Vamos Desenrolar: Produção de Conhecimento e Memórias (projeto)

De Dicionario de Favelas Marielle Franco
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Autor: Ricardo José de Moura[1]

Resumo

O Vamos Desenrolar – Oficina e Produção de Memórias e Conhecimento – nasce a partir de uma necessidade do Instituto Raízes em Movimento de reunir pesquisadorese ocupar espaços públicos do Alemão, a fim de desenrolarem, conjuntamente com moradores, distintas temáticas em praças e ruas do bairro. E que vai ao encontro de uma demanda desses mesmos pesquisadores, que buscavam formas de dar devolutivas de seus trabalhos aos moradores, mas não sabiam como. Os assuntos desses encontros são construídos coletivamente e envolvem temas variados como: gênero, moradia, mobilidade urbana, drogas, artes, cidade, direitos, comunicação, esportes etc. Assim, desde seu primeiro ciclo de debates, em 2013, o Vamos Desenrolarse propôs a ser um espaço de interação e articulação de produção de saberes e conhecimentos - acadêmicos e populares.A dinâmica dos encontros são rodas de conversas disparadas por dinamizadores (moradores e pesquisadores) com o intuito de aproximar saberes de múltiplas vertentes, compartilhar experiências, circular por vários espaços do bairro Complexo do Alemão e de produzir conhecimento. Os encontros são sempre em praças públicas, ao ar livre e com microfone aberto para qualquer tipo de intervenção. Além disso, estas rodas de conversas procuraram ampliar a ideia de cidade a partir de outras perspectivas que florescem nestes espaços. É também desse modo inovador que oInstituto Raízes em Movimento – com relatorias dos encontros feitos por universitários locais, registro audiovisual feito por jovens favelados e artigos escritos pelos dinamizadores dos encontros – reafirma que a produção do conhecimento é crucial para dar legitimidade e potencializar a luta dos moradores do Complexo do Alemão por um desenvolvimento mais humano. O Vamos Desenrolar é isso: troca de ideias experiências com microfone aberto para quem quiser desenrolar.

Apresentação

 O Instituto Raízes em Movimento surge no ano de 2001, a partir de inquietações e engajamento político de jovens, alguns universitários, em proposição e ação que visavam atenuar alguns problemas do Complexo do Alemão[2] relacionados a insistência (ou ausência) de tipos de políticas públicas mal elaboradas para os espaços de favelas, dentre as quais se destacam: ações assistencialistas no campo da cultura e negação do direito à cidade. Tais jovens haviam participado de um projeto de ensino de jovens e adultos e se organizavam em torno de um curso pré-vestibular.

A trajetória do Raízes em Movimento é, também, marcada pelo engajamento com outros coletivos, como a luta pela implementação do Conselho de Saúde do Complexo do Alemão (CONSA), a criação do Comitê de Desenvolvimento Local da Serra da Misericórdia (CDLSM) e a gestão do Trabalho Técnico Social do PAC; mas também por iniciativas próprias em ações culturais e de protagonismo local como o Tintarte, o cineclube, o Adubando Raízes Locais, o Faveladoc, o Circulando – diálogo e comunicação na favela, o Vamos Desenrolar – Produção de Conhecimento e Memórias e, mais recentemente, a construção do Centro de Pesquisa, Documentação e Memória do Complexo do Alemão (CEPEDOCA).

Hoje, temos certeza de que este investimento se consolidou e ganhou capilaridade. Nosso trabalho articula-se em duas áreas estratégicas: a primeira voltada para a Produção de Conhecimentos Compartilhados; a segunda para Comunicação e Produção Cultural. Ambas formam os programas: Centro de Pesquisa, Documentação e Memória do Complexo do Alemão (CEPEDOCA) e CIRCULANDO - Diálogo e Comunicação na Favela.

A partir desses dois programas é que se desenvolvem os projetos nos quais estamos imersos, atualmente. E isto tem nos proporcionado vasta experiência em áreas multidisciplinares e em setores estratégicos na produção da cidade. O CEPEDOCAtem como pilar a reconstrução da memória do Complexo do Alemão e a forma como, a partir dela, uma história de lutas e da cidade pode ser recontada; a formação de novos quadros de reflexão e ação nesse território[3]; e a construção diferenciada de conhecimento, fazendo os saberes, acadêmicos e não acadêmicos, dialogarem.

Entendemos que o conhecimento – para nós está evidente que não se trata de um conhecimento abstrato, que não converse com a realidade e tampouco sirva para ser encastelado e/ou amparar argumentos de autoridade – é um elemento estratégico na produção de cidades, da mesma maneira, as formaspelas quais ele é produzido e difundido devem ser disputadas e reinventadas cujas possibilidades ensejam uma sociedade mais justa e mais humana.

Nesse sentido, oVamos Desenrolar. Produção de Memórias e Conhecimento como uma das ações, ligadas ao CEPEDOCA, se manifesta numa perspectiva dialógica de construção de saberes e memórias. Saberes e memórias muitas das vezes preteridos e arrogado pelo discurso hegemônicoque afirma o que é cidade de modo peremptório, postulando-se como único (refiro-me particularmente ao discurso do denominado “planejamento estratégico” de cidades). Mas também saberes e memórias produzidos nas bordas e periferias como insistência da multiplicidade, da diversidade e da possibilidade de construção política.

 RTENOTITLE

Início dos desenrolos

Em fins de 2011, o Instituto Raízes em Movimento, acompanhando vários trabalhos desenvolvidos por pesquisadores no Complexo do Alemão e da Penha, começou a reunir estas pessoas, e estabelecer uma troca entre elas, e delas com vários atores que atuam no território. A ideia, então, era que essa interação pudesse contribuir para a divulgação das pesquisas nos Complexos, movimentar pesquisadores e construir ações mais consistentes para o desenvolvimento das favelas, de forma a influenciar futuras políticas públicas para estas localidades. Já começa a tomar forma, ainda que não claramente, o que viria ser mais tarde Centro de Pesquisa, Documentação e Memória do Complexo do Alemão e Penha, que reunisse a produção do conhecimento na região[4]. Daí surgiu o primeiro nome do grupo que unia pesquisadores e atores locais dos Complexos: Seminário de Produção do Conhecimento.

O nome Seminário de Produção de Conhecimento era muito pomposo. Para as formas de trabalho realizado pelo Raízes soava como contraditório, já que o lema da instituição sempre foi: Desenvolvimento local a partir das potencialidades humanas, logo esse nome seria uma “tiro no pé”. Resolvemos então em um dos encontros fazer uma “chuva de ideias”, que os publicitários chamam de brainstorm.Depois de muitas risadas, o Ricardo disse: “Vamos desenrolar? É isso!” Todos rimos e concordamos com esse nome, até porque é uma gíria que traduz muito bem as maneiras pelas quais as conversas se colocam dentro desses espaços. “Chega aí neguim vamos desenrolar”! É uma espécie de dialeto universal que não precisa de muitas explicações e que qualquer pessoa sabe o que significa vamos desenrolar.

O grupo de pesquisadores se encontrava com o intuito de, por um lado, sistematizar uma rede de pesquisa de modo a potencializar a produção de conhecimento sobre o Complexo do Alemão ou sobre a cidade e, por outro, simultânea e consecutivamente a isto, pensar maneiras de apropriação desse conhecimento pelas pessoas, seja através da produção de memória, formação de novos quadros, alimentação de ações diretas ou de reivindicação ante ao poder público. Esse grupo viria a ser chamado posteriormente deColetivo de Pesquisadores em Movimento. E em 2012, o coletivo começou a se reunir quase todo o mês, discutindo como levar a frente a ideia inicial do Raízes de estabelecer trocas, produzir e divulgar material e envolver os moradores em tudo isso. Em cada encontro, chegava uma nova pessoa – pesquisador ou ator local. A cada encontro, novas discussões até que o grupo, resolveu parar de se reunir no Raízes e levar as discussões para a rua, levar o diálogo entre pesquisadores e os atores locais para diferentes lugares das favelas, aproximar-se mais da experiência e do conhecimento dos moradores. Fazer rodas de conversas que incluíssem cada vez mais moradores, e juntar os saberes: da universidade e dos moradores. Ou seja “desenrolar” em vários cantos das favelas.

O Vamos Desenrolar surgiu assim, da necessidade de estar mais junto, circulando por várias localidades, de forma que as rodas de conversa, incluíssem pesquisadores, ativistas do Complexo e moradores, de forma geral, de maneira que as rodas não ficassem em um só lugar. E que fossem realizadas preferencialmente ao ar livre. Além disso, a ideia é que o projeto mantivesse uma parceria com outras iniciativas, como o Pensa Alemão, o Ocupa Alemão e o Verdejar. A palavra de ordem é fazer os saberes circularem, procurandodisputar a cidade e lutar por transformar a favela em um lugar cada vez melhor para morar e trabalhar. Nosso lema é: a gente trabalha, discute, mas com afeto e diversão.

De lá para cá, foram mais de vinte encontros, do Vamos Desenrolar, sempre sábado à tarde. Cada um deles foi comandado por moradores, atores locais e um ou dois pesquisadores, que conversaram com os participantes sobre um tema escolhido e votado pelo pessoal que vem participando do projeto. Para marcar bem o início dessa proposta, listamos abaixo os seis primeiros encontros de 2013.

O tema que deu início ao Vamos desenrolarfoiHistória e Urbanização do Complexo do Alemão (abril),com Zé Mineiro, uma liderança histórica do Alemão, o Wagner Souza, Agente comunitário de saúde e um dos articuladores do coletivo Pensa Alemão, e Rute Iamanishi, pesquisadora do IPEA.

No mês seguinte (maio) tivemos mais palestrantes discutindo, na Estação do Teleférico do Morro do Alemão, um tema bem importante nas favelas: Novas Tecnologias e jovens de territórios populares. A conversa foi com a Patrícia Lanes, que fez uma pesquisa sobre juventude e novas tecnologias no Ibase e faz doutorado em Antropologia na Universidade Federal Fluminense. Do Alemão, vieram para comandar o Vamos Desenrolar: o Mc Calazans, jovem ativista do Complexo do Alemão e integrante da APAFUNK, Raízes em Movimento e Fórum de Juventudes; o Raul Santiago, jovem ativista do Complexo do Alemão e integrante do Fórum de Juventudes; a Thamyra Thâmara: jovem ativista do Ocupa Alemão e mestranda da Universidade Federal Fluminense.

Em julho discutimos, na praça ao lado da estação do teleférico do Alemão, outro tema fundamental – Segurança Pública e Direitos Humanos – comandados pela Renata Trajano moradora da Matinha e a Priscila, da Alvorada, ambas do Complexo, e com a participação da Juliana Correa da ENSP (Escola Nacional de Saúde Pública) /Fiocruz.

Em Agostoconversamos sobre Criação, Criminalização e resistência: cultura nas favelas; o encontro foi no Largo do Bulufa na favela da Grota e quem comandou a conversa foi: Veríssimo Junior, professor da rede municipal de ensino, diretor teatral e coordenador Grupo Teatro da Laje e o Edimar, morador da Nova Brasília e produtor cultural; o encontro teve ainda novidades, pois trouxe a arte para a rua, com o sarau de poesias do MC Calazans e Art Dancy (Mulekes do Passinho) e a oficina de artesanato ONG Amigos do Complexo.

O quinto encontro (setembro) aconteceu no Campo do Sargento, na Rua Canitar e teve como tema aHomofobia nos espaços de favela, uma conversa bem importante para ser ampliada, e que foi comandada pelo Gilmar Cunha, da Conexão G, o Mayke Machado, morador do Complexo da Penha e ativista do movimento LGBT, e o Guinha (in memoriam), morador do Complexo do Alemão e ativista do movimento LGBT, além do Paulo Victor Leite Lopes, pesquisador.

O último encontro daquele ano(outubro)o tema foi Migrantes - enraizamentos e desenraizamentose foi realizado aonde vivem muitos migrantes do Complexo do Alemão, no Morro dos Mineiros; foi dinamizado por Marize Bastos da Cunha, da ENSP (Escola Nacional de Saúde Pública) / Fiocruz, por Dona Benedita e Dona Ana, do Morro dos Mineiros, e a Marta, ex-moradora do Morro do Alemão que foi removida por conta das obras do PAC[5].

Desdobramentos e desenrolos

 Em 2014 tornou-se um curso de extensão realizado em parceria com o PPGAS/UFRJ. A edição de 2015 contou com um formato que conjugou os dois anteriores, manteve-se o curso de extensão, mas com as aulas em espaços abertos. Embora os encontros tenham sido mantidos em praças e ruas, conforme a natureza do Vamos Desenrolar uma questão nos inquietava: como uma atividade desse porte, pensada e construída por várias mãos para funcionar em espaços públicos abertos, especialmente em praças e ter autonomia, poderia flertar com a institucionalidade, sobretudo de instituições clássicas?

De fato essa foi uma questão que nos perturbou bastante, já que sabemos os desafios de se tornar parceiros de intuições que carregam um peso no nome e que em boa parte das vezes acabam por engolir tais iniciativas. Era um risco grande e nós estávamos sempre discutindo essa questão internamente. Depois de idas e vindas resolvemos correr o risco. Mas sempre frisando a autonomia do processo, bem como o protagonismo de tal empreitada. Aliás, um dos problemas centrais que envolvem produções de conhecimento, das mais variadas vertentes, nos espaços de favelas e periferias e de extrema relevância para cidade é a grotesca captura dessas produções por parte de instituições renomadas e de parte seus pesquisadores que, em última instância, querem manter o privilégio e, portanto, o status diante do protagonismo de uma ‘pesquisa”, mesmo que para isso tenham que usar um artifício velho, démodé e, para ficar numa linguagem acadêmica, ultrapassado conceito de sujeito e objeto, que povoa boa parte de pesquisas das ciências – ditas humanas (para ficar no nosso terreiro).

Não é de se admirar que muitos pesquisadores cheguem nesses espaços como se tivessem descoberto a pólvora quando não se camuflam de parceiros para extrair, se apropriar e expropriar produções férteis que brotam da favela e publicar como se fossem autorais. E, em muitas ocasiões, com visíveis equívocos de compreensão desses espaços, bem como das produções que brotam de lá. Isso não é novo, mas é preciso pôr em cena tais incidências, já que continuamente somos preteridos, pois nosso método não é propriamente um método, mas um modo. Modos de expressão.

Aliás, segue uma advertência. Não se trata, portanto, do porto quase seguro que o método dará. Tudo bem. Entendemos a persistência nas perguntas: qual a questão? Qual o objeto? De igual modo, entendemos perguntas sobre o método do trabalho. Método, a priori, pressupõe a possibilidade de trilhar um caminho e tentar atenuar equívocos em relação a uma hipótese, ao mesmo tempo em que tem por finalidade ter um resultado mais preciso sobre a questão ou objeto e, portanto, o objetivo (racionalmente) de dar conta ou compreender a realidade. Eu diria, então, que nosso método é o modo. Modos de expressão. Talvez, uma linha de fuga em face das representações clássicas. Aliás, deixa-nos esclarecer algumas palavras: finalidade, objetivo, realidade deveras estas palavras são, no mínimo, confortantes, pois estão sempre indicando um caminho e uma solução. Finalidade anda para e passo com a teleologia, assim como o objetivo um propósito. Daí os descompassos das inúmeras pesquisas realizadas que tematizem estes espaços. É necessário repensar o fazer pesquisa, imbuir-se de honestidade para admitir e considerar outros saberes, outros modos de vida e de fato e de verdade assumir uma posição de paridade e horizontalidade frente à produção de conhecimento que emerge das e nas favelas e periferias, só assim o diálogo enquanto construção política é possível.

Feita a devida advertência, sigamos.Na edição de 2016/2017 os temas e dinâmicas já foram definidos a partir de uma avaliação dos processos anteriores reafirmando a necessidade dessa ação chegar aos moradores ‘não institucionalizados’ portanto em praças, ruas e becos. Um ciclo de dois semestres e 06 eventos contendo os seguintes temas: Moradia, Mulher, Arte Urbana, Cartografia Social, Futebol e Mobilidade Urbana.

Vamos Desenrolar Arte Urbana 

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Nos anos de 2018 e 2019, em parceria com o Fundo Casa Socioambiental e a Casa Fluminense, foram planejados cinco encontros em torno da temática do meio ambiente: agroecologia e permacultura; tratamento de lixo; saneamento básico; direito a cidade e meio ambiente. O último será realizado no mês de novembro de 2019.

Vale ressaltar que a partir do convênio com a UFRJ no desenvolvimento do projetoMemória, Identidade e Cidade: Caminhos para a construção do CEPEDOCA-Centro de pesquisa, memoria e documentação do Complexo do Alemãoque sedesencadeou o Centro de Pesquisa.Esse projeto representa a continuidade de ações que vem sendo desenvolvidas pelo Instituto Raízes em Movimento no Complexo do Alemão e por diversas unidades da UFRJ. O objetivo geral doMemória, Identidade e Cidadeenvolvia o fortalecimento da produção da memória e identidade colocando a relação entre Universidade e sociedade em novos patamares, através da construção do CEPEDOCA. E dessa maneira oVamos Desenrolarganha forma dentro do CEPEDOCA como uma de suas ações.

Um canto à experiência

Os afetos são determinantes para a criação de fluxos paralelos e para além do regime democrático espetacular, criando circuitos e redes colaborativas desvinculadas de interesse de mercado. Daí surge uma mídia tática capaz de produzir informação e comunicação (e escapar dos códigos pré-estabelecidos) na qual os interesses são os mais diversos. Uma comunicação do comum que se efetiva na potência de produzir valores próprios, de outros modos de vida, de trabalho, de organização.

Nisto temos o comum que se define como multiplicidade, como diversidade, “como reconhecimento de uma nova configuração dos processos de organização de sujeitos democráticos capazes de expressar potência política”. Potência política (filosófica, estética) que atua de modo horizontal e, portanto, num espaço que lhe permita criar modos de vida, de sentir, ver, agir e ouvir de maneiras diferentes a partir das múltiplas experiências, inclusive do modo de ocupação do espaço – as ruas, becos e vielas, ligam-se e interligam-se, conectam-se e desconectam-se com aquilo que de mais potente tem do que nomeamos cidade: a vida.

A potência de comunicar de cada ser humano é sem dúvida aquilo que dilacera as formas de expressões redundantes do regime democrático espetacular. Compreendendo isso, o Vamos Desenrolarpropõe alargar a compreensão da ideia de comunicar. Isso implicar dizer que a favela além de produzir diálogos (im)pertinentes, ela produz vida como forma de existência, de comunicação e conhecimento. É claro que tal produção tem a pretensão de possibilitar que organizadores, moradores do Alemão e visitantes possam criar ou ampliar as suas formas de comunicação e diversificar as informações trocadas. Ou seja, falar mais coisas e coisas novas por meios distintos e mais horizontais.Diálogos, ações e intervenções sobre dizeres cidades. Nesse sentido, o VD aciona modos de mostrar as favelas como um lugar de criação e criatividade; incentivar outros moradores do Alemão e demais espaços do que nomeamos cidade a criarem e/ou exibirem suas criações; apresentar para o restante da cidade outros aspectos da realidade local que não a violência; potencializar a comunicação na favela e contribuir para que os discursos aqui elaborados se façam mais presentes no restante da cidade.

O Vamos Desenrolar é um espaço importante na inversão da lógica mercantilista da cultura, dos olhares reacionários da cultura sobre culturas (as que escapam do modelo hegemônico e etnocêntrico de dizer o que é cultura), da imagem dogmática da favela e amplia as redes de comunicação local, a fim de promover a participação coletiva e coletivamente instituir-se como afirmação da vida.

Palavras-chaves: Produção de conhecimento. Diálogos. Horizontalidade. Complexo do Alemão. 

Referência bibliográfica

INSTITUTO RAÍZES EM MOVIMENTO. Caderno devolutiva 2013: Vamos Desenrolar – Produção de Conhecimento e Memórias. Rio de Janeiro, 2013

RAÍZES EM MOVIMENTO. Vamos desenrolar. Disponível em: <http://www.raizesemmovimento.org.br/vamos-desenrolar-producao-de-conhecimento-e-memorias/>. Acesso em: 10 jan. 2018.

VAMOS DESENROLAR. Diversos. Disponível em: <http://web.facebook.com/groups/
vamos.desenrolar/>. Acesso em: 10 jan. 2018.

MATIOLLI, Thiago Oliveira Lima. Notas sobre o surgimento do bairro do Complexo do Alemão. In. RODRIGUES, Rute. Vida Social e Política nas Favelas: pesquisas de campo no Complexo do Alemão. Rio de Janeiro, IPEA, CEPEDOCA, 2016, pp. 71-93.

 

[1]] Jornalista, Especialista em Jornalismo Cultural, Mestre em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas pela Faculdade de Educação da Baixada Fluminense(FEBF/UERJ), Doutor pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ), integrante do Grupo de Pesquisa Modernidade e Cultura (GPMC/UFRJ) e coordenador de formação do Instituto Raízes em Movimento. ricardomm1969@gmail.com

[2]] O termo Complexo, além de redutor é insuficiente para explicar a região, foi e é publicizado pela mídia em geral, abraçado pelos órgãos do Estado e o senso comum e que passa ao largo da complexidade e diversidade local. Seria um equívoco supor qualquer tipo de homogeneidade interna por conta da denominação de uma área como ‘complexo’. Todavia, para uma análise sobre a emergência da noção de ‘complexo’, ver Matiolli (2015) ou o verbete “complexo” neste dicionário.

[3]] A expressão território tem sido usada indistintamente por vários setores da sociedade, inclusive pelo poder público na elaboração de políticas públicas. Uma espécie de modismo. Nossa intuição é que o conceito de território tem sido limitado a espaços ou lugares geográficos o que redunda num mau entendimento das próprias localidades referidas.

Hoje o Centro de Pesquisa, Documentação e Memória do Complexo do Alemão (CEPEDOCA) e o portal estão em funcionamento.

[5]] INSTITUTO RAÍZES EM MOVIMENTO. Caderno devolutiva 2013: Vamos Desenrolar – Produção de Conhecimento e Memórias. Rio de Janeiro, 2013. Disponível no acervo do CEPEDOCA.