Largo da Memória

De Dicionario de Favelas Marielle Franco
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Inserido pela Equipe do Dicionário de Favelas Marielle Franco

O Largo da Memória foi uma favela localizada onde hoje é o Leblon, mais precisamente onde hoje é o 23º Batalhão da Polícia Militar. A favela era composta majoritariamente por barracos. 

Blog O Rio que passou

Extraído do Blog O Rio que passou

Largo da Memória.jpg

Nesse fragmento de uma panorâmica de foto pertencente ao acervo de Benjamim Aguiar de Medeiros vemos, um pedaço do Leblon, em 1936. Em meio a um bairro praticamente vazio se destacam as duas enormes favelas, surgidas em menos de 7 anos, pois em fotos de 1929 nenhuma das duas aparecem, estando seus terrenos vazios.
Na esquerda da imagem podemos identificar claramente dois marcos geográficos, um pedaço da pista do Jockey na extrema esquerda superior e acompanhado a parte esquerda inferior temos o canal da Av. Visconde de Albuquerque.
No meio desses dois marcos podemos ver o Largo da Memória, largo criado no leito da velha Rua do Sapé, um dos primitivos acessos a Praia da Gávea, hoje Leblon.  Margeando o largo e indo em direção ao canal vemos o amontoado de barracos, que galgavam a pequena elevação que existe no local, era a Favela da Memória, que existia nos terrenos onde hoje está o 23º  BPM.
Junto às margens da lagoa, à direita do campo do Flamengo podemos ver a maior favela que o Leblon já teve, a praia do Pinto, ainda sem os aterros posteriores, que provocaram a invasão e favelização das duas finas ilhas localizadas mais à frente a do Guarda e a das Dragas. A Ilha do Guarda é hoje onde está o litoral da Lagoa neste trecho, mais à direita temos a Ilha Caiçaras ainda pequenina sem os posteriores aterros, e o bico do arrocamento da Av. Epitácio Pessoa.
Margeando os barracos da Praia do Pinto vemos também o primitivo traçado da Av. Afrânio de Melo Franco, que se juntava com a hoje desaparecida Av. Rodrigo de Freitas, que tem um pequeno trecho hoje ainda presente na Rua Adalberto de Campos.
A foto também nos mostra com destaque, bem no extremo direito da imagem o gasômetro do Leblon, hoje desativado, no quarteirão entre as Av. Ataulfo de Paiva e Afrânio de melo Franco e as Ruas Alm. Guilhem e Humberto de Campos. Por causa dos bondes as ruas mais marcadas no tecido urbano são a Av. Ataulfo de Paiva e a Rua Dias ferreira, antiga Rua do Pau, continuação da Rua do Sapé e a primitiva via de acesso ao bairro.
A Favela da memória foi removida na época do primeiro governo Vargas, pondo por terra a idéia que quem só removia favelas era Lacerda, o governo Vargas removeu várias favelas, criando inúmeros parques proletários pela cidade, que hoje se misturam aos bairros. Mas no Leblon a situação ficou complicada, pois os favelados não só da Memória como a da Praia do Pinto deveriam ir para o Parque Proletário da Gávea, para isso eles foram alojados em barracões, junto ao canteiro de obras o Parque proletário e em outros na Praia do Pinto. Curiosamente os do Parque Proletário assim ficaram até os anos 60 quando as famílias se mudaram para a única parte que foi concluída, o Minhocão da Gávea. Já os barracões erguidos na Praia do Pinto em poucos anos se mesclaram na favela, praticamente não podendo ser mais identificados em imagens dos anos 60, quando a favela atingiu seu auge de tamanho, sendo uma das maiores da Zona Sul, e removida no governo Negrão de Lima.
É interessante nessa imagem a velocidade do crescimento da ocupação irregular em comparação com a cidade formal que surgia no Bairro do Leblon. <footer>

Instituto Moreira Salles

Extraído da publicação "Olhares sobre a Gávea" que relata sobre o processo de remoção da favela

“O adensamento da Zona Sul começa pela Gávea, não por Copacabana”, lembra Ileana. “O bonde chega primeiro aqui, no final do século XIX. Com ele vêm as fábricas, e com elas o incentivo de construir vilas operárias”. O recente passado industrial da região, que a partir dos anos 20 e 30 começou a receber empresas como o Cotonifício Gávea, que ocupava um quarteirão inteiro e tinha sua própria vila de trabalhadores, levou o bairro a ser conhecido como “Gávea Vermelha”, cenário de lutas proletárias.

Com esse perfil a Gávea recebeu, em 1942, o primeiro conjunto habitacional do programa Parques Proletários, lançado por Getúlio Vargas no ano anterior. O parque foi concebido como uma moradia provisória para abrigar, em grande parte, as famílias retiradas do Largo da Memória, favela situada entre a Lagoa e o Leblon. “O projeto tinha toda uma ideia de moralizar os costumes e ‘higienizar’ a forma de viver. No Parque Proletário era proibido entrar com bebidas, cuspir no chão, coisas assim”, conta Ileana. “Rapidamente ele também se favelizou, com a chegada de muitas famílias, porque o grande problema habitacional no Rio já existia. Várias pessoas da Rocinha também foram removidas para lá, e uma das condições para se morar no Parque era trabalhar na Zona Sul.”

Embora a Gávea fosse um bairro proletário no início dos anos 40, ao final daquela década, impulsionado em parte pela fama crescente das corridas de “baratinhas” – como eram chamados os carros que participavam do charmoso Circuito da Gávea, visto na mostra em fotos de Carlos Moskovics, do acervo do IMS –, o endereço começou a ser cobiçado. E veio o movimento de expulsão das fábricas, que durou até os anos 70, quando o Parque Proletário foi totalmente removido do bairro. Outra foto da exposição, do acervo dos Diários Associados, também do IMS, registra um protesto, em 1962, de famílias contra o despejo. Nos cartazes, os “favelados da Marquês de São Vicente” pedem o apoio do governo para que não sejam jogados nas ruas.

“Naquela época as pessoas foram parar em lugares muito distantes. Famílias removidas da Rocinha para o Parque foram removidas novamente. Tem muita contradição”, observa Ileana. “A remoção das indústrias veio num processo de gentrificação do bairro. As fotos da remoção das vilas operárias são muito contundentes, e mostram como a sociedade ainda não resolveu esse problema da moradia, como vimos acontecer de novo durante as obras para as Olimpíadas no Rio. Há uma contínua tensão entre a necessidade do crescimento e, ao mesmo tempo, a de abrigar as pessoas que trabalham.”

Parte dos moradores do Parque Proletário voltou para a Rocinha, e muitos foram também para o Parque da Cidade e para o Minhocão, nome pelo qual ficou conhecido o Conjunto Residencial Marquês de São Vicente, projetado por outro expoente do modernismo, o arquiteto Afonso Eduardo Reidy.  </footer>