Revista Nós: Comunicação popular, publicação e resistência na Cidade de Deus

Por equipe do Dicionário de Favelas Marielle Franco

Autoria: Pablo das Oliveiras

Apresentação[editar | editar código-fonte]

O presente ensaio visa apresentar a Revista Nós / RN como ação que se originou do contexto do movimento associativo na Cidade de Deus, Rio de Janeiro, tornando-se uma de suas mídias de mobilização no território, entre 1977 a 1980, como ação de comunicação e publicação de resistência popular. As edições da Revista e mais um suplemento especial formam o conjunto de 16 publicações, reproduzidas por mimeógrafo. A linha editorial da Revista orientou-se pelas pautas: saúde; educação; ecologia; arte, cultura; lazer e de forma geral colocou em foco o cenário, as questões e atuações sociais culturais e políticas do movimento associativo local. Neste contexto, busquei observar, descrever e considerar os processos que levaram à criação da Revista Nós; seu modo de produção, distribuição e venda, bem como, a atuação da equipe editorial em interface ao Conselho de Moradores da Cidade de Deus / COMOCIDE. Para este fim, recorri ao levantamento de memórias, as minhas e demais co-editoras/es, mapeando, de forma geral o percurso do movimento associativo no território, cujas narrativas dos acontecimentos, à época, são matizadas pela análise do acervo da Revista Nós, ao recorte espaço temporal de pesquisa, com vista à construção de sua narrativa hoje, em aproximação do contexto daqueles acontecimentos, atento em evitar anacronismos de abordagem.

O ensaio encontra-se desenvolvido em três partes: na primeira, “Convergências: Cultura, Arte e Política”, aponta aos fatores que concorreram para formação da Revista Nós e sua equipe, o contexto do país e da cidade com vista a sua atuação no movimento associativo local; na segunda, “Meu Nome, Cidade de Deus”, apresenta um panorama das múltiplas designações atribuídas e autodenominadas ao território, e nele a trajetória da equipe Revista Nós com suas práticas de jornalismo popular junto ao movimento comunitário; na terceira, “Revista Nós: O Marco Zero e os Desafios das Edições”, destaca os princípios conceituais, os modos de atuação das práticas da equipe e considerações sobre o fim da publicação da Revista Nós. Concluo apontando a importância do conjunto da RN como um acervo documental, sobre a história do movimento sócio político da Cidade de Deus, nos anos de sua publicação.

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Considerações finais[editar | editar código-fonte]

A Revista Nós desde sua criação tornou-se uma mídia de comunicação popular e publicação de resistência, realizada por jovens moradores e atuantes do movimento comunitário da Cidade de Deus, de modo tal foi construindo uma práxis de registros dos acontecimentos comunitários, no período em que se manteve em circulação, que hoje, o conjunto da RN forma um acervo documental, como fonte da história daquele contexto do movimento sócio político da Cidade de Deus e, por extensão, do Rio de Janeiro. A última edição da RN nº 15 - Dezembro/1980 traz na página 17 uma Nota o encontro da equipe a se realizar em: “10 de janeiro de 1981”, para discussão da pauta do pretendido do nº 16. Nesse período os membros da equipe da RN e do Jornal o Amanhã já respondiam institucionalmente como diretoria recém-eleita do COMOCIDE. A pretendida edição não se realizou, deixando uma questão: Quais situações contribuíram para a não publicação, daquela que seria o próximo “número” da RN? Sem precipitar uma resposta, recupero o ponto apresentado anteriormente, sobre o encontro intergeracional, dos membros da RN, do Jornal O Amanhã e o COMOCIDE, as trocas de saberes, produção de conhecimentos e práticas sociais, culturais e políticas junto aos grupos locais e da cidade, do processo de formação e o contexto sucessório à direção do Conselho de Moradores da Cidade de Deus.

Após o fim da circulação da Revista Nós, eu reelaborei de muitas formas as experiências adquiridas no seu conselho editorial à sua diagramação; na prática da escrita à de e impressão gráfica e encadernação, aos usos deste conhecimento à produção de diário de bordo, revistas, livretos artesanais, “livro-objeto”, livro de poesia e literatura infantil, dentro e fora da sala de aula. Como arte-educador, aquelas experiências se recriam na confecção de material didático ao projeto pedagógico, no fazer educativo com estudantes em turmas, na produção de jornal escolar; revista HQ; coletânea de desenhos e livro com história de alunas e alunos. E neste ensaio, reafirmo a importância da Revista Nós e do COMOCIDE entre os elementos fundantes em minha formação sociopolítica e professor fazedor de arte.

Referências[editar | editar código-fonte]

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