Serra da Misericórdia

De Dicionario de Favelas Marielle Franco
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Autor: Ricardo De Moura.

História

A Serra da Misericórdia, incialmente chamada de serra chorona, por conta da quantidade de nascentes que ela apresenta, é o quarto maciço urbana da cidade do Rio de Janeiro, depois da Floresta da Tijuca, Medanha e Pedra Branca; se estendendo por 27 bairros da Zona Norte do município e se constitui a principal área verde da região. Ela tem uma importância histórica, ambiental e política imensurável para a região. 

Boa parte da história da militância da região do Complexo do Alemão passa pela organização em torno da defesa da Serra da Misericórdia, em particular a defesa pela criação da APARU (Área de Proteção Ambiental e Recuperação Urbana), que foi feita no ano 2000, após forte mobilização realizada pelo Verderjar Socioambiental, fundada em 1997. O que trouxe algumas garantias ambientais para a serra. No início dos anos 2000, foi fundado o Comitê de Desenvolvimento Local da Serra Misericórida (CDLSM), que congregou diversas organizações sociais da região para garantir a defesa da área e pregando a participação e controle social das políticas a serem ali desenvolvidas. Destaca-se, aí, a proposta de criação do Parque ambiental da Serra da Misericórdia, pelo Prefeito Cesar Maia. O CDLSM conferiu densidade ao tecido político do Complexo do Alemão nos anos 2000 e algumas organizações locais saíram fortalecidas desse engajamento.

Ao mesmo tempo, por conter uma grande reserva de granito, a Serra é objeto constante dos interesses privados. A presença da mineradora Lafarge é um dos grandes focos de tensão política e mobilização local. Os impactos ambientais causados por sua ação se manifestam constantemente. Um dos mais emblemáticos foi o rompimento de um lençol freático que produziu um lago na região. Mais recentemente, nos esforços de urbanização de favelas que foram desencadeados por conta do PAC, a Serra voltou a ser objeto de intervenções públicas, com a criação de um bikeparque lá. Um campo de futebol histórico, o “campo da mina”, foi destruído, o projeto foi desenhado, mas não chegou a sair do papel, bem como boa parte das ações voltadas para as favelas. Que se iniciam e ficam por terminar. Um pouco desta história que se busca contar e detalhar neste verbete.

Serra da Misericórdia, Te amo!

Morar em Piabas, quando será! 
A Serra é quem clama, misericórdia! 
Por entre balas e fumaças zona norte Rio 
A Serra se lança no maior desafio 
Verdeja Já! 

Já te amo Serra da Misericórdia! 
Te amo!! 

O seu verde precisa verdejar 
Esta redondeza sem paz, pálida e poluída 
Te amo Serra da Misericórdia! 
Te amo!! 

Penha, Inhaúma, Complexo do Alemão 
Olaria, Ramos, Bonsucesso, Engenho da Rainha 
Tomás Coelho, Vicente de Carvalho, Vila Kosmos, 

Vila da Penha e Penha Circular. 
Circundam a Serra da Misericórdia 
Te amo Serra da Misericórdia 
Te amo!! 

O seu verde precisa verdejar esta redondeza 
De paz, pálida e poluída 
Te amo Serra da Misericórdia 

Luiz Carlos, Poeta 

 

Impossível falar da Serra da Misericórdia, sem falar da luta incansável do Verdejar que teve como seu maior expoente, Luiz Carlos, o Poeta, como era carinhosamente reconhecido. A ONG Verdejar desenvolve mensalmente um Mutirão Ecológico pela preservação e manutenção da última área verde da Zona Norte, a APARU (Área de Proteção Ambiental e Recuperação Urbana), localizada na Serra da Misericórdia. Um exemplo de atuação da organização pode ser vista em Verdejar (2007), de onde foi retirado o relato que se segue. O texto foi produzido, logo após uma sequência de dois incêndios ocorridos em uma área verde da Serra da Misericórdia e é exemplar quanto a importância e forma de atuação do Verdejar Socioambiental. 

Em pouco menos de uma semana dois incêndios na Serra da Misericórdia no bairro do Engenho da Rainha Zona Norte do Rio de Janeiro assustam moradores e ambientalistas. De acordo com um morador, que não quis se identificar, o incêndio do dia 13 de março foi provocado por uma manifestação religiosa de origem africana comum no local. O grupo Socioambiental Verdejar que atua na Serra da Misericórdia desde 1997 chamou imediatamente os bombeiros que conseguiram conter o avanço do fogo. Os incêndios, segundo o coordenador de agroecologia do Verdejar Luiz  Poeta, costumam acontecer principalmente pelos motivos: culto de origem africana que utilizam velas, culto de evangélicos que põe fogo na mata para abrir caminho para chegar ao monte e balões. “Infelizmente algumas pessoas ainda não têm consciência de preservação ambiental, daí o problema das queimadas”, enfatizou. 

Já o coordenador executivo Edson Gomes não descarta a possibilidade de o incêndio ter sido causado por oportunistas, posto que o grupo Verdejar luta não somente pela preservação ambiental da Serra da Misericórdia, mas, também, por um desenvolvimento socioambiental sustentável e isso acaba por contrariar interesses de mineradoras e outras indústrias que exploram a região. Zolmir Figueiredo e Erik Vidal dizem que o Sistema Agroflorestal (SAF) plantado e implementado pelo Verdejar auxiliou a conter o fogo. “Na implantação do SAF são feitas capinas em aceiro no entorno do sistema justamente para protegê-lo contra as queimadas” explicaram. 

O Comitê de Desenvolvimento Local da Serra da Misericórdia junto aos ambientalistas do Verdejar discutem a necessidade de gestão do maciço da Serra da Misericórdia para tentar diminuir as degradações ambientais ocorridas pelos incêndios, exploração das mineradoras e os impactos ambientais oriundos dessa exploração. “É necessário um plano de gestão urgente para coibir ações de queimadas, degradação ambiental e desmatamentos da última área verde da Zona da Leopoldina”, advertiu Luiz Carlos.  

Em novembro de 2000 foi criado o decreto de nº 19.144 que cria a Área de Proteção Ambiental e Recuperação Urbana – APARU da Serra da Misericórdia, área de aproximadamente 3.695 hectares. Isso é importante, pois a discussão do momento na imprensa tem sido em torno do “Piscinão do Alemão” (apelido de mau gosto dado ao grande Lago Azul) o que acaba por esconder a necessidade de abertura do debate com a sociedade civil para criação do Parque Ecológico. Mesmo após o decreto de proteção ambiental e de recuperação urbana dessas áreas a mineradora Lafarge explora brita na Serra da Misericórdia. “Há muito tempo lutamos pela desativação das pedreiras que exploram a Serra da Misericórdia. Elas poluem demasiadamente o ar das comunidades situadas no entorno da Serra causando graves problemas respiratórios, alergias onerando o setor de saúde pública, além de causar diversas rachaduras nas residências do entorno colocando a população em uma situação de risco durante as chuvas torrenciais” enfatiza Luiz Carlos. 

De acordo com o grupo Verdejar, as explorações alcançaram um lençol freático que deu origem a Lagoa Azul do Complexo do Alemão. Esta área já era usada pela população local como área de lazer, com o aparecimento do lago a pratica se intensificou, uma vez que há carência de equipamentos e áreas públicas voltados para recreação e preservação ambiental que proporcionem bem estar. O Parque Ecológico está desenhado na arquitetura das obras do PAC e que por interesses escusos ainda não foi discutido com a sociedade civil um projeto urbanístico do referido Parque da Serra da Misericórdia acompanhado da política ambiental a ser implementada. 

No próximo dia 21 de março às 10h, um dia antes do dia mundial da água, haverá um abraço simbólico ao Lago Azul para chamar a atenção do poder público quanto a necessidade de criação do Parque Ecológico na Serra da Misericórdia. Estima-se que a mobilização vai levar mais de 500 pessoas ao local. “Este evento é uma tentativa de abrir um canal de diálogo com as instâncias de Governo e com a Empresa de Obras Públicas (EMOP) para a criação do tão sonhado Parque Ecológico na Serra da Misericórdia. A sociedade civil não pode ficar de fora desse diálogo. É algo de uma grandeza e importância incontestável não somente para Complexo do Alemão, mas também para toda Zona Norte da Cidade” decretou Edson Gomes.  

O Lago é Nosso 

O evento O Lago é Nosso 2 realizado neste domingo às 11h (ontem) pelo Comitê de Desenvolvimento Local da Serra da Misericórdia, Éfeta, Raízes e Verdejar reiniciou uma série de reivindicações dos moradores do Complexo do Alemão, entorno e redes sociais locais para a construção do Parque Ecológico na Serra da Misericórdia. O foco do evento, além de chamar a atenção do poder público para a degradação ambiental da Serra da Misericórdia promovida por empresas que exploram a região há 17 anos, foi também de provocar abertura no diálogo entre O Governo e a Empresa Municipal de Obras Públicas (EMOP) quanto à participação popular na construção e gestão do Parque e de equipamentos públicos. 

O Parque Ecológico na Serra da Misericórdia é uma forma de reconhecer a importância da última área verde da Zona da Leopoldina e consequentemente cumprir com o que rege no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Além de constar na planta do PAC (vide site oficial do Governo Federal), o Parque Ecológico é indubitavelmente de extrema importância para o Complexo do Alemão e entorno, pois vai contribuir para melhoria da qualidade de vida da população. Qualidade de vida que se expressa por propostas concretas para recuperação de áreas degradas, tratamento de resíduos sólidos tendo como parâmetro a promoção de trabalho e renda, recuperação de espaços públicos (praças e logradouros), implantação de uma Lona Cultural, de um centro poliesportivo, de uma universidade popular entre outras. 

Considerando que o desenvolvimento sustentável só pode ser alcançado com a mudança de uma política equivocada em relação ás questões ambientais o Comitê, as redes sociais e moradores exigem a apresentação do projeto urbanístico do Parque Ecológico, a política ambiental a ser implementada e a garantia de participação popular neste processo e em outros.   

Abraço ao lago 

 A ideia de dar um abraço simbólico no lago surgiu da necessidade de mobilizar os moradores do Complexo do Alemão e entorno para importância da construção do parque ecológico na Serra da Misericórdia, para a desativação da pedreira e, por conseguinte, preservar o que ainda resta do ecossistema e recuperar as áreas degradas, de modo a contribuir para o desenvolvimento sustentável. Vários artistas locais, convidados e moradores subiram a Serra para participar do evento. A mobilização levou cerca de 150 pessoas ao grande lago, entre elas: MC Playboy, Choro da Serra e Orquestra Voadora. Houve também coleta de lixo, plantio de mudas de árvores, poesia e muita diversão. 

Moradores apoiaram o evento e ficaram felizes com a iniciativa. No momento do abraço todos, com muita descontração, deram as mãos em torno do lago, fizeram “hola” e gritaram: “O LAGO É NOSSO!”.  De acordo com as instituições organizadoras do evento o Parque Ecológico é uma reivindicação antiga e que agora ganha força com movimentos sociais e moradores que querem a construção dele, tanto quanto a construção do plano de gestão participativa dos equipamentos públicos.   

As solicitações da construção do parque ecológico e promoção de novas práticas saudáveis para os moradores do Complexo do Alemão e adjacências não encontram melhor momento para a implementação. Todas as melhorias devem ter como prioridade o morador, sendo assim, requisitamos ao Governo atenção ao ofício de nº 1/2009 protocolado no dia 12 de novembro de 2009 junto à Secretaria Geral da Presidência do Brasil, a Presidência da Caixa Econômica, ao Governo do Estrado e Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro com cópia para os Ministérios público Estadual e Federal. 

Acreditamos que após o evento de hoje (ontem) o Governo vai nos ouvir e abrir um canal para o diálogo, não como meros legitimadores do processo (como vem acontecendo com as obras do PAC), mas como participantes legítimos dele. Isso implica dizer em envolvimento com e das diversidades e multiplicidades de atores sociais previsto pelo Projeto Técnico do Trabalho Social (PTTS), tomadas de decisão e diálogos permanentes com efetiva participação popular. O Comitê de Desenvolvimento Local da Serra da misericórdia, as redes sociais e moradores do Complexo do Alemão e adjacências aguardam o diálogo frente às reivindicações.