Lu Petersen

Por equipe do Dicionário de Favelas Marielle Franco
Revisão de 17h01min de 18 de agosto de 2023 por Gabriel (discussão | contribs)

O livro Lu Petersen: militância, favela e urbanismo, publicado em 2009 fala da vida da Lu Petersen, importante personalidade responsável pela criação de programas sociais para as favelas, entre eles o Favela-Bairro. 

Autoria: Lu Petersen[Notas 1].


Sobre o trabalho

O livro ainda tem 6 capítulos, onde são apresentados momentos de sua vida e suas ações políticas mais prioritárias em cada momento. Para fins metodológicos, apresentaremos aqui apenas os capítulos "Multirão" e "Favela-Bairro" que tem mais relação direta com o tema de favelas.  

Mutirão

Fala um pouco do retorno ao Brasil.

Viemos para o Rio com o meu filho Carlos Eduardo, que tinha um ano e oito meses. Fiquei uns dois meses na casa da minha mãe. Depois fomos para Piratininga, e eu naquela linha suíça: o meio ambiente, aquelas praias maravilhosas da Região Oceânica de Niterói... Era mato e poucos vizinhos. Era uma fase de criança pequena em casa, de fazer novos amigos, muito churrasco na varanda de casa e muita festa.

Você e o seu grupo chegaram a participar da campanha do Brizola?

A minha ideia era ir para o PT de Niterói. Mas eu achei uma coisa muito estudantil, 68 demais... A conjuntura política é fim de ditadura, população eufórica, comício das Diretas Já, eleições diretas para governadores. O Leonel Brizola, tendo perdido a sigla PTB, cria o PDT filiado à Internacional Socialista e é eleito em 82, com uma nítida liderança nas camadas pobres da população. Votei no Brizola como uma alternativa promissora. O programa de governo do Brizola situava como prioridade o reconhecimento das favelas e loteamentos irregulares como parte integrante da cidade. No início de 83 é lançado o primeiro projeto-piloto de Urbanização Integral do Cantagalo, Pavão e Pavãozinho, e o Programa de Favelas da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Proface).8 A superintendente do Proface era a engenheira Maria Carmem Melibeu de Almeida, e a Coordenação de Obras era composta por outros profissionais da Cedae: os engenheiros Carlos Fernandes, Ney Homero, Flávio Moura, o arquiteto Reinaldo Ganimi. A equipe de assistência social de apoio acompanhava as obras e implantava a cobrança de água, sob a batuta da Maria da Penha Franco, de origem da Fundação Leão XIII, peça fundamental na época das remoções do Lacerda. Ela me contou que, quando tiraram a favela do túnel do Pasmado, tocaram fogo nos barracos de madeira e os ratos, sem ter o que comer, inundaram Copacabana [risos]. Eu achava que eu tinha que voltar do exílio e mexer com favela. Aquela coisa tinha ficado na minha cabeça desde a infância e do projeto Carlos Nelson... Em 83 fui falar com o presidente da Feema, o Armando, que participou com a gente no diretório estudantil da arquitetura. Era daquela geração de 1968.

Armando? Lembra o sobrenome?

Ah, isso de sobrenome... Eu aprendi na militância que não se lembra de nome, sobrenome ou endereço, para preservar a segurança de todos. Acabei me lembrando, Armando Mendes. Então fui contratada para participar de uma equipe, com uma técnica da casa e mais três terceirizados, no projeto Eco-Desenvolvimento, que tratava basicamente de meio ambiente e saneamento básico em favelas e loteamentos. O projeto era em um pequeno loteamento com duas ruas que terminavam no rio Pavuna. Era um pessoal bacana. Fizemos várias assembleias e apresentamos um diagnóstico de desocupação e preservação das margens do rio, soluções de infraestrutura urbana e algumas ideias sobre regularização fundiária, porque era uma reivindicação dos moradores. De repente acabaram com a nossa equipe. Não sei se houve continuidade desse projeto depois, mas outros projetos continuaram sendo implantados em algumas favelas pela equipe da Feema. Os prefeitos naquela época eram indicados pelos governadores. O Brizola nomeou o Jamil Haddad, que, por motivos que eu desconheço, foi substituído pelo Marcello Allencar no início de 84. Então, em setembro, eu procurei o Elinor Brito, que era o ex-líder do movimento do Calabouço, companheiro no PCBR e amigão desde o exílio. Ele era assessor especial do prefeito e me disse assim: “Ô Lu, eu posso te conseguir alguma coisa na Secretaria de Municipal de Desenvolvimento Social. Tem um projeto interessante em favelas”. Topei de cara: “Vamos nessa!” A equipe do projeto Mutirão (não remunerado) era formada por cinco arquitetos e engenheiros trabalhando em dupla com cinco assistentes sociais, para executar redes de esgoto e drenagem em mutirões de fins de semana em umas 15 favelas. Fui contratada como arquiteta com outros novos técnicos para reforçar a equipe e ampliar o número de comunidades a serem atendidas. Uma garotada... O engenheiro Cléber Barbirato e eu éramos os mais velhos da equipe. O Mutirão não ia adiante porque poucas favelas se mobilizavam para trabalhar de graça, perdia-se muito material de construção. Também, como convencer as pessoas numa cidade como o Rio de Janeiro, que tem áreas de lazer à disposição, tem praia grátis, não é?

A secretária da SMDS era a assistente social Dilsa Terra. O Eloi Benedutti era chefe de gabinete e coordenador geral do projeto Mutirão. Escolhi três favelas lá, meio brabas. Eles não passavam contato algum. Então entrei na marra. Assumi as obras de esgotos e drenagem que já estavam em andamento nas favelas do Muquiço (em Deodoro) e Parque Unidos (em frente à favela do Acari). No morro da Pedreira (em Anchieta) iniciei também duas escadarias. Escadaria na época era um luxo porque facilitava em muito a descida de doentes, idosos... em macas ou em cadeiras. O projeto tinha um pequeno almoxarifado na Tijuca. Caramba! Era uma guerra, desde as seis da manhã, para conseguir material e transporte, que faltavam sempre. Mulher não tinha prioridade... Tive que botar muita banca!

Em fins de 1984 a SMDS organizou o I Seminário Mutirão-Rio, que virou um grande leilão ao distribuírem diplomas assinados pela secretária, dando direito a 200 m de esgoto para umas 250 comunidades presentes. Cara, um leilão! Nesse encontro foi aprovado o pagamento das equipes de mão de obra, uma reivindicação das comunidades que coincidia com o ponto de vista dos técnicos. Na época do Natal a secretaria resolveu distribuir, entre as lideranças, umas sacolas com um peru e outros produtos. Esse fato deu origem a uma história engraçada que eu não sei se cabe contar aqui.

Conta.

Tinha um montão de gente nos corredores, tinha engenheiro lá com três sacolas: “Tenho três perus para passar o Natal! Aí Lu, vai lá pegar...” Eu digo: “Eu não vou porque isso vai dar um bode!”. Eu vivia articulando com o Cléber, que era brizolista e muito ligado ao deputado Amadeu Rocha, que, por sua vez, tinha se envolvido com a guerrilha de Caparaó. Olha só como é que esse mundo é pequeno. Então, nos entendíamos muito bem e comentávamos: “Dilsa vai cair...” Acredito que esses fatos culminaram com a saída dela em janeiro de 85. E ficou a história do “o peru da secretária” [risos]. Até hoje tem gente de favela que comenta comigo. É o humor típico dos cariocas.

Um fato importante a ser destacado é que os métodos adotados nesse seminário tinham clara conotação clientelista e eleitoreira de estabelecer compromissos irrealizáveis antes de criar as estruturas de gestão e obter recursos compatíveis com a ampliação das comunidades a serem atendidas. O Proface atuava de forma diferente, trabalhando organicamente, em parceria com associação de moradores. No entanto, era considerado, por equívoco de muitas pessoas, promotor de práticas populistas. A meu ver, o Proface realizava um trabalho conjunto necessário, porque o objetivo programático principal era de consolidar a cobrança das contas de água. Isso acontecia em assembleias muito complicadas, sobretudo pela resistência dos moradores em pagar taxas. Buscar inserir diretamente os moradores desde o início do programa foi uma forma inédita e inteligente de mobilização, principalmente porque havia lideranças que ainda tinham certa independência

Tinham, Lu, independência?

Eu digo independência porque eles desconheciam o funcionamento do poder público. A favela, durante a ditadura, era um objeto não identificado; eles só entravam na favela para pegar subversivo ou armas. Isso leva a um nível baixo de politização das favelas, que vai gerar mais tarde uma forte dependência do poder público. Loteamento irregular era diferente. Eles sabiam bem o que queriam e eram mais organizados. Então, o jornalista Pedro Porfírio foi nomeado secretário interino, substituindo a Dilsa. O Cléber foi indicado para superintendente de Desenvolvimento Comunitário do projeto Mutirão Remunerado. Ele me disse assim: “Eu tenho que botar nessa coordenação pessoas que possam ter liderança. Lu, você é porra louca o suficiente. Você topa encarar a Assessoria de Projetos e Estudos Comunitários?” Eu tinha um potencial de liderança na faculdade e tal...

Então eu digo: “Vamos nessa”. Eu achava que era por aí mesmo, entendeu, a festa é comigo mesmo. Era a volta à agitação, à criatividade, a experimentar coisas novas. O Cléber chamou o Teodoro Marconi, para assumir a Assessoria de Ação Comunitária. Começamos rapidamente a reestruturação do projeto. Os técnicos das zonas Sul e Norte continuaram trabalhando por lá. Criamos alguns critérios orgânicos de obras e de articulação com a participação comunitária e de outros órgãos públicos.

E nós mesmos recebíamos o salário como autônomos. Sempre atrasado. Coisa mesmo de doido! Organizávamos as assembleias gerais e eu supervisionava as coordenações de obras e participava das reuniões locais. Então a equipe trabalhava de segunda a segunda. Em muitas favelas, complementávamos com os mutirões de fins de semana, para reduzir os custos de intervenções. Assumi a coordenação do texto de estruturação do Plano de Trabalho 85. A linha básica era aumento de recursos para a contratação de técnicos, totalizando 30, inclusive para atender aos loteamentos irregulares da Zona Oeste, definir o escopo do projeto e construir mecanismos referentes à função social de obras, já que não dispúnhamos de estrutura técnico-administrativa para absorver aquele universo de promessas. Implantamos um controle de obras bem artesanal, em que o acompanhamento era feito em reuniões semanais de toda a equipe. O Cléber perguntava: “Favela tal... quantos metros executados?” Parecia uma escola. Eu tentava dar um conteúdo social naquilo, mas a turma só queria saber de obras. Cabia ao Fundo Rio — Fundo Municipal de Desenvolvimento Social, órgão de captação de recursos e de gestão administrativa e financeira vinculado à SMDS — controlar, aprovar os relatórios e liberar os recursos. Era uma loucura porque faltava dinheiro para pagar a mão de obra. Ou então faltava material ou transporte. Isso tudo foi muito rápido. Mas, por incrível que pareça, apesar das dificuldades, conseguimos algumas melhorias, e a coisa foi avançando! Tanto é que em fins de 85 já estávamos trabalhando com umas 80 comunidades.

Vocês recebiam apoios de outros órgãos públicos?

Tivemos o apoio do secretário de Obras do estado, Luiz Alfredo Salomão, e da Cedae, que ajudava com infraestrutura de transportes, materiais e cooperação técnica. Politicamente isso era possível, mesmo não sendo uma parceria oficial. A autorização para o projeto se resumia a um decreto do Tribunal de Contas do Município, que permitia a isenção de licitações de obras, justificada pela função de desenvolvimento social das intervenções. O Brizola causava assim um furor, porque os reservatórios d’água eram levados de helicóptero para o topo do morro. Economia no transporte de material e redução no custo de mão de obra. Uma visibilidade incrível!

Quando o projeto do Mutirão remunerado passou a ter visibilidade?

Demorou! Adquiriu uma visibilidade relativa a partir de 90. O importante é entender por que o político da bica d’água não conseguia faturar o projeto. O Mutirão, no que se refere à definição de prioridades e execução de obras, ficou relativamente preservado da intervenção política dos secretários.

Mas você tinha clareza, nesse momento, de que havia esse tipo de prática de clientelismo, de cooptação?

Havia práticas de clientelismo na maioria dos órgãos públicos. Na SMDS ainda era discreto. Mas, na outra face da mesma moeda, deve-se levar em conta o aspecto educativo, o aprendizado de encaminhar reivindicações vinculadas ao escopo de projetos por parte das lideranças locais. Vale lembrar que era um processo construtivo em uma conjuntura política muito particular, em que a preocupação maior era recuperar o tempo perdido. Na realidade, as intervenções nas favelas deveriam ter acontecido no início da migração de famílias pobres de outros estados em busca de uma melhor qualidade de vida no Rio. Mas há que se reconhecer que essas iniciativas se transformaram em contribuições efetivas para a redução da pobreza. Abriram espaços para desdobramentos importantíssimos durante essas últimas três décadas. Ou seja, a experiência criou as condições de transformação de um projeto artesanal em um amplo programa de integração urbano-social das favelas: o programa Favela-Bairro. É a liderança indiscutível da cidade do Rio de Janeiro nesse processo, que terminou por contagiar o poder público e a população como um todo. 

Porfírio deu autonomia a vocês?

Deu porque não havia como controlar a execução do projeto, estruturado numa confiança mútua entre as comunidades e técnicos, e a vontade de fazer as coisas corretamente. Por outro lado o Cléber e eu tínhamos a percepção de que uma estrutura de gestão de projeto inteiramente nova estava sendo criada. O Porfírio se centrava mais nas questões de recursos e custeios. Politicamente ele agia através da área social, principalmente as creches. Era o fim da política da bica d’água.

Do chaguismo?

Era uma prática de longa data... Que foi superada a partir do Proface.

E o Proface também tinha esse perfil mais avançado, como o Mutirão?

Era um programa de governo institucionalizado, com o desenvolvimento de projetos e licitação de empreiteiras. Fizeram obras na Baixada Fluminense, em Niterói e em outros municípios. Eles faziam muito sucesso nas favelas. Nós éramos um bando de malucos, entrando em favela e aprendendo a fazer obras com eles, e acertava daqui, a gente reclamava dali, e eles ficavam nos esperando com bolinho, com suco de caju... E aí a gente adquire uma intimidade muito grande com a favela. Fiscalizar e pagar a equipe de mão de obra, entregar o material, fazer tudo ao mesmo tempo... Não há como não conviver com o morador. Então você passa a ser muito respeitado naquele contexto... Era um perfil técnico que não visava faturar nada politicamente.

A equipe ficava em um salão que permitia uma interatividade incrível, inclusive com o resto dos técnicos da secretaria. As soluções eram passadas de boca a boca. Era, na realidade, uma universidade. E, como tal, era um grupo muito alegre e unido. Começaram a organizar as peladas, o que acabou em um time de futebol da SMDS. Festas juninas e de fim de ano eram sagradas. A partir de 89 em diante, as festas de Natal no clube da Cedae, em Itacoatiara, coincidiam com o meu aniversário; então, após o churrasco, sempre tinha uma esticada na minha casa, para tomar o “sopão”, que só acabava nas altas madrugadas.

Por isso você fala em saberes locais?

Isso. É completamente diferente. Eu já andei muito por esse mundo, e acho que não tem precedente histórico. Dá até para entender por que o programa Favela-Bairro deu certo! É uma construção dialética do saber, que vai sendo assimilado através da prática e do conhecimento coletivo, que permite conceituar e teorizar um processo histórico, para voltar posteriormente a uma nova prática, bem mais profissionalizada e sofisticada.

Eram intervenções pontuais?

Eram obras pontuais, mas diversificadas em relação a cada favela.

Autogestão?

Não era autogestão. É como se tivesse um maestro por trás dessa história. Dizer que fui eu é um absurdo. Foi um negócio que se construiu coletivamente, de forma empírica, e que dificilmente vai se replicar na história do Brasil.

E o Marcello apoiava?

Claro. O prefeito tinha alta credibilidade e era muito querido nas favelas. Ele não vinha com o discurso político tradicional. Ele era o prefeito que as pessoas aguardavam e, em alguns lugares, tinha um ou outro morador que dizia: “Olha aqui, tem uma cachacinha que está na minha casa há 30 anos, prova e tal”. Entende? E nós tínhamos um “baita cartaz” com ele.

A gente está em que época, Lu?

Nós estamos em fins de 85, já na época da campanha, para a prefeitura, do Saturnino Braga, que era o candidato favorito. Aliás, tanto o Cléber quanto eu, ao acompanharmos a campanha eleitoral, tínhamos a sensação de que o Saturnino sairia do PDT.

E você já havia feito o concurso para a prefeitura?

Só fizemos o concurso em 87. Vitória das forças democráticas... Servidores estatutários!

Houve tentativas de replicar o Mutirão em outras cidades, outros estados?

Na segunda gestão do prefeito Marcello Alencar tivemos duas experiências bem-sucedidas com Belo Horizonte e Vitória. Mas a gente só levava “pauleira” de todo mundo! Gente que não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo.

A polêmica era em torno da titulação?

Pois é: ou achavam que não se devia fazer nada na favela, ou era a regularização fundiária e a famigerada titulação como ponto de partida. Os loteamentos irregulares queriam o título de posse, já que tinham comprado seus terrenos de loteadores irregulares ou clandestinos. Mas a favela não se interessava pelo assunto. No fundo era a continuidade da política de remoções para conjuntos habitacionais periféricos. Eleito o prefeito Saturnino Braga, vai o jornalista Maurício Azedo para a SMDS.

Ele mudou a equipe?

Ele tirou o Cléber. Recebi uma carta me confirmando no cargo. Mandei a resposta dizendo que não ficava, porque ele teria entrado para dividir a equipe. Distribuí cópias para a turma toda. Olha que maluquice! Logo eu, que não tinha nada a ver com as facções do PDT. Mas o Maurício teve um papel importante.

No projeto Mutirão?

É, porque ele deu um bom reforço na estrutura do projeto. Contratou uma equipe de engenheiros florestais e agrônomos para o primeiro projeto de reflorestamento, implantado em 1986, em São José Operário. É um projeto sensacional, de recuperação de áreas desmatadas, o mais importante que eu conheço no mundo. Criou a coordenação de projetos, abriu mais dois almoxarifados nas zonas Norte e Oeste, institucionalizou a contratação de caminhões, ampliou as equipes e o número de obras. Contratou uma cooperativa de carros para os técnicos. Os técnicos gostavam dele.

E o projeto foi preservado nesse meio-tempo?

Cléber, Teodoro e eu fomos para o Proface por meio de um convênio de cooperação técnica. Fiquei lá um ano, estabelecendo a ponte com a SMDS. E na prefeitura era sempre: “Ah, é aquela turma de engenheirinhos de favela... aquela turma doida lá”. O projeto foi preservado, mas era a obra pela obra. A qualidade era discutível. Virou uma máquina imensa com técnicos assumindo até oito a 10 obras de uma só vez. Muitas obras não se concluíam e o Mutirão continuava sendo um projeto informal. Voltei em 87 e fui trabalhar com o Manoel Valim, velho militante do Partidão. Tive uma nova ideia de articular obras com reflorestamento. Maurício Azedo sai da SMDS e entra o Sérgio Andréia do PT, já confirmada a ruptura do Saturnino com o PDT. Eu disse assim: “Talvez eu consiga me entender com essa turma”. Fui lotada num grupo social que era pura politicagem. É interessante que, já naquela época, você via a dificuldade deles em separar agitação e propaganda de gestão de fato. Não conseguiam transformar as coisas em ação concreta na secretaria. Uma proposta de urbanização de todas as favelas foi lançada pelo César Benjamin, mas não saiu do papel.

Quando foi isso?

Foi em 88. A cidade estava um caos, porque chovia mais do que em 86. E, como sempre, não tinha nada a não ser parcas doações de roupas e comida! E eu acabei me desentendendo com o procurador da SMDS, antigo companheiro de militância no PCBR, por conta da inclusão de uma melhoria salarial, já autorizada pelo prefeito, por trabalharmos em área de risco. E nada do processo andar. É evidente que um passado de militância conjunta dava margem para falar diretamente com ele. Entrei na sala dele e disse: “Pô, Raimundo, desenrola isso aí! No Sindicato de Advogados você se posiciona sempre a favor da classe! E aqui, onde fica a sua coerência?”

No dia seguinte, um engenheiro veio me dizer que o Diário Oficial tinha publicado a minha transferência para a Secretaria de Obras. Fui para lá em 24 horas! Nunca vi um processo tão rápido [risos]. Lá vou eu atrás do Salomão, secretário de obras: “Eu não vou ficar naquilo lá”. Vir de Piratininga até São Cristóvão para assinar ponto e voltar para casa? Ele falou com o Luiz Paulo Corrêa da Rocha, que já me conhecia da época do Mutirão. Ele me disse: “Posso conseguir um lugar na Secretaria Municipal de Urbanismo”. Chego lá e fui parar na sala dos banidos. Em pleno governo Moreira Franco só tinha pessoal oriundo do estado e militantes do PDT na sala... O coordenador era o arquiteto João Sampaio, que acabou sendo prefeito de Niterói. Estava a Márcia Bezerra, da Cehab; a Maria de Nazareth Gama e Silva (a Nana), que tinha sido assessora do Darcy Ribeiro; a Verinha Malagute, que aparecia por lá também. Na falta do que fazer tentei ajudar no PEU da Rocinha...

Então já existia uma diferença de concepção e de prática entre as pessoas que estavam envolvidas com o projeto Mutirão e esse pessoal que começa a fazer o PEU da Rocinha?

Já. E eu, evidentemente, sempre metida nas discussões... inclusive na nossa equipe lá. Não tinha carro disponível na SMU. Daí houve um diálogo esdrúxulo. A arquiteta responsável me disse que não ia. “Podemos ir no meu carro”, eu respondi. “Não, porque você vai dar um péssimo exemplo aqui dentro!” Aí eu dei uma gozada na garota: “Você não está é a fim de botar o pezinho na lama”. E acabou que não deu em nada. Afinal, favela não era importante.

E com a eleição do Marcello Alencar houve modificações no Mutirão?

Em 1989 volta o Pedro Porfírio com o chefe de gabinete Manoel Valim, e eu desço para a SMDS. A oficialização da minha volta levou seis meses! Na reestruturação da secretaria foram criadas as superintendências de Assistência Social, de Projetos Sociais e a de Engenharia, Saneamento e Urbanização Comunitária (Sesuc), que trabalhariam em sistema matricial. Assumi a área de planejamento e orçamento. As obras não andavam, estava uma bagunça absoluta. Escolhi dois engenheiros a dedo, com perfil administrativo, e avançamos nos controles de gestão. Escrevi um programa mínimo — conceituando a articulação programática de obras, desenvolvimento social e o reflorestamento, priorizando a conclusão das obras mais adiantadas —, que foi aprovado pelo secretário. No início de 90 fui nomeada superintendente da Sesuc. A coordenação de projetos desenvolveu três projetos-tipo para as creches, que se consolidaram já numa linha de adequação às necessidades da Superintendência de Projetos Sociais, composta por mulheres que conheciam profundamente as favelas também. Elas aperfeiçoaram a contratação de moradoras das áreas, criando uma metodologia de capacitação para a cogestão local das creches. Foram construídas umas 80 creches no total. Um recorde para a época. No morro da Formiga foi construído um sistema de esgotos dentro do rio, uma espécie de emissário, que canalizava o esgoto para a rede pública, e uma passarela com vão livre atravessando o rio. Aliás, essas obras se repetiam em outras favelas.

Já no Plano de Trabalho 86 foi estabelecido então o escopo de projetos e obras: a construção de redes de esgotamento sanitário e drenagem de águas pluviais; a humanização das vias de acesso com escadarias e pavimentações simples; e a criação de espaços destinados ao lazer, recreação e esportes. Competia aos técnicos avaliar as características das obras para melhoria da qualidade da construção, buscar vínculos mais próximos com a SMO e a Cedae, fortalecer as atividades com a área social da secretaria e a participação comunitária. Mas, assim mesmo, nos faltavam instrumentos importantes. Não digo que construí essas possibilidades, mas eu as organizei.

Era uma intervenção programada, planejada?

Na realidade essas intervenções eram realizadas muito mais por iniciativas de determinados técnicos e por necessidades imediatas de obras. As inovações foram acontecendo depois da chuva de 88, que foi calamitosa para a cidade. Já não era mais possível manter os custos de manutenção da cidade e os transtornos causados pelas enchentes. A prefeitura definiu prioridade total para programas estratégicos, objetivando a solução dos desmoronamentos de encostas e as reduções de enchentes. A Geo-Rio foi-se modernizando e tornou-se um importante centro de referência em geotecnia. Define-se um amplo programa de obras que, em sua maioria, envolviam as favelas. Pouco depois entram os garis da Comlurb para efetuar a coleta de lixo domiciliar em favelas. A partir de encontros em área com nossos técnicos, passamos a articular essas intervenções com o reflorestamento. Isso também permitiu o aprendizado de tecnologias para as situações diversas que exigiam obras de pequenas contenções. Começamos a abrir vias de acesso para microtratores, uma novidade implantada pela Comlurb. Era um conjunto de novos conhecimentos técnicos.

Essa proposta foi bem-recebida?

Foi. Havia engenheiros muito competentes, que tocavam grandes obras de saneamento em favelas e loteamentos nas zonas Oeste e Norte, canalizações de rios, inclusive no velho sistema de “gabião”, barato e duradouro. O sistema de “gabião” vem da época colonial. É uma estrutura artesanal que dispensa o uso de concreto armado, funcionando como caixas, com pedras de mão de vários tamanhos dentro. Ao serem colocadas nas margens de rio em declive ou na construção de muros, funcionam como contenção. As diretorias de Drenagem e de Conservação abriam valas profundas e pavimentavam as ruas depois das obras.

Com mutirão?

Não. Mutirão era só nas nossas obras. A equipe de reflorestamento desenvolve um diagnóstico para a intervenção em favelas que contribuíam para as bacias da baía de Guanabara, Sepetiba e regiões oceânicas. Isso abre perspectivas para intervenções planejadas a partir dos maciços da Tijuca, Pedra Branca e Mendanha, áreas fundamentais para o controle do processo de erosão motivado pelos desmatamentos e proteção das cabeceiras de rio. As redes de esgoto eram em sistema separador absoluto, com as drenagens até os limites da favela com as redes urbanas. E, pasmem!... na malha urbana a Cedae depositava os dejetos nas redes de drenagem da prefeitura. Em 1990, se não me falha a memória, o Valim teve uma iniciativa decisiva ao criar a Coordenadoria do projeto de Educação Sanitária.

Isso fecha então a metodologia de abordagem multidisciplinar das favelas. A coordenadora Sylvia Ripper, uma médica sanitarista inteligente, abriu uma seleção para agentes comunitárias em várias favelas e consolidou uma capacitação que botou todo mundo na linha. A metodologia se centrava em pesquisas socioeconômicas e no desenvolvimento de trabalho prático centrado no saneamento: incidência de diarreia e a redução da mortalidade infantil. As agentes faziam entrevistas familiares de casa em casa para repassar noções de higiene, fazer a pesagem de bebês e coleta de fezes, que eram enviadas para a Fiocruz. Conseguiram provar que havia redução na incidência de diarreia infantil. Faziam panfletos e cartazes bem rústicos para os encontros coletivos sobre educação ambiental. E foram adquirindo credibilidade a ponto de se transformarem em grupos de mobilização e organização da participação comunitária no nível do projeto como um todo. Então escrevi, junto com a Silvinha e com o apoio de alguns técnicos, as teses do projeto de Urbanização Simplificada/Mutirão Remunerado. As teses estabeleciam novos conceitos e metodologias de articulação multidisciplinar entre as funções de cada coordenadoria. Enfim, uma abordagem inteiramente inédita de integração de urbanização, saneamento, meio ambiente e saúde, que resultou no conceito de urbanização simplificada

Você tinha orçamento para isso?

Na realidade os recursos eram ali na conta. O mais importante é que o Mutirão aliava o baixo custo das intervenções por administração direta, o pagamento da mão de obra local, a prioridade para a conclusão das obras, a gestão do projeto estruturada pelas coordenações de técnicos internos da SMDS e os apoios voluntários dos outros órgãos públicos e privados.

E o tráfico?

Ainda não era muito perceptível. Eu tinha uma intuição que aquilo ia ficar cada vez pior. Mas eles nunca perturbaram obras da gente. Mas naquela época... Até que deram um susto lá num engenheiro. Ele dava uma de “durão” com o pessoal da Nova Brasília. Os traficantes fingiram um sequestro dele, tivemos que ir lá... [risos]. É uma enciclopédia isso aí. Cada um tem muitas histórias para contar. O Escadinha era um parceiro.

De quem?

Ele cuidava do nosso material de construção no morro do Livramento. Mas ele não andava armado — de dia, pelo menos. Era palmatória, era um “tapão”. Educação ambiental “alternativa” que eu vi, na época, foi no Santa Marta. Estava um arquiteto nosso lá, dando uma bronca: “Eu faço a canaleta de drenagem aqui, vocês jogam lixo! É tudo porco!” Aí chega um cara: “O qué qui tá havendo aí, dotô?” “É que eles ficam sujando a obra”. “Pode deixar comigo”, foi a resposta. Aí o arquiteto: “O que é que você vai fazer?!” “Bem, primeira vez leva uns tapa. Na segunda, é tiro na mão. Na terceira, vira presunto!” O arquiteto dizia: “Lu, o que eu faço, meu Deus?” “Deixa rolar!”, eu disse. Eu nunca vi o Santa Marta tão limpo, na minha vida [risos]. Um dia, um garoto foi querer tirar onda na Serrinha, já no início do Favela-Bairro. Estava lá com uma bermuda, sobe o morro, desce o morro, na frente de todo mundo, com dois “revolverzinhos” mixurucas... Daí a bermuda dele escorregou e apareceu a bunda. Foi uma gargalhada geral [risos]. Acabou a festa dele! Há pouco tempo eu vi um jardim plantado no espaço entre os trilhos do trem no Jacarezinho. Tinha uma placa com um recado: “Quem jogar lixo leva porrada”. Estava tudo limpo, inclusive a estação. Quando o Moreira Franco é eleito governador, em 86, lança como estratégia principal acabar com o tráfico em seis meses. Lá se vai o apoio às comunidades através de projetos sociais do governo Brizola; é a volta às velhas práticas da repressão. Cria-se um processo de acirramento de ação e reação entre o tráfico e os órgãos de segurança que vai se desenvolvendo de tal forma até chegarmos à situação que existe hoje. Você sabe o que era a favela para mim, na época da militância? Era o local da resistência em caso de insurreição armada na cidade do Rio de Janeiro, porque era propício à clandestinidade. A visão que eu tenho hoje, guardadas as devidas proporções, é de que são relações entre todos os envolvidos que portam armas, que se traduzem em comportamentos que são muito complicados e impenetráveis, porque são conhecidos pelas comunidades, mas não são divulgados. É o vale-tudo!

E a relação com a Secretaria de Urbanismo nessa época?

Quase me escapa aqui a importância do secretário de Obras e Urbanismo, Luiz Paulo Corrêa da Rocha. Foi fundamental para nós.

Havia disputa nos modos de conceber as intervenções?

Dentro da SMDS, não. As divergências vinham de fora e se centravam na questão conceitual e metodológica do Mutirão. Estruturei projetos de urbanização simplificada integrada no complexo do Caricó, na Penha, com seis favelas, e no complexo do Sapê, em Madureira, com cinco favelas, que já tinham obras em andamento de forma isolada. A grande inovação conceitual foi considerar que favelas eram “conurbadas”, ou seja, elas criavam uma mancha compacta urbana, exigindo intervenções globais e integradoras dessas comunidades.

Nesse momento, então, você já havia se tornado uma referência nessa discussão, não é?

Era uma referência de divergência, a mulher polêmica. Essa fama eu vou herdar no Favela-Bairro. Um dia eu estava num seminário na Câmara de Vereadores, com um pessoal de São Paulo, defendendo os conjuntos habitacionais legalizados. Então afirmei que a nossa prática era uma forma consistente de redução do déficit habitacional, já que proporcionava condições para fixar as favelas em suas áreas de origem. Não estava errada. Só que era uma nova abordagem. Mas a discussão pegou fogo! Tem outros exemplos.

Mas não foi sua a proposta vencedora no Favela-Bairro?

Espera aí. Tem água debaixo desse angu [risos]. Aproveitando aquele momento do programa de Despoluição da Baía de Guanabara, em 90, convidamos alguns participantes da equipe do BID a visitar o complexo do Caricó. Ficaram realmente surpresos. Mas não foi adiante porque, pelas normas do banco, a cidade deveria ter um plano diretor (que só foi aprovado em 93) e os projetos e obras deveriam passar pelo processo de licitação. E eu pensava: “Empreiteira não bota os pés no Mutirão”.

Por causa das licitações?

Salvo raríssimas exceções, nós éramos um tanto ou quanto radicais e “principistas”. Uma bobagem! Estruturamos o projeto de urbanização simplificada do complexo do Caricó, e agreguei também uma área do morro da Formiga para captar recursos no Ministério da Ação Social do governo Collor. Então, o Iplan (hoje IPP), com a Márcia Coutinho e equipe, fez o primeiro cadastro de favela através do levantamento aerofotogramétrico. Que era caro! Conseguimos de graça através da Aeronáutica. Daí foi possível apresentar as intervenções em plantas detalhadas de obras realizadas e realizar cronogramas físicos e financeiros. Essa iniciativa vai se desdobrar no Cadastro de Favelas do IPP, em 91. Foi aprovado com a liberação dos recursos a fundo perdido, o que quer dizer que não havia contrapartida nossa. A prestação de contas foi considerada exemplar, e o modelo foi adotado para outras cidades do Brasil. Quando o Porfírio saiu da secretaria para se candidatar a vereador, entrou o Marco Maranhão, ex-militante do PCBR, ex-preso político e “banido”. Para mim, foi o melhor dirigente que tivemos. Ele tinha clareza da importância estratégica do projeto e sensibilidade para se relacionar com os técnicos. O arquiteto Carlos Silveira fazia lindas aquarelas e entalhes, inspirados nas favelas e nas intervenções do Mutirão. Daí o secretário organizou, em 92, uma exposição com esse trabalho — “A arte de ver a favela”— que ficou muito linda.

Qual foi a abrangência do Mutirão?

De 1984 até 1992 atuamos em umas cento e muitas comunidades, com infraestrutura urbana, creches e participação da equipe de educação ambiental em parte dessas comunidades. Reflorestamos áreas desmatadas com cerca de 200 ha plantados em 30 comunidades. Mas em muitas favelas não dava para concluir. Tem mais tempo de continuidade do Mutirão na gestão do prefeito César Maia.

Favela-Bairro 

Vamos falar da sua inserção no projeto Favela-Bairro, e das linhas de continuidade, caso existam, entre o projeto Mutirão e o Favela-Bairro. Mas, antes, gostaríamos de saber sobre o papel de vocês no plano diretor. Vocês definiram diretrizes quanto à questão das favelas?

Sim. Contribuímos durante a realização dos grupos de trabalho, formados a partir de 91, com diretrizes para a urbanização de favelas nas áreas de meio ambiente, saúde e obras com dimensionamentos diferentes da cidade. A prioridade era a intervenção urbanística e social. Remoção só em último caso. Questão profundamente polêmica, inclusive em nível internacional.

Houve embate na prefeitura em torno da ideia da não remoção?

Sim. Porque na prática conseguimos apontar novos caminhos para a solução das ocupações irregulares, tanto as favelas quanto os loteamentos irregulares e clandestinos. Mas houve embates, claro, e não só na prefeitura. O plano diretor foi aberto democraticamente à consulta pública, tanto é que só foi promulgado em 93.

Então o modelo do Favela-Bairro já existia?

Existiam as premissas básicas. Em fins de 92 foi feito um documento, com apoio de dados fornecidos pela equipe e assinado pelo secretário Marco Maranhão, servindo de base para o I Seminário sobre Áreas Favelizadas e Meio Ambiente: Contribuição para uma Proposta de Desenvolvimento Urbano. Fiz uma palestra sobre os projetos de urbanização simplificada em complexos de favelas e formamos grupos temáticos de discussão dos caminhos de intervenções de desenvolvimento urbano, social e prestação de serviços em favelas. Tudo isso veio a contribuir para a proposta do Favela-Bairro. Eu considero, modestamente, que o Mutirão é o DNA do Favela-Bairro. As etapas históricas de implantação do programa Favela-Bairro foram amplamente divulgadas; então vou falar de forma simplificada sobre a mudança de um projeto desenvolvido com características informais para uma nova fase de institucionalização, profissionalização e abrangência no nível da prefeitura. Mesmo porque uma boa parte desse processo já foi relatada em muitas outras publicações.

E como foi a transição para a gestão do Cesar Maia?

A eleição do prefeito Cesar Maia, em 92, foi uma grande novidade. Quando veio o resultado do primeiro turno, daí sim, junto com o Marco Maranhão e nossa equipe, “caímos firme” em uma campanha eleitoral pela primeira vez. Eleito Cesar Maia, a Laura Carneiro foi nomeada secretária da SMDS em 93. Após uma longa reunião de transição, fui exonerada por ela e substituída, assim de cara, pelo novo superintendente, que, ironicamente, tinha o sobrenome Petersen. Puxa, veio gente me perguntar se era meu marido! E lá vou eu, mais uma vez, para a coordenação de planejamento de projetos do Fundo Rio, cujo responsável era o Jorge Rodrigues. Com o apoio da Coordenadoria de Projetos estruturei mais dois projetos com obras de saneamento no Jacarezinho, construídas por empreiteira, e um projeto-piloto, o Programa Especial de Saneamento da Zona Oeste (Peszo), de tratamento de esgotos com filtro anaeróbico nas cinco comunidades da Zona Oeste com Mutirão. Ambos aprovados pelo Ministério da Ação Social. O programa de governo do prefeito já vem apontando para uma reviravolta nas estruturas de gestão municipal macrofuncional, abrindo caminho para um planejamento urbano integrador da cidade. De que eu me lembre, a proposta partia de princípios relativos à necessidade de promover a interação e o entrosamento entre os órgãos públicos do município, a imprescindibilidade de garantir a melhor utilização dos recursos humanos e materiais e maior eficiência na prestação dos serviços. Dentre as diversas macro-funções, duas me chamaram especial atenção: a de desenvolvimento urbano e a de políticas sociais, por motivos óbvios.

E o Geap [Grupo Executivo de Programas Especiais para Assentamentos Urbanos]?

O Geap foi criado por decreto, em 1993, para estabelecer as bases da política habitacional da cidade do Rio de Janeiro. Nunca fomos chamados para participar das reuniões. Não sabíamos o que estava acontecendo. Então eu, enquanto assessora do Fundo Rio, e três coordenadores do Mutirão escrevemos o documento Urbanização de Favela, Participação Popular e Qualidade de Vida, relatando o processo evolutivo do projeto, e enfatizando a necessidade de integrar as políticas públicas direcionadas às favelas. O plano diretor dava um passo importante no sentido dessa integração ao declarar as favelas como “áreas de especial interesse social”. Esse documento foi entregue ao prefeito, em reunião, da qual não participei, com a coordenação do projeto. O objetivo era a defesa do Mutirão, porque entretempo a SMO, ignorando o projeto Mutirão, havia lançado um programa de urbanização de todas as favelas do Rio. Em março de 94 toda a equipe e os projetos do Mutirão, ou seja, todos os conhecimentos adquiridos por nós, são transferidos para a recémcriada Secretaria Extraordinária de Habitação, tendo como responsáveis o secretário e arquiteto Sergio Magalhães e o subsecretário Jorge Rodrigues, que me chamou para a assessoria do gabinete. Estrutura-se a secretaria de acordo com as “bases da política habitacional do Rio de Janeiro”, com seis gerências de programas. O secretário tinha dois candidatos a serem indicados para a gerência do programa Favela-Bairro Popular, que não aceitaram o cargo. Então fui eu a designada para o sacrifício, com apoio do Jorge Rodrigues. Na sala das gerências era tudo colado um no outro. A ponto de um gerente lá, arquiteto jovem recémsaído da faculdade, querer um lugar ao sol na janela só para ele, e eu dei uma bela bronca [risos]. Tomamos posse literalmente de um terraço que servia de área de aeração e insolação dos andares superiores do prédio, e dava acesso para as salas. Posso garantir que ali sim, nasceu o programa Favela-Bairro, ao ar livre, com uma pirâmide de vidro que iluminava os andares inferiores, bem no meio do terraço. Sinal de bons augúrios e transparência, porque as outras salas, inclusive a do secretário, podiam ver! Ali eu fazia reuniões da equipe toda, com comunidades etc.

E as lideranças das comunidades?

Elas reagiam porque tinham interesse em manter as equipes de obras de mutirão... Afinal, para eles era uma questão de poder. E eu pensava: “Vamos ter briga feia aí pela frente com a terceirização de projetos e obras”. Em 94 lança-se o programa Favela-Bairro Popular, com diretrizes bem generalizantes. O sentimento que tivemos foi: está aí só por estar. Então o prefeito lança o decreto de início do Favela-Bairro no complexo do Andaraí, uma encosta íngreme e acidentada com três favelas “conturbadas”, a ser implantado já na estrutura macrofuncional, com a coordenação da Secretaria Extraordinária de Habitação, e gestão integrada com o Iplan, as secretarias de Obras e de Fazenda, e a Procuradoria Geral do Município. Eu pessoalmente teria escolhido alguma área menos complicada. Começamos a ter dificuldades na fase de desenvolvimento dos projetos e obras porque envolviam pareceres técnicos e execução de projetos de diversos serviços da SMO, principalmente. Só que a SMO tinha prioridades mais imediatas... Em dezembro desse mesmo ano a Câmara de Vereadores aprova a oficialização da Secretaria Municipal de Habitação. O prefeito libera, depois, os recursos para a implantação do programa incluindo o Andaraí e mais 16 favelas que viraram 23 em função de outras “conurbações”.

Então o mutirão se transformou no Favela-Bairro?

O Mutirão forneceu os insumos necessários para a estruturação do Favela-Bairro. Eram todas as funções que estavam naquele documento do último seminário: praças, áreas de esporte, iluminação pública, espaços públicos, abertura de vias carroçáveis, coleta de lixo e programas sociais... A equipe técnica foi ocupando espaços em todos os níveis da secretaria.

Mas quem decidiu, por exemplo, quais seriam as 16 favelas contempladas com a verba?

Quem definiu começar pelo Andaraí? Eu não tenho a mínima ideia. Reunimos técnicos da coordenação de projetos e obras e nossos aliados tradicionais. Foi montada a matriz classificatória de favelas coordenada pelo Fernando Cavallieri, que era da Secretaria de Fazenda, definindo o universo das favelas urbanizáveis, estabelecendo os critérios de pontuação para prioridade de inclusão de comunidades.

Então vocês definiram, com autonomia técnica, a maioria dos projetos?

Sim. Naquele momento estruturei uma equipe de 15 subgerentes de projetos, arquitetos e engenheiros, escolhidos a dedo. O secretário propôs uma consulta aos subprefeitos, que indicariam cinco favelas englobando todas as cinco áreas de planejamento da cidade. Nós priorizamos três de cada área. Foi uma ideia bastante democrática e eu achei legal, criativa... E nos garantiu depois apoio das subprefeituras. Foi realizado, então, o concurso da Secretaria de Habitação e do Instituto dos Arquitetos do Brasil para selecionar as metodologias para o Favela-Bairro. Eu participei do julgamento e da escolha das metodologias propostas mais apropriadas. Só uns poucos arquitetos entendiam do assunto. Então juntei os subgerentes para adequarmos o perfil das propostas de cada escritório às características das favelas já escolhidas. Bem, terminado o concurso, começaram as reuniões, com a intermediação do IAB e a participação direta dos escritórios já selecionados, para a definição da estrutura de funcionamento, critérios para a execução e aprovação de projetos etc. Reuniões cansativas que foram encaminhadas por alguns subgerentes e coordenadores. Eu não tinha paciência! Se eu disser que nós teorizamos isso, é mentira. Não tínhamos experiência nos trâmites formais a serem seguidos para aprovação dos projetos. Chega-se finalmente ao escopo do programa: critérios de aprovação de projetos e normas de apresentação de diagnóstico, planos de intervenções e projeto básico. Os nossos técnicos diziam que saíam discussões terríveis! Por iniciativa do Cesar Maia, foi criado o grupo das 16 lideranças. O G-16 foi o mais importante instrumento de socialização dos objetivos, etapas, métodos e repasses para todas as comunidades do programa, sobretudo aquelas que nunca tinham trabalhado conosco. Os planos de intervenção e o início de obras eram sistematicamente difundidos em assembleias locais. Quando começaram as visitas a obras, percebi que o prefeito tinha a percepção clara das vantagens e dificuldades enfrentadas, tomando decisões imediatas na indicação da SMO, por exemplo, para executar complementações importantes na interligação com os bairros com recursos próprios.

As intervenções aconteciam simultaneamente? Ou existia uma sequência?

Estabelecemos um cronograma bem enxuto com o Iplan, que assumiu a gestão administrativa dos projetos, através de reuniões comigo e com o subgerente de cada favela para fecharmos os termos da fiscalização, da aprovação de projetos e da efetivação de pagamentos. Fomos botando na rua na marra... Agora vai! Até porque tínhamos recebido uma provocação, que eu fiquei indignada.

Qual foi?

Convoquei uma reunião geral com os órgãos municipais afins para socializar os conceitos e metodologias do Favela-Bairro. Senti uma certa descrença dos participantes. Vem uma servidora da SME: “Ô Lu, você está maluca? Você não vai conseguir fazer isso nunca!” [risos]. Eu falei: “Nós vamos fazer sim, senhora! Quer apostar?” O comentário geral dos nossos técnicos que estavam presentes: “Chega dessa história de ‘engenheirinho’ de favela, que nós estamos fartos disso”. No final, isso deu gás para a turma!

Quanto tempo dura a intervenção em cada favela?

Depende muito dos graus de dificuldade. Com muito otimismo e boa interação entre os técnicos diversos e a comunidade, leva no mínimo um ano e meio. Mas, na realidade, tivemos que definir etapas de implantação em muitas favelas, porque sempre surgiam dificuldades técnicas e novas necessidades inesperadas.

Em que medida as obras dependiam dessa interação entre técnicos e comunidade?

Dependia da interação de todos os envolvidos. E aí começam as encrencas... Culturas diferentes... É evidente que em área saíam desentendimentos. Era uma confusão! Iniciam-se as licitações de projetos das seis primeiras comunidades e assim por diante, até chegar ao total de 23. Lá vêm novas dificuldades de adaptação, agora com as empreiteiras. Poucas tinham experiência em áreas altamente densas de ocupação desordenada. Tínhamos em área os subgerentes, os nossos fiscais de obras, as agentes comunitárias e as lideranças locais. A SMO nos deu preciosas ajudas. A turma segurando até quando dava; quando não dava, entra dona Lu aí para espanar, porque senão... [risos]. E assim surgiu a minha outra fama: a de “linha dura”. Sobrava também para presidente de associação, traficante... Caramba! Mas também facilitava para o pessoal técnico e para as agentes comunitárias chegarem a acordos com todos os envolvidos. Com a complexidade e diversidade de interesses no programa, estou convencida que não tinha outro jeito. Até hoje vem gente que nem conheço dizer que levou bronca de mim! Dizem que o Favela-Bairro não tem vínculos com a comunidade... É porque não precisa. Já estavam mais do que consolidados ao longo de oito anos.

O BID entra quando?

Naquele momento tínhamos um fortíssimo concorrente, que era o programa Rio Cidade, da SMU. O must da cidade, para a reestruturação dos principais corredores de transporte, ordem urbana com a retirada das barracas de camelôs, chumbadas nas calçadas do Centro, Copacabana, Ipanema, Leblon, Laranjeiras etc., fatos de que poucos se lembram. Nessa época trabalhávamos sem muitos ruídos. As negociações com o BID começam em fins de 94. Em 95 já tínhamos seis obras em andamento, que serviram como exemplo para a definição do escopo do programa. Jose Brakaz, um brasileiro inteligente e competente, funcionário do banco, coordenou uma série de missões. A nossa equipe tinha como coordenador de montagem dos componentes do contrato Fernando Cavallieri, que foi transferido para a SMH, e, como assessor imediato, o engenheiro Aderbal Curvelo, que me havia substituído na Coordenadoria de Planejamento do Mutirão

Mas tem protagonismo seu de bancar uma ideia um tanto extravagante, não é?

Para a época eram ideias extravagantes, mas o fato é que desde o início, em meus primeiros relatórios, eu já afirmava que a estrutura do programa tinha caráter macrofuncional, articulando as intervenções físicas com a diversificação de programa sociais. Os dois teriam que caminhar juntos. Era a metodologia de gestão social do programa. E assim fomos amarrar o escopo do programa com o BID, não sem discussões acaloradas. Era coordenado pela SMH com a coparticipação da SMDS. Eu era a coordenadora dos componentes conceituais e metodológicos, que eram na realidade um dos objetos principais do contrato. Tive que firmar posição quanto a algumas premissas, como a regularização fundiária após as obras, formas indenizatórias para o reassentamento de famílias por necessidades de obras, a construção de edificações habitacionais só em último caso, e outras. Na área social, os acordos foram mais difíceis. O BID insistia só na construção de creches e na troca da gestão participativa da SMDS com a comunidade por ONGs. E nós contrapúnhamos com a importância de diversificar os programas sociais, construir centros comunitários e espaços destinados aos esportes. Nada de ONGs. Foram reuniões muito cansativas e tensas. Mas dava para perceber que a prioridade deles era execução da obra. Prevaleciam os indicadores sociais quantitativos. Finalmente foi aprovado o Programa para Regularização de Assentamentos Populares (Proap Rio/BID) em fins de 1995, incluindo as primeiras 23 favelas e mais 40. Os legados importantíssimos deixados pelo BID para nós foram, de um lado uma estrutura profissional de gestão criada na SMH, com o apoio na contratação de três consultoras que vieram a reforçar a escassez de funcionários para atender às normas do contrato e para arcar com a diversidade de projetos. De outro lado ficou a sistemática de fiscalização de projetos e obras, que se traduziu na construção de um caderno de encargos completíssimo para programas em áreas de pobreza, perfeitamente adaptável aos projetos de desenvolvimento urbano, inclusive em pequenos municípios. No decorrer desses anos houve um desenvolvimento significativo quanto à regularização e titulação da posse da terra. Na secretaria avançam, posteriormente, mais programas importantes. Um deles, que vale destacar, é o programa Morar Legal, de urbanização de loteamentos irregulares e clandestinos, incluído no Proap. A Gerência de Regularização Fundiária viabilizava indenizações e reassentamento de famílias, dando uma solução importantíssima para os programas afins da secretaria. Havia também o Morar Sem Risco, que teve como resultado mais imediato a remoção de todas as famílias que vivam sob os viadutos da cidade, reassentadas em conjuntos habitacionais próximos àquelas áreas. O Novas Alternativas entrou com a restauração de cortiços adaptados para moradia popular e, finalmente, o Morar Carioca, que era de construção e financiamento de habitação popular. Com tudo isso, a SMH se consolida como uma secretaria com grande visibilidade e realizações, com prioridade nítida para as áreas de pobreza. Há que se reconhecer que o secretário Sergio Magalhães foi um gestor eficiente e eficaz.

Quando o projeto passa a ter uma repercussão mais ampla? Inclusive fora do Brasil?

Em 96 o arquiteto Luiz Paulo Conde é eleito prefeito, em função da alta popularidade do Cesar Maia. A SMH passa a adquirir uma certa visibilidade, que se amplia muito com a presença do BID. Com recursos fixados, não havia grandes dificuldades para a adesão de novos órgãos públicos ao Favela-Bairro, exceto a SMU. Muitas entrevistas e programas na mídia dão origem a atividades de coordenação de encontros técnicos, visitas de delegações de várias partes do mundo, coordenadas pela equipe da gerência. A comunicação social passa a ser bem incrementada com recursos alocados para propaganda. Já em 98 é lançado um boletim interno, os Cadernos da SMH, que focalizam os fatos mais importantes da semana. Durante a realização da Conferência da Cimeira,12 nesse mesmo ano, a prefeitura criou um ponto de informações e marketing no MAM, com uma exposição, distribuição de materiais e um vídeo de boa qualidade. Realizamos visitas, com grupos de mais de 100 jornalistas de todo o mundo, ao morro da Serrinha. Alguns grupos prolongavam as visitas se reunindo em bares, com os moradores, organizando pagode até a noite. Depois passamos a organizar visitas turísticas e técnicas no Vidigal, em função da bela vista da Zona Sul. Foram grupos e mais grupos. Aliás, o Vidigal vai ser mais tarde o embrião da ideia do Museu da Providência. Depois eu conto. Em 1997 eu tinha ido fazer o curso de gestão de programas sociais do Instituto de Desenvolvimento e Estudos Sociais do BID. Os professores e alunos simplesmente não davam a mínima para o Favela-Bairro: “Quem é essa brasileira aí?” Era tudo pablito [risos]. Foi um curso extremamente cansativo, que durou um mês, em Washington. A minha relação social com os alunos era ótima porque nos fins de semana nos reuníamos para ouvir música, tomar cerveja e bater papo, dar umas saídas turísticas. Uma vez fomos ver a festa do Halloween. Coisa estranha, aquelas fantasias, que não metiam medo nem em criancinha... Já os diálogos com os professores eram difíceis. Arrumei confusão lá por causa da participação comunitária, porque fui indicada para apresentar uma proposta que, evidentemente, não tinha nada a ver com a tese deles de trabalho voluntário nos fins de semana! Deu encrenca também na montagem do marco lógico de programas. Eu dizia: “Bom, marco lógico você manipula como quiser”.

O que é marco lógico?

Supersimplificando: o marco lógico é uma metodologia que discrimina os componentes para a avaliação e monitoramento de programas através do cruzamento de dados em um sistema matricial para cada instituição envolvida: os objetivos, etapas de implantação, competências, organização de cada tipo de ação, cronogramas físico-financeiros de projetos, acompanhamento e monitoramento das ações. Se você não detiver os dados da realidade concreta, as metas podem ser manipuladas ou estabelecidas de forma inteiramente equivocadas. E mais, eu disse que a metodologia de monitoramento não atendia às necessidades de “sustentabilidade” qualitativa dos projetos sociais. No caso do Favela-Bairro, durante a construção do marco lógico para o primeiro contrato com o BID foi difícil “amarrar” cada item de projetos e obras. Tudo se complicou em relação às políticas sociais porque se referia, além das creches, a programas múltiplos nos centros municipais de atendimento social integrado (Cemasi). Os recursos seriam provenientes da prefeitura, uma vez que a gestão dos projetos sociais em si não estava incluída no contrato. Claro! Para o banco, os componentes do marco lógico eram só quantitativos: que projetos, quantas pessoas beneficiadas etc. Quando o Cesar Maia não vai ao segundo turno das eleições para governador em 98, por coincidência, talvez, o secretário convoca uma reunião geral anunciando novidades na estrutura da SMH, oficializando a participação dos três assessores com o cargo de “facilitadores”. O que me chamou a atenção foi que eles entrevistavam os coordenadores e alguns técnicos. Ficou claro que eu não participava mais da área executiva. Em 99 o sistema matricial descentralizador de tomadas de decisões se revertia para um modelo centralizador que tirava todo o sentido de gerência macrofuncional. O grupo dos 16 passou a ser vinculado diretamente ao gabinete, responsável pela manutenção das obras, e acabou sendo politicamente cooptado. Posteriormente um coordenador me contou que os técnicos eram chamados apenas para consultas técnicas.

O que você fez?

Diante da inevitabilidade de uma campanha eleitoral que começava com muita antecedência, parti para priorizar, a fundo, a conceituação e criação de novas metodologias para as políticas sociais. Eu havia criado uma equipe social, com três assessoras experientes em diversos níveis: a Eliana Sousa e Silva (ex-presidente da AM da Maré), a Maria José Parreiras Xavier (Zeza) e a Sandra Jouan, coordenadora do programa de Saúde Sanitária e Ambiental, criado em 98, que tinha longa experiência conosco. A tese que eu defendia era a de que as lideranças não são forjadas... e muito menos pelo poder público! Trabalhar na consciência real dos indivíduos, ou seja, no atendimento às reivindicações imediatas das comunidades era uma postura que vinha de décadas. Reduzir os efeitos do assistencialismo e clientelismo era a minha meta principal, a partir da ideia de trabalhar na consciência possível de algumas lideranças e grupos de pessoas, que tinham interesses específicos em determinados itens do escopo do programa. Estruturamos um cronograma de workshops técnicos com focos específicos na infraestrutura de saneamento básico e espaços públicos, projetos sociais de creche e centros municipais de atendimento social (Cemasi), esporte e lazer, meio ambiente e urbanismo. Estruturamos o Plano de Ação Social Integrada, o Pasi, incluindo comunidades que entrariam no Proap 2, já que as negociações do contrato tinham iniciado em 98. Era um avanço importante em termos de metodologia macrofuncional de integração social participativa em parceria com as secretarias de Desenvolvimento Social e de Trabalho e Renda, que tinha sido criada no ano anterior. A experiência nas favelas do complexo do Lins, da qual não participei, foi excelente. Posteriormente, em 98, a criação da Coordenadoria de Participação Comunitária e Acompanhamento, institucionalizando a integração social nos programas da SMH, foi um importante reforço para nós. A mobilização de moradores e a interatividade criada nos grupos surpreenderam as minhas assessoras e todos os participantes da secretaria e de outros órgãos municipais. Não tenho certeza, mas acho que em 97 foi lançado o programa Bairrinho, que atendia favelas de 100 a 500 famílias, mas não era eu a gerente. Nesse mesmo ano de 1998, iniciamos a implantação do programa FavelaBairro em grandes favelas, com recursos da Caixa Econômica Federal.

E quais eram as favelas?

Eram as favelas de Rio das Pedras, Rollas e Fazenda Coqueiros, na Zona Oeste. Os recursos eram da Caixa Econômica Federal. Quando conheci o Dietmar Starke, recém-chegado da Alemanha, optei pela contratação dele para subgerente. O Jacarezinho vai ser o projeto-piloto, desenvolvido pelo escritório de arquitetura Artefato, se não me engano, com jovens arquitetos muito sérios. Fizemos duas assembleias, na sede da escola de samba do Jacarezinho, para divulgar o projeto e para a apresentação do plano de intervenções, ambas com a presença da diretoria da associação de moradores e famílias locais da comunidade. Iniciamos também as obras em Rio das Pedras com os escritórios do Paulo Casé e do Jorge Mario Jáuregui. No ano de 2000 eu já era uma referência forte do programa e as coisas se complicaram para o meu lado. Realizando uma visita com a Architectural Association da Universidade de Londres ao morro da Providência, fui contatada pela jornalista Márcia Vieira, da revista Vejinha, para uma reportagem que ficou muito legal, intitulada: “A arquiteta dos morros: quem é a mulher que comanda o Favela-Bairro”. Mas a matéria provocou, evidentemente, um certo mal-estar com o secretário e, quiçá, com o próprio prefeito Conde. Poucos meses depois, em julho, foi plantada uma notinha no jornal O Dia sobre desentendimentos entre a gerente do Favela-Bairro e o secretário da SMH. Claro que tínhamos desentendimentos técnicos e políticos. Eu não estava gostando nada dos rumos do Favela-Bairro, que vinha se transformando em obras de urbanização e arquitetura. Os programas sociais só eram fortalecidos nas inaugurações. Os coordenadores do programa passaram a ser simples informadores de técnicas de projetos e obras. A centralização de decisões se tornara clara como água! Mas tomei uma posição bem diferente das anteriores... Nunca explicitei os desacordos claramente para não prejudicar o programa e a secretaria. Era público e notório que eu apoiaria o Cesar Maia nas eleições para prefeito de 2000. O Luiz Paulo Conde era considerado favoritíssimo na SMH, e havia uma capitalização política do programa Favela-Bairro. Entre ser exonerada como “traidora” e buscar uma solução drástica contra a capitalização política do Favela-Bairro, optei pela segunda e saí candidata a vereadora do PTB, reforçando os vínculos com o Cesar Maia. Eu nunca tinha levado a sério os convites para ser candidata a vereadora na época da SMDS, por não ter o mínimo talento para esse tipo de tarefa. E também não tinha dinheiro para a campanha. Nessa época, sai uma notícia no O Globo, de página inteira, provocativa e sensacionalista: “Mãe do Favela-Bairro se candidata...” Essa matéria vai gerar a celeuma sobre a paternidade do programa. Passei a ser persona non grata na maioria das favelas. Só conseguia entrar nas áreas do Jacarezinho, Rollas e Fazenda Coqueiro, e algumas favelas de Jacarepaguá. E durma-se com um barulho desses!

Como foi a experiência de fazer campanha?

Consegui um panfleto muito bemfeito. O símbolo era uma inofensiva abelhinha... A minha irmã conseguiu uns depoimentos importantes, que resumiam alguns momentos da minha trajetória. Tem depoimento do poeta Ferreira Gullar, da escritora Ana Maria Machado (amiga de primário e ginásio), do cineasta Paulo César Saraceni. O Ruy Castro escreveu um texto sobre a minha participação na origem da bossa nova. A minha equipe de campanha era a Bianca Povoleri, ex-secretária na gerência, e a família dela, que morava na Zona Oeste; minha irmã, o meu filho, e alguns amigos da SMH que me apoiavam na encolha. Eu tinha uma mesinha em frente ao Barril 1800, em Ipanema, onde se reunia um grupo de apoio de amigos da praia. O panfleto atraía muita gente, mas não dava voto. Aconteciam coisas que me assustavam. Como eu já disse, passei a ser impedida de entrar na maioria das favelas que eu conhecia muito bem. Apesar disso, ainda consegui duas áreas onde tinha lideranças de mulheres com quem eu tinha relações de amizade, como a Guará, do morro do Sossego, e a Sandrinha, que era presidente na favela da Grota. Consegui uma casinha de graça, com um amigo, em frente ao morro do Sereno, no complexo do Caricó. Uma noite, apareceu uma turma pressionando o meu amigo e a família, e lá se foi o comitê da Lu do Favela-Bairro. Militância política é uma coisa, porque os fatos bons ou maus são mais ou menos previsíveis. Mas campanha eleitoral é para profissional. Caramba! Eu não entendia nada! Por outro lado foi uma campanha hilária, com “causos do arco da velha”. Concentrei a campanha no Jacarezinho. Nosso grupo era um bando de mulheres que faziam um “auê” danado, e a Zeza — um homossexual que era uma verdadeira mãe para os três filhos. Ela se vestia de mulher, mas não fazia a barba, e a gente tinha que dar duro nela. Quando marquei uma visita do Cesar Maia lá, ela apareceu toda feliz da vida, toda pimpona de cabelo penteado, unhas feitas... uma figura! Um dia fomos para o forró e demos de cara com ela dançando com um velhinho, de rosto colado... Não teve jeito, a gozação foi geral! Como sempre, eu e a “fiel escudeira” Bianca, fomos num forró lá nos cafundós da Zona Oeste. Lá tive eu que dançar a noite inteira. Avisei para a mulher que nos convidou que não tinha dinheiro. Pois não é que ela veio, no final da festa, me pedir para pagar os músicos? Saímos dali de fininho. Por ironias do destino, ninguém pedia obras ou material de construção... Era bujão de gás, panela, um arsenal de coisas... Tem muito mais situações esdrúxulas que nem me lembro mais. Terminada a eleição, com a vitória do Cesar Maia, lá vêm as lideranças: “Lu e Bianca, está tudo liberado... Nunca quisemos prejudicar vocês e... blá-blá-blá”. E assim foi o nosso tempo de campanha nas favelas... É a partir daí que vamos consolidar o projeto Célula Urbana.

Para saber mais, leia o livro na íntegra! 

Notas e referências


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