Luiz Antonio Machado da Silva

De Dicionario de Favelas Marielle Franco
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Autoras: Jussara FreireLia de Mattos Rocha

Publicado originalmente na Revista Antropolítica, em 2010.

Ver também: A Política na Favela e Sociabilidade Violenta.

Introdução

Este artigo tem como objetivo apresentar as primeiras considerações sobre um projeto de sociografia da Sociologia Urbana brasileira. Através da reconstituição das obras e dos perfis dos fundadores e protagonistas deste campo de conhecimento  – a partir de suas produções acadêmicas e de um material de entrevistas – buscamos descrever e interpretar as trajetórias, as obras e os modos de pesquisar que constituem, estruturbjetivo apresentar as primeiras considerações sobre um projeto de sociografia da Sociologia Urbana brasileira. Através da reconstituição das obras e dos perfis dos fundadores e protagonistas deste camam e singularizam a tradição da Sociologia Urbana Brasileira. Com esta abordagem, trata-se de compreender não somente a formação desse campo de conhecimento à luz da circulação e das trajetórias dos diferentes atores e de suas obras no cenário acadêmico brasileiro, mas também o lugar da Sociologia Urbana no Brasil em relação a outros campos de conhecimento da própria sociologia ou da antropologia (em particular urbana). 

O projeto de realizar uma “sociologia da sociologia” ou uma antropologia das ciências não é novo. A publicação em 1979 do livro Laboratory Life. The construction of Scientific Facts, de Bruno Latour e Steve Woolgar, anuncia uma agenda de pesquisa voltada para a descrição das ciências a partir de seus bastidores e de seus universos científicos (isto é, etnografando os cientistas). No Brasil, ainda que de forma diferente, os numerosos trabalhos de Lícia Valladares e de sua equipe sobre a história da pesquisa urbana no Brasil, ou ainda, aqueles que elaboram e sistematizam informações referentes à pesquisa urbana (desde as publicações organizadas no âmbito do URBANDATA, no final da década de 1980, às mais recentes sobre “a Escola de Chicago” e sua circulação no Brasil) permitem apreender a construção do “pensamento social-urbano” no interstício das formulações e das problematizações das sociologias urbanas brasileiras com as francesas e norte-americanas. Entre muitas outras, a contribuição dos trabalhos de Lícia Valladares foi ter destacado a presença de temas recorrentes no pensamento urbano brasileiro, os quais acabam caracterizando formas singulares de problematizar essa área no Brasil, mas muitas vezes construídas em zonas de interstício de sociologias brasileiras, francesas e norte-americanas (entre outras) e de circulação de seus pesquisadores no Brasil e em outros países.

Partindo dessa ideia, propomos descrever as trajetórias e circulações de protagonistas brasileiros para analisar a dimensão intersticial da Sociologia Urbana brasileira, isto é, a maneira como ela se elabora a partir dos contatos com diversas outras sociologias urbanas, contatos estes que se tornam constitutivos de um movimento permanente de reapropriação no cerne do processo de construção desse campo científico no país. Por este motivo, torna-se imprescindível tomar como ponto de partida as trajetórias e os pontos de vista particulares dos atores desse campo de conhecimento e cruzá-los com os contextos, obras e outros autores que participam desse processo. Nossa proposta dialoga ainda diretamente com as indagações que norteiam a série Narrativas Urbanas de Cornelia Eckert e Ana Luiza Carvalho da Rocha, que as autoras apresentam como um projeto “fílmico” que retraça o percurso de conformação do pensamento antropológico sobre a cidade moderna brasileira, tendo como foco central a trajetória intelectual de “antropólogos urbanos” no Brasil ao interpretarem a cidade pesquisada. Assim, propõem situar “o personagem do antropólogo a partir de seu lugar de habitante de uma grande metrópole, através do convite para um deslocamento pela narrativa de suas experiências intelectuais e acadêmicas, no tempo e no espaço” (ECKERT e ROCHA, 2009, p.1).

Vale destacar que outros autores propuseram analisar a circulação nos meios acadêmicos nacionais de autores americanos, em particular nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. Por exemplo, Velho (2002) retrata as vindas de Becker e Goffman ao Rio de Janeiro e destaca que a “presença de Goffman e Becker valorizou a contribuição da ciência social norte-americana para a temática indivíduo e sociedade, através da Escola de Chicago e, especificamente da linha interacionista” e que eles “são hoje autores fundamentais dentro da antropologia que se faz no Brasil, particularmente nos trabalhos voltados para os estudos urbanos e para a temática ampla de indivíduo e sociedade.” (idem, ibid.). Quando Mendoza (2003) analisa a presença da Escola de Chicago em São Paulo e o momento embrionário da Sociologia Urbana paulistana, ele analisa a influência de Pierson nos estudos realizados na década de 1940-1950 e na formação de duas gerações de pesquisadores.

Nos casos dos autores acima citados, observa-se que a leitura da influência da Escola de Chicago (e de seus herdeiros) – ou ainda, em outros casos, de outras sociologias americanas – se fundamenta na formação de uma Sociologia Urbana brasileira analisada à luz da vinda de alguns de seus porta-vozes ao Brasil. Esses porta-vozes formam ou tecem relações com “pesquisadores nativos” que se tornam, por sua vez, mediadores dessas sociologias e antropologias de fora para dentro. 

Retomando essa proposta e buscando analisar as relações entre a figura do mediador (aqueles que são formados por ou em contato com porta-vozes de “sociologias de fora”) e do tradutor (uma vez posto em contato “ou formado”, o mediador se tornaria uma espécie de tradutor das “sociologias de fora” para “dentro”, isto é, nos contextos acadêmicos nos quais ele se encontra), propomos inserir, nessas abordagens, análises sobre as avaliações pessoais de pesquisadores brasileiros de destaque nessa área como pontos de vista nativos (e começando com pesquisadores acadêmicos atuando no Rio de Janeiro) sobre a presença destes e de outros protagonistas “de fora”. A avaliação desses atores torna-se importante para compreender como esta Sociologia Urbana (certamente como muitas outras) se forma em um processo criativo e dinâmico de trocas recíprocas e de interpretação de outros autores e abordagens. Desta forma, ao analisar a dinâmica da Sociologia Urbana brasileira e, mais especificamente, as influências recíprocas que participam de sua constituição, propomos entender como ela se constitui como uma ciência en train de se faire (LATOUR, 1989), através das formas de explorar e de experimentar outros mundos (científicos, mas, como veremos com nosso primeiro autor, não somente) vizinhos e estranhos, próximos e distantes, o que acaba formando este arranjo denominado Sociologia Urbana. Dessa forma, em vez de buscar a essência deste arranjo, propomos aqui apenas descrever a “feliz bagunça” (op. cit.) deste arranjo científico.  Por este motivo, o presente artigo apresenta-se como um fragmento de um mosaico que procuramos reconstituir, escolhendo dar início a este projeto com a análise da obra de Luiz Antonio Machado da Silva.

Por que inaugurar este Projeto com a trajetória e a obra de Luiz Antonio Machado da Silva?

O projeto de uma sociografia da sociologia urbana brasileira que estamos iniciando tem como primeiro objetivo analisar a formação desta área a partir das maneiras segundo as quais os seus protagonistas problematizam suas pesquisas e suas contribuições para o pensamento urbano deste país. Em função de nossa proximidade com Luiz Antonio Machado da Silva, e de suas importantes contribuições para os estudos urbanos no Rio de Janeiro, demos início a este projeto analisando a produção acadêmica desse autor e realizando uma série de entrevistas exclusivas no ano de 2008. Inicialmente, buscávamos recuperar a importância da sua obra para a Sociologia Urbana brasileira e, através do conteúdo da entrevista, avaliamos que sua produção dialogava com numerosos outros sociólogos e antropólogos brasileiros e estrangeiros. Por este motivo, pensamos em desdobrar nosso projeto inicial de forma “rizomática”, fazendo dialogar esse autor com os outros pesquisadores que produziram pesquisas nos períodos em que ele realizou as suas próprias.  

Nosso artigo tem como objetivo analisar a contribuição da obra de Luiz Antonio Machado da Silva para a sociologia urbana brasileira e, em específico, para a compreensão da sociabilidade metropolitana brasileira. Desde a década de 1960, Machado da Silva vem analisando numerosas facetas de seus modos de vida (os movimentos sociais, os botequins, o jogo do bicho, a informalidade e “a violência urbana”). Mostraremos que o fio condutor de sua obra se focaliza precisamente no esforço de reconstituição do mosaico da sociabilidade urbana e das diferentes formas que esta adquiriu ao longo desses mais de 30 anos. Através da análise de sua produção e de uma série de entrevistas realizadas no ano de 2008, buscaremos recuperar a importância da obra desse autor para a Sociologia Urbana brasileira, analisando suas interseções e suas diferenças com outras produções acadêmicas brasileiras que se entrecruzam com o percurso de Machado da Silva. Vale apontar para o fato de que focalizar a obra deste autor permite apreender também a heterogeneidade do pensamento urbano brasileiro e, ao mesmo tempo, um eixo problemático comum às outras produções acadêmicas dos períodos que serão analisados. 

Em 2006, Machado da Silva realizou uma conferência na aula inaugural do curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Sociologia Urbana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Nessa ocasião, o autor comemorava 40 anos de carreira intelectual, e por isso a comunicação chamou-se Quarenta anos de Sociologia das classes populares. No texto, Machado da Silva passeia pelos diferentes contextos político-culturais dessas quatro décadas, traçando um percurso que costurou ora sua própria produção sociológica, ora a de colegas e contemporâneos, com as temáticas específicas e representativas desses contextos (movimentos sociais, teoria da dependência, democracia, informalidade, marginalidade etc.). Ao final do caminho percorrido fica evidente que o autor refletiu e produziu sobre os temas mais relevantes de cada período da história recente do Brasil, mantendo sempre o foco na cidade, nas “camadas populares” e nas suas sociabilidades e condições e/ou modos de vida em meio urbano. 

A partir do percurso intelectual proposto pelo autor, buscamos reconstruir sua trajetória bibliográfica e pessoal, dando visibilidade aos achados analíticos de artigos escritos desde 1967 (A Vida Política na Favela), passando por diferentes assuntos até os dias atuais, em que o autor se debruça sobre questões como a criminalidade violenta (através do conceito de sociabilidade violenta) e a segregação socioespacial. Ao mesmo tempo, recuperamos os diálogos travados entre esta produção e a de outros sociólogos e antropólogos urbanos seus contemporâneos. 

Ao longo da narração dos ciclos de sua vida, Machado da Silva descreveu contatos, físicos ou virtuais, com diversas sociologias e pesquisadores de outros países. Por exemplo, estes contatos podem ser percebidos ao longo de seu doutoramento nos Estados Unidos, nos conhecimentos da sociologia norte-americana que adquiriu nos espaços acadêmicos que frequentou durante sua formação (como é o caso do acesso que teve às obras de Parsons e de Mead na PUC-Rio), ou ainda, através das amizades que teceu com pesquisadores que conheceu em sua trajetória profissional (em específico, referimo-nos a sua amizade com Anthony Leeds, que teve, na orientação e na abordagem de parte de sua produção, uma importância decisiva). Pode-se também destacar que Machado da Silva teceu parcerias com alunos e/ou pesquisadores europeus, latino-americanos e africanos no âmbito de suas atividades acadêmicas no Instituto de Filosofia e de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ) ou no Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (IUPERJ). Além de ter realizado seu doutorado nos Estados Unidos, Machado da Silva escolheu recentemente o Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa para realizar seu pós-doutorado. Durante e após essa experiência, ele criou um espaço de interlocução com diversos pesquisadores desse Instituto (que se iniciou, em particular, através das trocas com Suzana Durão, pesquisadora e professora do ICS, que passou uma longa estadia no Rio de Janeiro). 

Esta breve apresentação evidencia o caráter deambulatório, exploratório e, por vezes, marginário, da circulação de Machado da Silva em diversos mundos geográficos e cognitivos das ciências sociais. Paralelamente, e este é outro motivo pelo qual escolhemos iniciar nosso projeto com este autor, esta circulação anuncia o caráter híbrido da obra de Luiz Antonio Machado da Silva. Seria, pois, impreciso afirmar que todos esses contatos exercem uma influência “de fora para dentro” em sua obra. Melhor seria ver nestas trocas recíprocas momentos de contato com outros conhecimentos e ferramentas analíticas que se tornam fonte de matérias primas a serem transformadas, polidas, afinadas, a serem ajustadas aos problemas e inquietações do autor. Assim, ao entrar em contato com estas ferramentas, ele se reapropria de conceitos, técnicas e conhecimentos, dando-lhes outras direções e destinos em relação àquelas inicialmente propostas pelos seus autores. Neste sentido, os contatos que Machado da Silva teve e tem com outras sociologias urbanas não podem ser analisados como “influências”. Eles despertam um estado de mediação sui generis, que está na base de um conhecimento autoral construído quase artesanalmente. Ou seja, a obra de Machado da Silva é um caso particular de uma bricolagem possível na Sociologia Urbana brasileira. 

Para a elaboração deste texto, organizamos a obra de Machado da Silva em torno das temáticas mais relevantes em seus trabalhos, de modo a condensar não apenas os temas de seu interesse, mas também o tratamento dado a cada um, a abordagem metodológica e teórica utilizada, bem como os resultados alcançados. Às informações contidas na produção (artigos e capítulos de livros), adicionamos informações coletadas nas quase 12 horas de entrevista que o autor nos concedeu em março de 2008. Nessa entrevista, Machado da Silva recuperou toda sua trajetória profissional, explicitando quais foram suas principais influências teóricas, por que a preferência por alguns temas recorrentes em sua obra e quais as questões que o mobilizam atualmente. 

Por fim, não poderíamos deixar de mencionar o fato de que ambas as autoras foram orientadas por Luiz Antonio Machado da Silva. Esta relação, sem dúvida, justifica também – mas não somente – a nossa escolha sob o ângulo das aproximações intelectuais e de amizade que tecemos com o nosso orientador. Ainda que não seja o motivo exclusivo, as próprias trocas e experiências acadêmicas com Machado da Silva foram tão enriquecedoras e decisivas nas nossas próprias trajetórias que este artigo se apresenta também como uma modesta homenagem a esta personagem que, esperamos, fará jus à importância de sua contribuição na Sociologia Urbana brasileira. Em termos das condições de entrevistas, a menção a esta relação é também importante na medida em que Machado da Silva compartilhou conosco diferentes momentos de sua trajetória com um alto nível de detalhes durante três dias, o que seria certamente difícil de acontecer sem haver uma relação preestabelecida de confiança e de parceria entre as entrevistadoras e o entrevistado.

Ciclos de vida e de temas de um outsider 

Em diversos momentos da entrevista, Machado da Silva se referiu com certa insistência ao seu gosto pela “marginália” ou pelos bas-fonds, associando-o muitas vezes a uma inquietação existencialista que permeia não somente sua obra, mas também sua vida extra-acadêmica. Como é o caso de muitos autores, “a vida particular” e “a obra” de Luiz Antonio Machado da Silva são entrelaçadas, não havendo a possibilidade de se compreender o teor de sua produção dissociando os diferentes momentos biográficos dos temas tratados na sua obra, os contextos dos textos. Por este motivo, propomos analisar os temas tratados pelo autor a partir da descrição de sua trajetória. 

Quando descreve os diferentes momentos de sua produção acadêmica, Machado da Silva distingue quatro temáticas centrais, todas voltadas para diferentes formas de sociabilidade de camadas populares urbanas: habitações populares e favelas, movimentos sociais urbanos e seus paradigmas, trabalho e informalidade, representações sociais da violência urbana e segregação urbana. Contrariamente ao que se poderia esperar, essas temáticas não são sempre tratadas separadamente, principalmente no que tange à produção do autor sobre os temas das favelas e do trabalho informal. 

Da Praia de Copacabana à PUC

Machado da Silva nasceu em 1941, no Leme, Rio de Janeiro. Seu pai, antes faxineiro, tornou-se gerente de uma empresa de importação e exportação de tecidos (e morreu quando ele tinha cinco anos), e sua mãe vinha de uma tradicional família de militares cariocas. Na juventude, Machado frequentava a praia de Copacabana, jogava vôlei (chegou a ser campeão brasileiro) e tinha um grupo de amigos do qual faziam parte Otávio Velho (antropólogo, foi professor do Museu Nacional – UFRJ) e Eurico Figueiredo (cientista político, foi professor da UFF). 

Ainda que não fosse um aluno exemplar na escola (longe disso), Machado da Silva gostava muito de ler, particularmente romances. Quando descobriu a obra literária de Jean-Paul Sartre, ficou muito sensibilizado com os romances deste autor. Aos 18 anos, seu colega Moacir Palmeira ofereceu-lhe um livro de Kierkegaard, que teve destaque para Machado. Já nessa ocasião, foi rotulado pelo amigo de existencialista: “e hoje vejo que ele tinha razão”, ainda que se nomeie como um existencialista no sentido dos romances de Sartre, e não de sua filosofia. Vale mencionar esse interesse pela literatura pelo fato de que esta experiência desperta um primeiro contato com obras e correntes às quais Machado da Silva atribuiu uma importância significativa na forma de problematizar sua obra sociológica (com “um pano de fundo” existencialista), ou ainda, na escolha de certos temas (por exemplo, a obra de Émile Zola, escritor francês identificado com o realismo e naturalismo, é citada pelo entrevistado como um tipo de abordagem das camadas populares parecida com a que ele mesmo faria).

Foi com seu colega de praia, Otávio Velho, que Machado se inscreveu no curso de graduação em Sociologia e Política da Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ) entre 1961 e 1964. Apesar de sua entrada no curso ter sido meio por acaso, sem saber direito do que se tratava, afirmou que ao ter seus primeiros contatos com a produção e o pensamento sociológico, percebeu que tinha descoberto “sua praia”. Por convite de um professor da universidade, quase ao mesmo tempo em que fazia a graduação na PUC, realizou um curso de especialização em Ciências Sociais na Universidade Federal da Bahia, entre 1962 e 1963. Na PUC, o quadro de professores e de alunos era bem variado: entre os professores havia muitos padres e também cientistas sociais importantes como José Artur Rios; entre os alunos encontravam-se aqueles sem interesse em seguir uma carreira acadêmica, e também colegas que tiveram grande importância em seu percurso profissional e intelectual, particularmente Moacir Palmeira (professor titular do Museu Nacional – UFRJ) e Sérgio Lemos.

A “entrada na Carreira”, do tema do trabalho  à informalidade

Entre o período do final da graduação na PUC e início do mestrado, no Museu Nacional, Machado se envolve em diversos projetos de pesquisa e intervenção social, que aconteceram nos anos 1960 na cidade do Rio de Janeiro. Tais projetos abarcavam o estudo das condições de vida dos trabalhadores na Guanabara (financiado pelo Ministério da Educação), etnografia sobre a prostituição na região do Mangue (com apoio financeiro da USAID) e o levantamento socioeconômico das favelas de Cordovil e Vigário Geral, como parte das atividades da Companhia de Desenvolvimento da Comunidade (CODESCO). É interessante observar que a aproximação de Machado da Silva com a temática da marginalidade e, principalmente, das favelas cariocas, se deu também como ator desse contexto – através da participação em importantes programas de intervenção ou de experiências anteriores – e não apenas através da academia. Como veremos na seção em que analisaremos como Machado da Silva problematiza a sua relação com a pesquisa de campo, as experiências extra-acadêmicas e, em particular, a sua circulação nos espaços marginais da cidade são centrais para se compreender tanto a escolha dos temas quanto seu ponto de partida em relação à construção de seu olhar sobre as camadas populares. 

Depois dessas experiências de trabalho, Machado volta à academia, para fazer o mestrado em Antropologia Social no Museu Nacional, onde fica entre 1969 e 1971. No Museu Nacional, defendeu uma dissertação de mestrado intitulada Mercados Metropolitanos de Trabalho Manual, onde explorou temas como mercado de trabalho, economia informal e marginalidade, a partir de dados coletados no Rio de Janeiro. No museu, seu orientador foi Roger Boyd Walker, e entre os seus contemporâneos, encontramos Moacir Palmeira, Alba Zaluar, Neide Esterci, Lygia Sigaud, entre outros. Foi ainda no mestrado que se candidatou para o doutorado nos Estados Unidos, de novo com uma bolsa da Fundação Ford.

Logo após a conclusão do mestrado, inicia seus estudos de doutorado nos Estados Unidos, em Rutgers – The State University of New Jersey, em 1972. Após sua qualificação, retornou imediatamente ao Brasil, tendo seu passaporte cassado pelo regime militar, nessa ocasião. Foi trabalhar no IUPERJ já em 1973, e somente em 1979 defendeu sua tese de doutorado, intitulada Lower Class Life Strategies: A Case Study of Working Families in Recife’s (Brazil) Metropolitan Area. Machado da Silva conhece a Rutgers University através de seu orientador de mestrado, Roger, que o avisou sobre o “campus de esquerda” que estava sendo criado por Irving Louis Horowitz, que foi seu orientador de tese. Para a tese de doutorado, continuou a investigar os temas do mercado de trabalho, marginalidade e pobreza, agora entre as famílias do Recife. Esses dados foram coletados como parte do projeto de pesquisa chamado “Emprego e mudança social no nordeste”, coordenado por Moacir Palmeira, com subcoordenação de Machado, José Sérgio Leite Lopes e Afrânio Garcia. O projeto contou ainda com a participação das pesquisadoras Regina Novaes e Leilah Landim, além de outros pesquisadores. 

Os temas do mercado de trabalho, da marginalidade e da pobreza – explorados nas primeiras pesquisas acadêmicas feitas por Machado da Silva – continuaram sendo seu objeto de interesse em seu exercício como professor, tanto no IUPERJ quanto no curso de ciências sociais do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, onde ingressou em 1986. A questão da informalidade, tratada em particular nas décadas de 1980 e 1990, não aparece apenas em termos do mercado de trabalho; o autor se interessa pelas relações entre instituições formais e outras que estão no limiar desta definição, como sua pesquisa sobre escolas de samba e jogo do bicho, realizado em coautoria com Filippina Chinelli. Assim, a abordagem dos temas atuais permanece sendo realizada através da lente que privilegia as formas de sociabilidade dos subalternos, marginalizados e “excluídos”, mesmo quando esta se volta para temas como trabalho. Paralelamente, nesse período, o autor também já trabalhava com a temática dos movimentos sociais.

Habitações populares, favelas e sociabilidade

Como já mencionado, durante os anos 1960, Machado da Silva realizou diversas pesquisas de campo em favelas do Rio de Janeiro. Durante esse período, conheceu o Peace Corps no âmbito de suas atividades profissionais. Nesse quadro, Machado da Silva conheceu Anthony Leeds e frequentou seu grupo de pesquisa (composto por vários peace corps, que moravam em favelas do Rio de Janeiro e que realizaram estudos sociológicos e antropológicos sobre seus lugares de moradia), sobre o qual destacou o “ambiente agradável” e criativo. A participação nesse grupo foi considerada por Machado da Silva “uma experiência decisiva” e “crucial” na sua formação intelectual. Machado destaca, inclusive, a importância de Anthony Leeds no seu artigo A vida política na favela, publicado em 1967, onde o autor discute a heterogeneidade dentro dos territórios favelados – questão ainda central nos trabalhos atuais sobre esta temática – e cunha o conceito de “burguesia favelada”. 

É nesse contexto que parte da produção de Machado da Silva volta-se para as favelas, suas sociabilidades e as formas de reprodução social como objeto próprio. Esta inflexão será também observável no artigo que Machado da Silva qualificará de uma produção “mais autoral” (em oposição ao artigo A vida política na favela, no qual a presença de Leeds é, como já dito, ainda muito clara): O significado do botequim, publicado em 1969.

O encontro com Anthony Leeds ganhou tanta importância na trajetória de Machado da Silva que este identifica um corte na sua produção acadêmica: uma fase anterior ao contato com Leeds e outra posterior, a “fase Tony”. Nesse segundo momento, não se tratava apenas de discutir o problema habitacional, mas também de analisar o fundamento da reprodução social. Nos anos 1970, em período de milagre econômico, o debate sociológico estava norteado pela discussão sobre as condições de produção e reprodução social. Nesse quadro, Machado da Silva inicia sua discussão sobre o jogo de bicho paralelamente às observações do botequim, resolvendo iniciar nesse período uma etnografia do botequim em frente ao bar que frequentava. Dessa forma, tanto no caso da sua produção sobre o botequim, quanto naquele da produção sobre o jogo do bicho, observa-se um franco interesse pelos temas da marginalidade e da subalternidade, explícito nas produções do mestrado e do doutorado e em temas de pesquisa como A prostituição no estado da Guanabara e O significado do botequim.

Movimentos sociais urbanos

Quando Machado da Silva se dedicou à análise dos movimentos sociais urbanos, tema central na Sociologia Urbana dos anos 1980, no âmbito do grupo sobre movimentos sociais da Anpocs, o autor segue uma direção que se distingue nitidamente daquela de muitos outros estudiosos sobre este tema. Em vez de tomar a noção de movimentos sociais como unívoca, ou taken for granted, o autor analisa, em um artigo, com Ziccardi, publicado em 1983, e em outro, com Ana Clara Torres Ribeiro, em 1985, os paradigmas que fundamentam as pesquisas dessa época. Vale destacar que Machado da Silva estava interessado na temática dos movimentos sociais desde o final dos anos 1970. O artigo em coautoria com Ziccardi (Machado da Silva e Ziccardi, 1979, publicado em 1983, na Ciências Sociais Hoje, no 2 ), apresentado no GT Movimentos Sociais Urbanos do III Encontro da Anpocs, anuncia assim a agenda de pesquisa que será consolidada nos anos 1980. Nesse artigo, os autores realizaram uma releitura dos trabalhos existentes sobre a temática dos movimentos sociais urbanos, pois observam uma “precariedade” “de marcos teóricos” (Machado da Silva e Ziccardi, 1983, p. 9) mobilizados para a compreensão dessa temática. Buscaram também compreender as “possibilidades e limitações que apresentam estas formas de organização e luta no interior dos processos de mudança social” (idem: ibidem). Por este motivo, analisam as tendências da sociologia urbana latino-americana sobre este tema e, em seguida, discutiram as limitações das definições atribuídas aos “movimentos sociais urbanos”. Em outros termos, a proposta consistia em uma sociografia (ainda que de modo exploratório) das produções da Sociologia Urbana sobre a temática dos movimentos sociais urbanos. 

Em outra parceria, Machado da Silva e Ribeiro (1985) mostraram, em um trabalho também apresentado no GT Movimentos sociais urbanos da Anpocs, que a origem do paradigma das pesquisas sobre movimentos sociais se centrava em uma concepção dos movimentos sociais como expressões populares, alternativas, independentes e espontâneas, cujas relações com o Estado eram marcadas por antagonismos e conflitos – e que o diálogo que vinha se estabelecendo não englobava interlocutores que não compartilhassem dessa caracterização. Os autores identificaram também uma modificação na abordagem de temas clássicos: as análises transferiram-se da questão do papel do Estado ante a acumulação monopolista para a questão de demandas fundadas nas carências de meios de consumo coletivo; assim como o tema da dominação foi enquadrado pela discussão da democratização brasileira (op. cit., p. 324). No entanto, Machado da Silva e Ribeiro destacam que importantes dimensões foram eclipsadas nas análises produzidas, como a existência de outras formas de interação entre movimentos e o Estado que não o conflito (e a cooptação, como resultado negativo desse). Os autores apontam ainda que tal paradigma sobre os movimentos sociais resultou em análises que valorizam positivamente e superdimensionam o impacto das ações desses coletivos sobre a estrutura estatal. Estes seriam os dois pressupostos do paradigma: o Estado como interlocutor e antagonista dos movimentos e o impacto transformador das ações dos movimentos sobre esse polo rival. Assim, Machado da Silva e Ribeiro concluem que “todo o esforço analítico fica canalizado e limitado por uma polarização que antecipa as conclusões: de um lado, cooptação e/ou esvaziamento; de outro, mobilização e/ou enfrentamento” (op.cit., p. 326). 

O GT de Movimentos Sociais da Anpocs congregou diversos cientistas sociais de grande expressão, além de uma produção bibliográfica intensa revisando a literatura da época sobre o tema. Quando Machado da Silva descreve sua participação no GT (que ele liderou durante alguns anos), ele se refere à pauta da agenda pública na época: a redemocratização. Diante dessa pauta e dos diversos eventos que surgem nessa época, o grupo, criado pouco após a própria Anpocs, surge como um espaço de debate sobre a conjuntura nacional. Neste sentido, a existência do grupo e a produção do autor sobre esta temática se relacionam diretamente com a agenda pública e com as questões colocadas (e os paradigmas repensados) nesse contexto.

Nos últimos anos de existência do grupo, muitos dos pesquisadores participantes se afastaram. Esse distanciamento pode ser explicado pelas mudanças do final dos anos 1980 e pelas aproximações entre o Estado e a sociedade civil, modificando a configuração do campo e o próprio tratamento do tema dos movimentos sociais. Por este motivo, o grupo e os enfoques analisados por ele perdem progressivamente o sentido. Evidentemente, isso não significa que Machado da Silva perca o interesse pelo tema dos movimentos, mas este estará presente como figuração nas pesquisas empíricas que realizará sobre representações sociais da violência urbana. 

Representações sociais sobre a violência urbana

Nas décadas de 1970 e 1980, estes foram os principais temas de pesquisa de Machado da Silva: mercado de trabalho, emprego e condição de vida da classe trabalhadora, condições de reprodução e mudança social na classe trabalhadora. Nos anos 1990, a questão do mercado de trabalho informal permanece como tema de seu interesse, mas a questão da criminalidade violenta e dos novos padrões de sociabilidade em face da violência passa a fazer parte de seus interesses de pesquisa e permanece como objeto das pesquisas na década seguinte. Em um artigo de 2002, o autor deixa evidente como compreende esta mudança, a passagem dos temas relacionados ao mercado de trabalho informal para os temas da violência, crime, pobreza e organização social no Rio de Janeiro. Nesse artigo, o autor apresenta uma discussão sobre a noção de informalidade, seu papel nos estudos feitos nos anos 1970 – fortemente marcados pelo tema da inclusão das classes subalternas à sociedade urbana e moderna nascente no Brasil, e como nos anos 1990 essa noção estaria sendo substituída pela noção de empregabilidade. Ao final do artigo Machado da Silva afirma:

Olhando nessa direção, se a desestabilização do momento virtuoso da cultura do trabalho assalariado é lamentável, há perigos ainda maiores. Um deles eu gostaria de mencionar apenas de passagem, mas com ênfase: o caráter estruturante de um novo quadro de vida (portanto, uma ruptura profunda com as referências conhecidas) que podem ter certas práticas que, vistas do ângulo da organização social ainda dominante, são claramente disruptivas. Penso, aqui, na expansão da criminalidade violenta: é puro simplismo acreditar que o que vem acontecendo com o crime comum não passa de “organização do desvio”, imagem invertida da ordem social que conhecemos. (Silva, 2002b: 103). 

Nesse fragmento o autor anuncia o esvaziamento, na sua opinião, da discussão sobre mercado de trabalho informal. Essa discussão era organizada a partir do pressuposto de que o trabalho informal seria uma forma “atípica” do trabalho, pensado enquanto trabalho no setor industrial (como era frequente nos países centrais). A partir dos anos 1980, e com o desemprego que crescia também nesses países, a sociedade de pleno emprego dos países industrializados deixa de existir; assim, a informalidade deixa de ter uma unidade conceitual, e passa a significar um termo corrente para indicar situações de “flexibilização” e “desregulação”, quando não de “clandestinidade” (SILVA, 2002b, p. 99 e ss.). O fragmento apresenta também um importante elemento constitutivo da noção de “sociabilidade violenta”, central para a compreensão do pensamento mais recente de Machado da Silva: que a atual configuração do crime violento não é um mero desvio da ordem social dominante, e sim uma nova forma de vida, com novas referências de sociabilidade e de ordem social. 

A ideia de uma sociabilidade “violenta” pode ser considerada radical em alguns de seus aspectos centrais; nela, o princípio de coordenação da ação seria a força, e não valores, afetividades ou objetivos (como definido no paradigma weberiano dos tipos de ação). Os portadores dessa sociabilidade, como Machado da Silva nomeia aqueles que compartilham esse modo de vida, teriam como principal sentido para suas ações o uso da força e a proteção contra o uso da força feito por outros agentes. A possibilidade de atores sociais, cujas ações não têm outro sentido que não a satisfação de seus desejos e a submissão dos mais fracos, parece muito extrema, e para muitos a noção de sociabilidade violenta retrataria seus agentes como seres irracionais. No entanto, o conceito torna-se mais plausível quando temos contato com os relatos de execuções e torturas praticadas por esses agentes, bem como sobre a mudança constante de posições dentro da hierarquia das quadrilhas criminosas (assemelhando-se a uma rede dinâmica e instável, e o oposto de uma estrutura piramidal e centralizada). A ação não está, nesses casos, coordenada por princípios como a realização de objetivos (novamente no conceito weberiano), lealdades ou outros valores que aparecem em descrições sobre quadrilhas mafiosas, por exemplo. Não existe, aqui, “acordo, negociação, contrato ou outra referência comum compartilhada” (SILVA, 2004a, p. 40). Toda a interação existente se resume à submissão do mais fraco pelo mais forte, sem que a vontade e a subjetividade dos outros envolvidos sejam consideradas. A “lei do silêncio”, que impede que os moradores falem sobre a opressão que sofrem, seria para o autor a consequência mais perversa da sociabilidade violenta, pois obriga os moradores de favela a continuarem a conduzir sua vida sem poderem se comunicar a respeito de seu cotidiano, por medo e desconfiança, e assim impedidos de usufruir e participar da sociabilidade convencional que orienta a vida de todos os que não estão submetidos a essa nova forma de vida (SILVA, 2004a, p. 43). Silêncio, medo e desconfiança têm consequências especialmente graves para a organização social dos moradores. Ainda que as lideranças dos movimentos sociais localizados nas favelas tenham enfrentado dificuldades que estão para além da questão da convivência forçada com o tráfico, esta traz graves ameaças para a participação no espaço público, como o desaparecimento ou assassinato de lideranças. 

Os últimos projetos de pesquisa coordenados por Machado da Silva buscaram levantar dados empíricos para subsidiar essa construção analítica. Na pesquisa, Rompendo o cerceamento da palavra: a voz dos favelados em busca de reconhecimento, dezenas de depoimentos coletados tornaram concreta e visível a submissão imposta aos moradores de favelas pelos grupos de traficantes que dominam e controlam seus locais de moradias. Os resultados dessa pesquisa foram apresentados no livro Vida sob cerco: violência e rotina nas favelas cariocas, publicado pela Nova Fronteira em 2008, com organização de Machado da Silva.

O rapport de Luiz Antonio Machado da Silva com seus objetos de estudo e com a pesquisa de campo 

Ocasionalmente, podemos ouvir em ambientes acadêmicos alguns comentários como “Machado não faz campo”. A constatação é severa, e não faz jus ao percurso de sua pesquisa urbana. Como vimos, ao apresentar as primeiras décadas que marcam a carreira de Machado, não se pode descartar as diferentes pesquisas que realizou (por exemplo, nas suas etnografias do botequim e do jogo do bicho). No entanto, ainda que a experiência empírica deste autor esteja longe de ser inexistente, pode-se perceber um movimento de retração do campo a partir de um determinado período. Isto não significa que a empiria esteja afastada de sua produção. Ao contrário, Machado da Silva não cessa de se autodenominar um “empirista” e repete frequentemente, como na entrevista, “que nunca gostou de macro-teorias vazias”. 

Dessa forma, parece ser interessante refletir sobre a natureza do vínculo que Machado da Silva tece com seu campo. Em relação a este ponto, ele problematiza frequentemente o que denomina de rapport com o campo. Ao longo da entrevista, ele passou a tematizar este ponto quando apreciou as competências de pesquisador de Anthony Leeds. Segundo ele, Tony era capaz de estabelecer relações com os entrevistados muito facilmente; chegou a lembrou que o antropólogo americano tinha muitas horas de gravações sobre a vida sexual de uma entrevistada, moradora de favela. Admirando a qualidade do pesquisador em deixar seu entrevistado suficientemente solto para “contar sua vida inteira em meia hora”, como reconhece serem Anthnoy Leeds e Filipina Chinelli, Machado da Silva constatou, no que lhe diz respeito, uma imensa dificuldade de produzir “um rapport com entrevistados”. Ele chegou a qualificar seu rapport de “desastroso”. 

Como vimos anteriormente, as principais etnografias (ou pelo menos aquelas que tiveram mais repercussão no cenário sociológico brasileiro) realizadas por Luiz Antonio Machado da Silva foram produzidas no final dos anos 1960. Para a compreensão dos temas escolhidos e da sua relação com a pesquisa de campo, não podemos deixar de mencionar sua experiência de alcoolismo e seu interesse pela marginalidade. Com efeito, Machado da Silva inicia a etnografia do botequim por frequentar o bar que passou a estudar (ao lado do ponto do jogo do bicho), ao lado de sua residência. Narrando esta experiência, Machado destacou a sua imensa dificuldade de “conversar aberta e rapidamente” com seus entrevistados. Consequentemente, o álcool passou a ser uma mediação que lhe permitia realizar este trabalho pela vertente da sociabilidade, o que não faria em condições “normais”. O álcool passou a se revelar um meio de aproximação que facilitava as interações (e, no caso do botequim, era uma condição) com as pessoas constitutivas dos objetos de sua pesquisa. “Quanto mais beber, melhor profissional serei”, era a forma de lidar com a pesquisa nesse período. Quando o autor parou de beber, contudo, as dificuldades em realizar o rapport retornaram, e com o tempo o trabalho de campo foi sendo substituído pela análise do material empírico produzido por seus colaboradores e pelo uso de técnicas alternativas como o grupo focal, fonte empírica de muitos dos artigos escritos para o livro Vida sob cerco (2008). 

Da mesma forma, Machado da Silva destaca que a escolha da temática sobre as favelas estava intimamente relacionada às suas aproximações com diversos mundos das favelas, quando era jovem. Neste sentido, os primeiros contatos com favelas não foram relacionados com a sua atuação profissional, e sim, com redes de pessoas que frequentava na época (por exemplo, a primeira vez que Machado entrou na favela foi com um grupo de soldados do Exército, que conheceu quando se alistou). Em seguida, sua relação com as favelas foi por afinidade e por atração: “sempre tive uma clara preferência pela marginalidade”. Tal preferência era associada a uma crítica em relação à classe média: “Eu sempre gostei da marginália porque não gostava de minha própria classe”. Frequentar os espaços marginais era uma forma de experimentar o rompimento com seu pertencimento familiar e de classe. 

Além disso, a relação com os objetos de pesquisa de Machado da Silva também precisa ser relacionada com seu gosto pelo existencialismo, e não como uma identificação política ou ideológica com “o povo”. No caso de Machado, o engajamento com os campos escolhidos é antes “existencial” (uma indignação existencial associada à obra de Jean-Paul Sartre) e não se trata de uma mera “adesão ao povo”. Tratava-se também de formar uma crítica da classe média através da crítica das camadas populares.

Considerações finais: “Do bloco do eu sozinho” 

Como consideração final, propomos refletir sobre a possibilidade de definir uma unidade para o pensamento e a produção de Machado da Silva. É uma tarefa complicada, pela diversidade de temas por ele escolhidos. Além disso, a pretensão de uma unidade em sua obra não parece agradar ao próprio autor; buscar uma coerência interna parece ser mais interessante e produtivo. Essa coerência não será encontrada se buscarmos os alinhamentos teóricos e acadêmicos de Machado da Silva, ao longo de sua carreira. Como ele mesmo afirmou nas entrevistas dadas, nunca se sentiu parte de um grupo apenas, ou de alguma forma enquadrado: “Ninguém jamais conseguirá me amarrar em determinado grupo”. Ao contrário, participou de diversos grupos: do grupo de pesquisadores do Museu Nacional, na realização da pesquisa sobre modos de vida da classe trabalhadora no Nordeste; do grupo de Tony Leeds; do grupo de movimentos sociais na Anpocs; e hoje do grupo que se encontra semanalmente no IUPERJ e que reúne pesquisadores de diferentes universidades. Sem falar no grupo formado por mais de 15 alunos de mestrado e doutorado que atualmente são orientados por ele (formal ou informalmente). 

Em todas essas experiências, Machado da Silva destacou o prazer no diálogo, na reflexão coletiva, na troca de ideias e na possibilidade de “dar pitaco” no trabalho dos outros. Todavia, ainda que tenha sempre participado de diferentes grupos, nunca “fechou posição” com nenhum deles. Guarda sempre a opção de ser um outsider dentro dos grupos que participa, para circular em diferentes discussões e poder se colocar na contracorrente delas. Nesse sentido, sua contribuição pode ser entendida através dessa posição de contraponto ao pensamento vigente em cada momento: ainda que “de dentro”, o autor apresenta uma reflexão que aponta as incongruências e incoerências internas das análises, colocando-se assim como um observador externo. 

O conceito de sociabilidade violenta, tratado (de maneira superficial) na seção anterior, ajuda a fechar o circuito dos temas tratados pela Sociologia Urbana de Machado da Silva. Nele, as preocupações teóricas e analíticas de sua carreira retornam: a questão da ordem social (ainda que se refira a uma sociabilidade que acontece fora dessa ordem); qual o papel dos movimentos sociais nesse contexto; e, principalmente, as diferentes formas de sociabilidade das camadas populares. A discussão sobre essa nova forma de vida interliga esses interesses diversos, apresentando-os de forma complementar, porém, sem homogeneizar a produção do autor. Nela, os temas permanecem bastante ligados ao contexto em que estão inseridos; essa forte ligação entre temas e seus contextos – acadêmicos, históricos, políticos e sociais – continua na análise proposta pelo autor para a questão da violência urbana e suas representações sociais. 

E talvez seja essa forte preocupação em contextualizar sua análise que explique o passeio feito por Machado da Silva entre os diferentes temas de pesquisa que ele abordou. Como um flâneur, o autor caminha pelo espaço urbano e experimenta suas diversas situações, que estão em constante transformação – e o autor também se modifica junto com elas. Acreditamos que é essa posição deflâneur que permite o exercício da bricolagem que caracteriza sua obra, a composição artesanal de temas e abordagens que surgem nos trajetos que a cidade apresenta. Mas, ainda que se deixe levar por esses movimentos do urbano, há uma orientação clara para o percurso realizado: os caminhos escolhidos são aqueles que passam pelos lugares à margem, subalternos, estigmatizados... A exploração destes mundos enriquece a bricolagem característica da obra de Machado da Silva. Para além das posições de mediador e tradutor possíveis nas relações entre autores e abordagens, este autor “canibaliza” harmoniosamente autores diversos, conciliando este ofício com a reflexão (existencial) sobre sua própria experimentação dos/nos mundos que tomou como objeto.

 

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