Padre Olinto

De Dicionario de Favelas Marielle Franco
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Olinto Antonio Pegoraro

Padre Olinto

Este verbete foi construído pensando as relações estabelecidas entre o trabalho do professor Olinto Antonio Pegoraro e os aspectos históricos das relações sociais em favelas da Grande Tijuca, especificamente Borel e Chácara do Céu. Nesta região, o professor ficou marcado como Padre Olinto, por sua atuação junto à Igreja e, sobretudo, na formação comunitária de diversas gerações de moradores/as. O resgate de uma entrevista concedida ao historiador Mauro Amoroso, em 2011, nos ajuda a passear por essa história, marcada por muita luta e reconhecida pelos moradores do Borel e Chácara do Céu.

Formação

Olinto Antonio Pegoraro foi um filósofo e professor universitário brasileiro, com trabalhos acerca de ética, bioética e história. Foi professor na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Doutorou-se em filosofia pela Universidade Católica de Louvain em 1972, com tese orientada por Alphonse De Waelhens sobre imaginação e tempo em Heidegger. Foi presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia entre os anos de 1988 e 1990.

Padre Olinto encontra o Borel

Sua história encontra a das favelas da Grande Tijuca quando, em 1975, chega ao Borel., como padre e com a missão de atuar junto às massas e colaborar com a sua formação política. Tendo participado anteriormente de diversos movimentos da Igreja Católica, como a Juventude Operária Católica (JOC), Juventude Católica (JUC), todos movimentos que se aproximavam da luta comunista. Olinto costumava dizer que o maior comunista que conheceu foi Jesus Cristo.

No Borel, fundou o Núcleo Primeiro de Maio, localizado no Terreirão. Era um Centro Comunitário de apoio aos moradores. Uma forma de estar perto e colaborar naquele espaço. Em entrevista à socióloga Marcela Carvalho de Araújo Silva (2012), conta um pouco deste início.

 “Se eu cheguei ao Borel foi por impulso que vinha de antes e eu achava que era isso que deveria ser feito de outra forma. JOC e JUC, a CNBB desfez a JOC, se livrou, porque a Igreja apoiou a ditadura. E a JOC, JUC e JEC eram exatamente socializantes, eram um movimento muito perto do comunismo. O maior comunista para mim foi Cristo. Se devemos entender a socialização do que é nosso, que nada é exclusivamente para ninguém, ora isso está no Evangelho, então o maior socialista foi ele. Estamos em casa. Então nada de extraordinário, nada de admirar que essas duas ideologias fossem próximas. O Partidão era um iconoclasta, queria derrubar tudo. Mas nós não queríamos derrubar, mas criar espaços de democracia e o povo no poder. Isso é sagrado! Como fazer? Evidentemente não era pelo conflito. Nada acontece. Mas tinham partidos comunistas que eram do conflito armado: “chegaremos ao poder só derrubando”. São cabeças. São detalhes da ideologia, o fundo da ideologia é o mesmo.” (SILVA, 2012)

O início do trabalho de Olinto no Borel é marcado também pela construção de uma capela dentro da favela. Conhecida até hoje pelo nome Nossa Senhora das Graças. Naquela época, foi o ponto de apoio principal à sua atuação junto aos moradores e, atualmente, continua congregando ao seu redor alguns equipamentos de atendimento social.

“Onde é a capelinha era uma birosca de bebidas, embaixo de uma árvore. Compramos aquele pedaço e começamos a fazer a Igrejinha. Demorou quase 1 ano e, durante 1 ano, eu rezei missa todos os sábados embaixo daquela árvore.”

Mais ou menos na mesma época em que padre Olinto começava a organizar o Centro Comunitário, em 1976, segundo lembram alguns dos seus militantes, a Ação Popular deu início a cursos supletivos no Borel. Muitos adultos passaram pelas aulas oferecidas ali.

Uma creche no Borel e outros serviços

Tendo em vista expandir sua atuação junto aos moradores, em 1979, professores e alunos organizaram uma pesquisa sobre quais serviços eram mais demandados pelos moradores. Os/as alunos/as auxiliaram nesta tarefa e percorreram toda a favela para a pesquisa. Havia opções como Escola noturna, escola para adultos, escola para crianças e creche. A demanda por creche era enorme e foi a mais solicitada.

Foi assim que começou o projeto da Escola Comunitária que recebeu o nome Marcelo Cândia, ainda na década de 1970.

Padre Olinto e Marcelo Cândia

Ainda em meados dos anos 1970, padre Olinto conhece Marcelo Cândia, industrial italiano que havia optado por doar sua fortuna aos pobres. Foi o dinheiro de Marcelo Cândia que permitiu construir o Centro Comunitário Primeiro de Maio, ao lado da Capela Nossa Senhora das Graças.

Padre Olinto conta que foi dando o nome de Marcelo Cândia a todos os projetos que inciava, pois era quem financiava as obras. Ele conta sua relação com o industrial:

“E foi por acaso. (...) Ele era riquíssimo, depois da [Segunda] Guerra, do setor químico de Milão, um dos grandes industriais, ele ainda é lembrado lá pelos grandes industriais. Pegou tudo e transformou em dólar – que, naquele tempo, depois de Deus, quem mais mandava era o dólar no mundo. Converteu tudo em dólar e foi morar na Amazônia, [...] em Macapá. Fundou leprosários, hospitais, serviço social, também ele era a ligado à Igreja. Com comunidades de padres, especialmente italianos, foi trabalhar com eles lá na Amazônia. Ele apoiou essas instituições todas. [...] Ele sempre achou muito pobre lá o norte, mas se falava do Rio, que tinha mais pobreza ainda – e na época tinha. Eu fui muitas vezes a Macapá, porque ele fazia congressos de enfermeiras, de não-sei-o-quê, para formar essa gente. Ele queria publicar, mas era italiano – falava português, sim, mas muito pouco. Eu ia para lá, passava 15 dias lendo aquelas coisas e mais ou menos ajeitando para publicação. [...] Ele queria conhecer, então, uma favela do Rio de Janeiro. E, por acaso, me encontrou, (mas por acaso!) na Amazônia. Numa vez dessas, o meu chefe, que morava em São Paulo – a sede da minha congregação ficava em São Paulo –, disse: “tem o Olinto no Rio que trabalha com favela, quer ir lá ver?”. Veio. Ele era um senhor já de idade, alto, gordo. Era um mês de novembro, quente que só. Eu tinha um fusquinha e falei: “vamos subir de Fusca”. “De jeito nenhum”, ele queria ir a pé. [...] E foi a pé, subimos a pé o morro. [...] Ele se encantou com o Borel.”

Para que as ações continuassem e fossem expandidas, padre Olinto continuava mobilizando contatos para a aquisição de verbas que permitissem a expansão do Centro Comunitário que funcionava no âmbito da Ação Comunitária Pró-Favela, órgão da Sociedade Beneficente São Camilo. Valendo-se de seu lugar de padre, ele dependia de doações

Por volta de 1985, a Igreja iniciou as obras de construção de uma escola. Em prédio geminado à capela, com financiamento da Fundação Marcelo Cândia, foi construída uma escola de ensino fundamental para as crianças da favela. De acordo com o padre Olinto, a escola era para ser o salão de festa – como foi.

“Depois eu tive a oportunidade de trazer uma escola para lá, por uma professora do IFCS, Maria Yedda Linhares. Ela foi uma grande mulher. Foi secretaria da educação do município do Rio. A Yedda era minha coleguinha, eu na Filosofia e ela na História. “Eu gostaria de fazer uma escola lá no Borel para as crianças”. Ela anotou no caderninho dela, como qualquer um de nós. Dali 15 dias, “taí a escola para você”. E deslocou uma diretora que estava brigada ali na Formiga e a passou para mim, Tânia. Maravilhosa diretora! [...] E o Darcy Ribeiro, esse malucão, também era professor do IFCS de Sociologia, quando apareceram os CIEPs, ele quis fazer uma coisa menor, a Casa da Criança, que tem ali na Chácara do Céu e ali embaixo, perto da sede. “Escuta, Darcy, você não quer fazer lá para mim uma escola de crianças? Só preciso de duas”. E me deu duas: essa lá da Chácara e a outra lá embaixo. Durante muito tempo, eu cuidei delas, mas depois a prefeitura tomou conta.”, conta.

Durante alguns anos, o espaço de atendimento social foi bastante desenvolvido, congregando no entorno da capela dois centros comunitários, cursos profissionalizantes, um berçário, uma creche, uma escola primária, um posto avançado de assistência jurídica da OAB (fundado em maio de 1989), um posto de saúde do Hospital Universitário Pedro Ernesto (construído em 1999) e uma quadra esportiva (construída pelo Favela Bairro), padre Olinto, por ocasião de um artigo publicado em jornal a favor do uso de métodos contraceptivos, é expulso da Igreja Católica.

De modo a não perder esses serviços, realizados por agentes comunitários e viabilizados por convênios firmados entre ele e os vários órgãos da prefeitura, o professor Olinto criou e transferiu, em 2002, os serviços para o âmbito da ONG Ação Comunitária Pró-Favela – Dr. Marcelo Cândia.

Borel e Chácara do Céu – espaços de atuação

Padre Olinto participou da organização social e política do Borel e da Chácara do Céu. Teve importante papel em auxiliar a comunicação entre os moradores dos dois territórios. "Eu comecei aqui e, nessa época, o povo não se comunicava. Comecei em 1975, rezando missas embaixo da árvore [...]. A formação do povo é fundamental, a saúde. Nós sempre tivemos um postinho de saúde funcionando por aqui [...]. Temos muitas histórias. A do Cruzeiro, por exemplo. Quando montamos, o cimento estava fresco e caiu e ficou quebrado. Depois consertamos, mas deu uma ventania e caiu de novo. Depois, consertamos mais uma vez, e vieram os militares e cortaram [...].

Mesmo depois da expulsão pela Igreja, Olinto Pegoraro foi tratado e reconhecido como padre e muito acolhido no Borel. Sua história está gravada em cada espaço e equipamento ao redor da “Igrejinha” e também na vida de milhares de moradores que viram suas famílias passando por algum atendimento ou participando das celebrações com ele.

Livros Publicados

  1. Relatividade dos Modelos – Editora Vozes, 1979.
  2. Ética é Justiça – Editora Vozes, 1995.
  3. Ética e bioética: da subsistência à existência – Editora Vozes, 2002.
  4. Introdução à ética contemporânea – editora Uapê, 2005.
  5. Ética dos maiores mestres através da história – Editora Vozes, 2006.
  6. Freud: ética e metafísica – Editora Vozes, 2008.
  7. Bioética em temas – Eduerj, 2009.
  8. Sentidos da História – Editora Vozes, 2011.
  9. Ética da solidariedade antropocósmica – Editora Vozes, 2014.

Falecimento

No dia 26 de Janeiro de 2019, padre Olinto faleceu com sequelas de um atropelamento. Imagino que com a certeza de um legado enorme na formação de filósofos, cientistas sociais e cidadãos.

Notas de pesar

PUC-Rio

Morreu no dia 26/01/2019 o Prof. Olinto Antônio Pegoraro, responsável pela formação de gerações de filósofos na PUC-Rio, na UFRJ e na UERJ, onde atuava nos últimos anos. A PUC-Rio se une às manifestações de pesar de instituições e de colegas e reconhece a importância da contribuição do Prof. Olinto para a filosofia no Brasil, em especial na área de Ética.

Nota da Anpof - Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia:

Faleceu na tarde deste sábado (26/01) o Prof. Olinto Pegoraro (UERJ), que foi presidente da Anpof de 1988 a 1990. Lamentamos a perda do professor e manifestamos nossa solidariedade à família, aos amigos e aos que conviveram academicamente com ele.

Prof. Renato Janine Ribeiro (USP), ex-ministro da Educação

Minha tristeza pela morte do amigo Olinto Pegoraro, de quem fui secretário executivo quando ele era presidente da ANPOF. Um homem de coração aberto, que perdoava ofensas, que tinha um trabalho social importante se não me engano no morro do Borel, em suma, uma pessoa preciosa. É triste ver sua vida ceifada por um atropelamento. Meu coração está com ele e os muitos que ele ajudou nesta vida.

Leonardo Boff

Ontem, 26, faleceu um grande amigo e colega na UERJ, o prof. Olinto Pegoraro. Dedicou grande parte de sua vida acompanhando o povo do Borel, unindo pensamento com compromisso com os desvalidos.

Referências Bibliográficas

AMOROSO, Mauro. Ação política e convivência tática: os grupos de esquerda no Borel durante a reabertura. Revista O Social Em Questão. Rio de Janeiro, n. 24. Disponível em http://osocialemquestao.ser.puc-rio.br/media/osq24_amoroso_9.pdf Acessado em 04 de Março de 2020.

SILVA, Marcela C. de A. Circuitos governamentais na favela: urbanização e controle social. 36 Encontro Anual da Anpocs. Disponível em https://www.anpocs.com/index.php/papers-36-encontro/gt-2/gt07-2/7914-circuitos-estatais-na-favela-urbanizacao-e-controle-social/file Acessado em 12 de Março de 2020.