Crianças e adolescentes na Cidade de Deus: uma conexão de boa

De Dicionario de Favelas Marielle Franco
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Autora: Liliane da Cunha Lo Bianco Lopes.

Na percepção atual, dentro do contexto ocidental, a criança não é mais considerada um adulto em miniatura (Ariès, 1989). Para muitas crianças a precarização da sua condição social impõe que, desde cedo, elas sejam o que Áries (1986) denominou de adultos em miniatura. Elas se veem forçadas ao amadurecimento precoce, pela realidade que as insere no mundo adulto e pela participação das atividades cotidianas, com a finalidade de ajudar a prover o sustento da família. Percebe-se, então, um distanciamento da infância da classe média e da infância das crianças pertencentes a famílias de baixa renda. Na classe mais privilegiada, há o prolongamento do tempo destinado à infância, protegida das preocupações. Nesse período, a criança é preservada do trabalho e tem mais reconhecimento social, quanto à atenção à infância. Porém, visto que as extremas desigualdades sociais produzem diferentes infâncias, como já previamente mencionado, há crianças que vivem a infância com pleno reconhecimento de seus direitos, e crianças que esbarram nesses direitos, mas não os têm garantidos.

Em meio a tantos conceitos, discussões e contribuições que gravitam em torno desse tema, importa ressaltar a Lei nº 8.069/1990, que rege o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), enquanto norma jurídica, que também se posiciona e documenta sobre o que é a infância, tanto na determinação para a faixa etária, que compreende esse período (até os doze anos incompletos), como nas questões relacionadas à vulnerabilidade, educação, segurança, medidas de proteção (tanto familiar quanto estatal), dignidade, políticas sociais adequadas, etc. Dessa maneira, tendo em vista condições históricas e socioculturais determinadas, seria um equívoco partir do mesmo referencial para analisar o conceito de infância, já que o mesmo é o resultado de transformações sociais, variando de acordo com a sociedade, que confere sua própria noção de infância de acordo com as variáveis de classe, gênero, etnia, etc. (Prout, 2005). Na verdade, em mesmos espaços têm-se diferentes infâncias, resultado de realidades que estão em confronto (Demartini, 2001, p. 4) e, nesse sentido, a história da infância no Brasil parece ter sido construída concomitantemente à estratificação social, que determina às crianças o seu lugar na sociedade, em muitos casos, marcado pela desigualdade, exclusão e dominação (Postman, 2005). Na Cidade de Deus a atividade é baseada na conjugação binária vida vs. morte, a maioria relacionada à morte, com a agravante de que os homens impiedosos que coordenam aquele lugar são ainda garotos – alguns nem chegaram à adolescência. Em outros lugares, as crianças dessa idade brincam com armas de brinquedo; os garotos da Cidade Deus disparam tiros reais com armas reais (Damasceno, Berta, & Araújo, 2007). Trechos do artigo de Bol. - Acad. Paul. Psicol. vol.33 no.85 São Paulo dez. 2013

Justificativa: Inspiro-me a escrever a respeito da Infância e adolescência em CIDADE DE DEUS, pois fui uma criança/adolescente inserida neste contexto onde me destaquei, fui empoderada e atualmente atuo na perspectiva do entendimento de uma realidade extremamente violenta que reproduz violações cotidianas com uma normalidade totalmente distante do olhar daqueles que tem seus direitos violados, uma trajetória envolvendo a ausência e ou insuficiência das Políticas Públicas relacionadas ao mecanismo determinante de uma realidade construída pelo viés do perverso institucional. Está inserida em um órgão como o Conselho Tutelar envolvendo a garantia de diretos de crianças e adolescente me foi possível perceber o quantitativo de casos oriundos de Cidade de Deus envolvendo esse publico em situação de vulnerabilidade social extrema e com isso buscar o entendimento de que projeto politico é elaborado para uma cidade partida em meio a um projeto de gestão também partida que não reconhece a infância e adolescência como prioridade absoluta.