem muita escada, porque é morro, eu moro bem no alto do morro, e a proposta delas é fazer, ao longo dessa escada, hortas e espaços de envolvimento local. O Arte Transformadora, uma ONG que trabalha com cultura e é muito nossa parceira, começou a entender que não é o CEM que trabalha com meio ambiente, que todo mundo [faz]. Que eles precisam fazer parte das nossas realidades. A importância disso é que quando a gente começa a transformar lixo em adubo, em geração de renda, em ocupar os espaços… a Serra da Misericórdia gente, com a pandemia, ela todo dia nasce um novo barraco, e para isso a única solução é a agroecologia. É pra pensar pra onde vai esse esgoto, como eu posso transformar esse esgoto a partir de ciclo de bananeira. Como eu posso transformar esse lixo, já que levar esse lixo é muito longe pra gente, então como diminuir o peso desse lixo. Então esse ambiente agroecológico ele não vem só como fator de geração de renda, mas como fator de sobrevivência, de uma vida melhor, de um território de bem viver. Onde todos os recursos podem ser gerados a nosso favor. A gente fez um vídeo antes de ontem com as crianças sobre a compostagem no garrafão, em uma parceria com o Lixo 0, e aí eles começam falando: “Vocês podem colocar serragem, serragem de animal, você pode colocar mato…”. Aí eu virei pras crianças e falei: “E a gente, vai botar o que?” “Mato! Tem muito mato aqui, que bom!Tem solução pro mato!”. Então a agricultura urbana e a agroecologia trazem soluções pro que pra muita gente é problema. A gente tem o SOS Agricultura Urbana que tem gente que pede mato. “Ah, você me dá mato que eu to precisando de cobertura verde e aqui não tem”. E isso é tão forte. Foi uma outra coisa que a gente trabalha: que por mais que a favela e a quarentena tenha sido muito excludente, ao mesmo tempo a gente tinha uma área verde quando todo mundo estava preso em seus apartamentos. Então é falar de novas perspectivas de vida, de geração de renda e de saúde a partir dessa coisinha tão pequeninha de nome mas tão gigante que é a agroecologia.
Escolinha de Agroecologia[editar | editar código-fonte]
[48:17] NATEP: Vou pedir para falar um pouco mais sobre o trabalho que vocês fazem com as crianças e principalmente com as meninas, com a agroecologia.
Ana: A gente tem um trabalho que é a colônia de férias, que ela é toda com a temática da agricultura urbana. Tem intercâmbios, então as crianças vão… Esse é o terceiro ano da colônia de férias a gente fazia muito com adolescentes e a gente sempre perde adolescente o tráfico, é muito é muito chamariz. Eu lembro que o [ruído], o último jovem que a gente levou para colônia, numa conversa virou para mim e falou: “Ana, que coisa, todos os lugares que passa tem uma boca de um tem um amigo meu armado. Parece que é o tempo inteiro eles me chamando.” Então é muito atraente né gente. Não é pela facilidade mas por todas as violências que esse jovem passa. Seja quando ele vai até o Guanabara, até a esquina, que a polícia para ele pra revistar. Seja quando uma própria pessoa atravessa a rua porque vê um jovem negro e acha que ele vai assaltar. Então eu acho que também o quando eu coloquei no início, né, o racismo ele tá muito envolvido nessa questão de agroecologia, também como o feminismo. Então a gente começa a trabalhar com as crianças nessa perspectiva de que aqui pode ser a nossa Quinta da Boa Vista, aqui que pode ser a nossa Floresta da Tijuca. Então a gente começa a fazer esses intercâmbio, e é muito forte, porque as crianças elas se envolvem muito e elas mudam casa. A criança ela tem essa capacidade. As mães que hoje estão comigo nessas ações de solidariedade, outras mães chegaram depois pela pandemia, elas chegaram para mim e falaram: ”Ana, que negócio é esse que o óleo dá para fazer sabão e que eu tô poluindo tudo aqui, pondo óleo na minha pia? Não, porque minha filha chegou lá falando, a Ana chegou lá falando e eu queria entender isso”, ou então “Ana, que lanche é esse que meu filho falou que comeu banana verde?”. A criança é um veículo muito saudável e muito gostoso, muito potente. Então a gente tem essas ações de colônia de férias. A gente fica todo dia, todo dia. Quando acaba, que chega no próximo semestre eu falo “Ai gente, no próximo semestre vou fazer a cada três dias”, mas acaba sendo todo dia. É duas horas da tarde, 10 horas da manhã eles já estão me chamando. E uma ação que a gente faz e que tá parada com a pandemia é envolvendo leitura e agricultura urbana, para qualquer idade. Porque a criança precisa aprender a ler, a interpretar, e a terra ajuda muito. O trabalho com a terra ele é muito fluido. A criança ela se acalma, ela compartilha, ela divide. E tem feminismo também com as crianças, não é, porque a gente sempre coloca as mulheres no papel de liderança no meio das atividades. É claro que os meninos não ficam de fora, mas as meninas desempenham um papel muito importante, que é de organização, que é de chamada da kombi, que é de cuidado a partir das ações que foram realizadas com as crianças menores. Então acho que para vocês aí que estão começando na Barreira do Vasco, pensa nessa criança aí como potência. A gente começou pela criança e aí chegou até as mães, mas foi por elas.
Agroecologia como transformação da relação humano-natureza[editar | editar código-fonte]
[52:45] NATEP: Pensando agroecologia como a renovação de uma outra relação humano-natureza e de um ponto de vista de transformação socioambiental e estrutural da sociedade gostaria de ouvir sobre o papel da agroecologia em relação a uma vida melhor e de um projeto anticapitalista para a periferia.
Ana: A gente não tem a ação do Estado, né. Só de saber que a gente é uma área de proteção ambiental e recuperação urbana foi uma luta muito árdua. Do Verdejar, da Bicuda, Raízes em Movimento, e mesmo assim isso não ser considerado, então a agroecologia ela traz algo que é muito importante e é validar o conhecimento da base. Ela válida um conhecimento popular e essa validação de conhecimento mexe muito com a dignidade. Porque infelizmente a dignidade do povo brasileiro, de uma maneira geral, e do povo favelado, é muito baixa. Eu lembro criança, quando tinha uns cinco anos de idade, quando eu vi a palavra dom. “Ah!, você precisa ter dom”. Mas dom é oportunidade, não? Ou é dom? Se a gente tem oportunidade, a gente vai ter dom pra tal coisa. Então a agroecologia ela traz desse "dom", né, que colocam aí para gente e ela, a partir desses resgates de saberes, da valorização do seu território, do seu conhecimento, ela é muito transformadora. Ela tem uma luta anti classista, e ela tem uma luta de autossuficiência muito forte. Eu faço um curso de autogestão há cinco anos. Só na autogestão, quando a gente, né… eu admiro aí muitas favelas que já tem suas moedas, que já tem suas frentes de luta e que estão tudo envolvendo a agroecologia. Então a agroecolagia pode ter esse caminho sim, anticapitalista, desde o momento que ela tá a acesso do povo, eu não dependo de um patrão. Eu dependo das relações humanas que se dão a partir daquele território.
Quer um exemplo maior do que esse, a gente tem uma nascente e conseguir montar a nossa cisterna pra conseguir captar a nossa água? Eu fui entrevistada numa matéria da Rural (UFRRJ) e o jornalista vira e fala “Ué, mas você não pensou em pedir isso ao governo?” Eu falei: “Que governo? Se a gente nem mapeado pela prefeitura nós somos? Se a gente não tem esgoto, se a gente, se tem luz, é porque faz a gambiarra do poste? Você acha que eles vão vir aqui pra fazer uma cisterna de água pra gente?” Mas com a agroecologia é possível, é possível a gente produzir alimento agroecológico na favela. É possível a gente gerar renda a partir das nossas gerações de conhecimento, de troca. É possível termos autonomia com as nossas ervas medicinais, resgatando valores ancestrais. É possível criar uma escola de educação popular envolvendo a agroecologia. Isso tudo é possível e quando a gente tem junto à favela, às comunidades carentes, a universidade e o serviço de extensão ao nosso lado, isso se torna ainda muito mais possível. A gente aqui tem a extensão com a Escola Superior de Desenho Industrial e o Instituto de Nutrição da UERJ. Porque infelizmente alguém precisa validar um conhecimento, né, e esse conhecimento é validado a partir dos alunos, a partir da extensão. E quando o estudante ele entende que a extensão ultrapassa sua tese de doutorado, de mestrado, de graduação, esse trabalho ainda se torna mais importante.
A gente está aí, sofrendo, antes da pandemia, muitos retrocessos com um governo muito fascista e a universidade, assim como o SUS mostrou o seu papel, mostrou o seu diferencial em toda a pandemia. Então eu acho que essa luta por uma universidade aberta começa com vocês, mas elas também precisam das nossas forças aqui nas periferias. Assim então, só para enaltecer o papel importante e fortalecer o papel de vocês. Validar, principalmente nesse governo golpista que a gente tem hoje.
Direito à cidade e Agroecologia[editar | editar código-fonte]
[59:45] NATEP: Qual é a relação da agroecologia com a luta pelo território urbano e o direito à cidade e qual é o caminho para construir cidades social e ambientalmente justas?
Ana: Como eu coloquei no início, a agroecologia é o direito à terra, o direito à cidade. Muita gente acha que a favela é esse racha né, que lá é cidade e aqui é favela. Então essa disputa de cidade, de uma cidade diferente, que a gente constrói com as nossas mão e que a gente pode manter com as nossas mãos. A pergunta foi muito grande, você pode repetir para eu anotar aqui…?
1- Qual é a relação da agroecologia com a luta pelo território urbano e o direito à cidade?
Eu cheguei a colocar isso bem mais no início, quando eu falo que agroecologia é luta pela terra, luta por moradia, quando a gente tem a luta anti-racista, a própria luta do feminismo, que é abraçada pela agroecologia. Então a agroecologia pode ser entendida como tecnicista, científica, geradora de conhecimento, mas essa agroecologia que eu tô falando é a agroecologia dos movimentos sociais, é a agroecologia da luta. É quando no ENA agora de 2018 as mulheres pretas fazer um grupo, quando eu tô num grupo nacional reivindicando seus rostos nas matérias e suas vozes ocupando aqueles espaços. Então a agroecologia ela une lutas, ela tem um diálogo transversal quando ela tá falando de moradia. Que é o projeto Morar e Plantar, muito bonito, um projeto que eu participei e me inspirei muito para cá em Vargem Grande. Ela é a luta das mulheres em ser reconhecidas nos seus quintais como geração de renda, como resgate. Da favela, quando a gente sabe que a questão religiosa é muito forte, e as mulheres acabam muitas se desligando das ervas medicinais porque é colocado como bruxaria. Então isso tudo é direito, isso tudo é disputa de território. Quando as mulheres gritam pelas ervas medicinais, pela ocupação dos espaços quando tem a luta de ter a agroecologia, o plantio, fazendo parte do calendário escolar, quando a gente está falando de veneno. O Brasil é um dos que mais consome agrotóxicos no mundo. A favela hoje a gente só tem como ponto de venda de alimentos sem veneno a Feira Orgânicas de Olaria, que a gente participa da gestão. Então a luta por mais espaços de comida de verdade. Isso tudo me colocando nesse papel de cidade, tá? Quando o movimento social grita que “se o campo não planta, a gente não janta”, e quando vem a cidade e diz “se o campo e a cidade não plantam, a gente não janta”. Quando a gente resgata conselhos, né, quando a gente participa do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural, e isso é muito importante porque a gente pode incidir diretamente no plano diretor da cidade, que não entende a cidade como produtora de alimentos, mas como de desertos verdes. Então essa relação da agroecologia ela é política, ela é social, ela é a feminista, ela é anti classe, ela é autogestionada e ela é pela vida. Ela é pela nossa resistência.
[1:04:38] 2- Qual é o caminho para construir cidades social e ambientalmente justas?
Ana: Taca fogo no governo. Acho que o caminho… isso que a gente tem falado são caminhos, né. Quando a Maré, a Redes da Maré se unem… a Maré, acho que foi no início do ano passado, fez o seminário Soberania Alimentar nas Favelas, quando fez o dicionário da Marielle Franco, formando os nossos significados das nossas palavras, quando o Raízes em Movimento, em plena favela no asfalto (ruído [1:05:25]) e bota uma praça verde. Então ela é caminho, ela é social, ela é ambiental e essa justiça social que a nossa luta. Porque justa, só mesmo entre a gente. Por isso que eu até brinquei de tacar fogo no governo, porque o que a gente tem é injustiça social, infelizmente.
Atuação em Feiras Agroecológicas[editar | editar código-fonte]
[1:06:48] NATEP: Quais as feiras agroecológicas do rio que vocês participam e como comprar a sua jaca verde, que você tinha comentado.
Ana: A gente participar tanto comercializando como participar da gestão da Feira Agroecológica na UERJ - que a gente participou da fundação representando a Rede Carioca de Agricultura Urbana (Rede CAU) -, da Feira Orgânica de Olaria, e aí é uma história bem bacana, que é a primeira feira do subúrbio mas ela não é dentro da favela, então a gente criou um projeto de xepa orgânica e criou uma feira paralela, que é a Feira Alternativa de Olaria, trazendo mulheres da favela que não podiam comercializar na feira. Que a gente sabe né, que também o orgânico ele muita das vezes é classista, não é todo mundo que tem acesso àquilo. Então a gente cria uma feira paralela com alimentação saudável, comprando direto dos agricultores que vinham, de nossos quintais, e com artesanato, e a gente entrega na rede ecológica, uma rede de consumo. Em breve, né, a gente tá aqui montando espaço para montar nossa feira aqui. A gente tá na colheita para começar a comercializar aqui. A jaca eu vendo só na rede ecológica. O pessoal tava pedindo, então a gente tem também o SOS Agricultura Urbana, que a gente entrega. Entrega terra, muda, insumos de plantio, conservas e mês que vem vai ter uma entrega da jaca verde, da linguiça e hambúrguer de jaca, e aí eu também coloco aí para vocês para a gente poder partilhar. É o que a Berna: “antes se disputava espaço de comercialização daí hoje a disputa é de fortalecer esses espaços de comercialização”. Então para gente é mais difícil tá em outros lugares, a gente namora muito a feira da Fiocruz, mas o trabalho de base ele precisa muito da gente. Fazer agroecologia também não é só plantar, como o jovem trouxe, eu não me lembro o nome, da relação da relação da agroecologia com o território: estar no território é viver o território, é sentir as fragilidades. Então esses são os pontos de comercialização, mas em breve convido vocês aí para nossa feira aqui, e vai ter uma vacina e a gente vai, não sei se voltar ao normal, né, mas vai dar para a gente se socializar mais um pouco novamente.
Escassez hídrica e o plantar nas favelas[editar | editar código-fonte]
[1:10:10] NATEP: Como é possível o plantio em favelas mesmo com os problemas da falta de água? E aí acho que conversa muito com esse projeto de vocês, né, para construção da cisternas que você comentou um pouco. Então queria saber se você pode falar um pouco disso.
Ana: Eu cheguei a listar vários problemas que é plantar na favela, e a água é muito, gente, é muito. Eu lembro de 2014, que a gente perdeu quase nossa plantação toda, de fazer captação de água da chuva, mas até o reservatório ser acabado foi uma das épocas mais secas, de inverno mais seco. Eu não me esqueço de 2014. Eu acho que trabalhar as tecnologias sociais de baixo custo é muito importante, e aí mais uma vez fortaleço a academia, a relação da academia, né, da engenharia, aí vocês nesse processo, que seja no plantio de bananeira, plantios que possam puxar água. Tem os Plantadores de Água de Minas Gerais que é um projeto incrível. Eles vão cavando o solo em formatos que dê para armazenar água. A captação de água da chuva é muito importante. Muito, muito, muito. Ela é muito baixo custo. O pessoal aí, Teo Cordeiro, o Rafael, ele vem fazendo esse trabalho bem legal de bloco d’água. A construção de cisternas foi uma solução, veio no governo do Lula né. Foi uma solução pro Nordeste. Eu fui pro Nordeste para conhecer e é muito potente. O Nordeste tá verde, Paraíba tá linda, com muito plantio. Essas cisternas, que tem as cisterna calçadão, tanto para água da chuva quanto para captação de águas, como as da nascente. E pensar outras formas de tecnologia social. O Organicidade tem jardins de chuva [sic: inverno], tem umas telas tipo umas redes que vêm captando água de orvalho. Acho que é pensar conforme o local. A gente, por exemplo, (sei que não tem a ver com água, mas para ilustrar o que eu tô falando) comprou um triturador, e eu queria muito o triturador que tivesse o de coco. Aí o Marcelo, que é integrante do CEM, falou: “Ana, mas a gente aqui nem tem muito coco, né? Pra quê que vai comprar o triturador pra coco?” Então acho que quando a gente começa a observar o que a gente tem de recurso e de estrutura local, a gente também começa a pensar alternativas sustentáveis para este local. Acho que a galera da Rural também tem muito pra contribuir com essas tecnologias, mas pensar tecnologias porque a tecnologia tanto serve para sanar uma necessidade ali, que seja fortalecer o plantio, como ela também serve como geradora de renda, porque ela pode ser multiplicada para outros de agricultura. O fomento à agricultura, você vê que quem produz com veneno ganha rios de dinheiro, porque ganha muito fomento do governo. Quem produz sem veneno parece que é punido, né, sacaneado. Então pensar soluções de baixo custo que fortaleça essa base da agricultura familiar no plantio, é muito, muito, muito essencial e a gente precisa muito desse diálogo com a academia.
A Maternidade Já parou pra pensar? pra mãe pobre preta e favelada precisamos dar conta e está sempre pronta criar nossas crias cuidar do nosso lar Sem amparo Sem estrutura e quem cuida de mim cuida da madame cuida dos seus filhos Lavo passo aspiro repasso sobe desce limpa passa seca seca E vivo sonhando voltar a plantar Cozinho os melhores pratos mas fico de lado mas as obras que me restam que por um triz nesse trem cheio não azeda arrumo bonito no prato como se fosse o primeiro pedaço para deixar meu rebento feliz Ana Santos
Inclusão social da juventude por meio da agroecologia[editar | editar código-fonte]
[1:15:45] NATEP: O quão importante é implementar e falar sobre agroecologia na favela como ferramenta de inclusão das crianças e jovens a trilhar outro caminho? Acho que tem muito a ver com aquilo que eu disse, de como trazer a agroecologia como válvula de escape.
Ana: Eu participei de volta do agora não online com a capital do mundo aí aqui eu usei como falta cidade não há dúvida.
Ela valoriza, já falei isso a live toda, mas eu sinto que é importante, ela valoriza o conhecimento do local. Isto é muito potente, gente, pra mim é uma poesia. Valorizar o que o local tem de potência é fortalecer as bases. A gente está aqui nessa base da pirâmide e a gente consegue virar ela de ponta-cabeça se a gente tem (uma localidade confiante e falecida. A agroecologia é solução para trazer uma alimentação sem veneno, ela é solução como geradoras de renda, de energia, de água, de auto suficiência de uma maneira geral. Ela tinha que estar nos planos do governo.
O Renato Cinco tá aí, trazendo muito a pauta da agroecologia, a Renata da Maré. A Marielle Franco esteve aqui, a gente desenhou vários projetos a partir da agroecologia. A mãe ela tá com o filho na creche, esse o filho pode estar produzindo alimento, pode estar trazendo para dentro de casa, esse quintal pode ser ocupado com cultivo.
A gente recebeu uma visita da Alemanha eles falaram: “nossa, mas como vocês não percebem que podiam plantar aqui em vez de fazer casa, ganhava muito mais do que com aluguel”. Isso porque a cultura, infelizmente, é o aluguel. É uma terra que não é uma terra pro cultivo. Então temos que resgatar os valores. Eu acho que quando a gente consegue resgatar, a gente ressignifica o nosso papel nesse lugar, nessa terra. Eu acredito muito. Eu me transformei muito com a agroecologia. A primeira grande transformação na minha vida foi com banheiro seco, quando eu precisava cuidar das fezes do outro. Quando essas fezes viram adubo para as nossas árvores. Entender que o ciclo não se acaba, mas que a gente está conectado, não só as pessoas, mas com o ar, com a água, com as plantas, os animais. Que a gente é conectado com a lua. Quando a gente planta na lua certa, a semente se desenvolve no momento. Então acha que resgatar essas conexões é um papel muito importante que a agroecologia tem muita maestria e sensibilidade para nos ensinar.
Considerações finais[editar | editar código-fonte]
[1:19:15] NATEP: É realmente muito lindo o que você falou e eu acho que é realmente importante reforçar que não existe agroecologia sem o feminismo. [...] Só uma coisa que eu queria acrescentar, que é como a gente até já estudou nos nossos grupos de estudos, era do documentário sobre a agroecologia em Cuba, e a gente vê como a agroecologia lá em Cuba cresceu num contexto de uma necessidade. Não veio do tipo “vamos fazer agroecologia”, não veio com a gourmetização dos produtos orgânicos. Ela veio do povo, de um contexto de necessidade e ela é super valorizada lá. Ela é extremamente essencial para a economia do país. É muito interessante ver isso, e como vocês estão começando um projeto que dá tanto poder a agroecologia. Ver a importância real dela como uma ferramenta de luta em todos os âmbitos. Queria te agradecer por ter topado vir aqui com a gente, foi realmente incrível. [...]
[1:21:00] NATEP: Queria ouvir, o que você achou da live?
Ana: Eu que agradeço o carinho, Eduarda. Achei muito bacana você trazer Cuba. A gente no início, quando começou a trabalhar com a saúde, ainda eram médicos cubanos, aqui na favela, sabe. Eles fortaleceram muito nosso trabalho no sentido que eles falavam “para onde, vocês compram o xarope de guaco e a favela pode plantar o guaco para poder oferecer o xarope daqui de dentro”. Infelizmente né, mais uma perda desse governo, a gente perdeu os médicos cubanos que tinham muita força aqui dentro. E é isso, né, entender que a agroecologia é uma caixinha de lutas e que ela dialoga. Eu tava em Recife com o pessoal do movimento GLBTs, né? Que é GLBT tanãnãnãnã, tem vários, né? E eles falaram “a gente está aderindo à agroecologia, porque dá para gente envolver nossas lutas a partir da terra, porque terra é território, terra é direito, é o nosso corpo, nosso corpos”. Então acho que é importante ter essa amplitude do que a agroecologia é. Muito obrigada Georgia, Gabriella, foi um grande prazer tecer com vocês, quem está aí por trás, nos baixadores, também. Fico feliz de ter inaugurado essa live. Eu rezei, né, rezei às Deusas. Eu falei: “minha internet!”, porque as minhas duas últimas live, uma eu não consegui fazer e a outra parou pela metade. Deu uma engasgadinha aqui, falhada, mas que bom que deu tudo certo. Em breve espero visitar o projeto lá na Barreira do Vasco, vai ser um prazer essa troca. Acho que trocar experiências entre favelas também é muito importante. Parabéns aí pelo movimento de vocês, um forte abraço.