Memórias de Acari

Por equipe do Dicionário de Favelas Marielle Franco

Autora: Vânia Dutra.

Introdução[editar | editar código-fonte]

No período de agosto de 2019 a janeiro de 2021 integrei como pesquisadora voluntária a equipe do Dicionário de Favelas Marielle Franco. Durante este período participei dos grupos de estudos e de reuniões com a equipe de pesquisadores sob a Coordenação da Professora Doutora Sonia Fleury, com a tarefa de colaborar no planejamento das atividades em relação aos moradores de Favelas de Acari.


Assumi algumas tarefas que foram as seguintes: contato pessoal com as lideranças da Favela de Acari, Coletivo Fala Akari e mapeamento de teses de dissertações sobre produções acadêmicas. Desta participação iniciei uma série de lives sobre Memórias de Acari e Inclusão Produtivas nas Favelas. No primeiro momento preparei uma série de entrevistas e roteiros para as pessoas mais idosas que localizei na favela do Acari, só que no ano de 2020 a Pandemia COVID -19 impediu-me de realizar as gravações de entrevistas, daí que surgiu a ideia de reconstruir as memórias de Acari a partir de entrevista gravadas pelo aplicativo Zoom, através da plataforma do Facebook, de fácil acesso para os moradores de Acari, ao vivo, após disponibilizados no canal de Youtube Vânia Dutra. 


No mês de agosto de 2020 iniciei uma série de lives com pessoas que moraram e moram no Acari. Movimento de resgate de memória por uma decisão pessoal e uma lembrança dos meus familiares e amigos, e muito incentivada pelos encontros com a Professora Mariana Cavalcanti que me incentivou, somada a participação no grupo de pesquisadores do Dicionário de Favelas Marielle Franco.


Segue uma série de vídeos de memórias silenciadas, que não são públicas, que estão restritas aos grupos de familiares. Foi uma atividade para compartilhar as particularidades e os desafios dos territórios periféricos, neste sentido colaborar também com uma visão do acesso ou não dos serviços sociais aos moradores de favelas.

Memória[editar | editar código-fonte]

A memória é um substrato inerente à própria condição humana. E um dos maiores estudiosos sobre memória foi Maurice Halbwachs, suas obras principais são Les Cadres Sociaux de la memoire e La memoire Coletive. É um dos autores que estuda a relação entre a memória e a história. Seu maior desafio foi a definição de memória coletiva. O primeiro passo foi definir e diferenciar a memória histórica da memória individual. A memória coletiva discerne o tempo fluido que carrega a própria existência do grupo, a questão principal é a captação ou não da consciência coletiva, tanto a história quanto a memória fazem recortes sobre a realidade já construída, se bem que os quadros de acontecimentos guardados na lembrança nacional não são os mesmos da história nacional.


A memória coletiva é classificatória, seletiva e tem a função de reforçar a coesão através da adesão afetiva ao grupo intermediário da memória comum. A memória nacional representa a memória coletiva; portanto ela também é seletiva e negocia a fim de conciliar a memória coletiva com as memórias individuais.
A obra de Halbwachs é caudatária da tradicional sociologia francesa, isto é , seus estudos derivam dos estudos durkheimianos sobre a precedência dos fatos sociais e dos sistemas sociais sobre fenômenos psicológicos e individuais. A escola sociológica francesa vê o homem como produto do meio; daí que Halbwachs tenta dar conta da presença do social na memória que era tratada sob uma perspectiva introspectiva. Portanto, ele traz o tema da memória para discussão sociológica da relação entre indivíduo e a sociedade.


Halbwachs considera a memória como fato social e passa estudar os quadros sociais da memória. As relações sociais não ficam restritas ao mundo da pessoa, mas perseguirão a realidade interpessoal das instituições sociais, isto é, a memória do indivíduo depende de sua relação de convivência com outros indivíduos e instituições.
É a vivência presente do sujeito que desencadeia o curso da memória, portanto, lembramos porque os outros ou os momentos vividos nos fazem lembrar. As relações de espaço, de tempo, a relação de causas e de consequências constituem as noções gerais que estão sempre presentes no indivíduo. Essas são categorias que a linguagem, instrumento socializador da memória, atualiza e acompanha a vida humana constituindo a memória coletiva.


Infere-se que as noções de tempo e de espaço são fundamentais para a rememoração do passado, na medida em que as localizações espaciais e temporais das lembranças são a essência da memória. O homem só pode ter memória do seu passado enquanto ser social, e cada ser humano tem uma forma única de inserção nos diversos meios que atua. As lembranças estão guardadas no inconsciente, mas para sua reconstrução necessita-se de outras pessoas. O indivíduo como membro de um grupo evoca lembranças que o grupo conseguiu selecionar, portanto, é no conceito de memória coletiva que se encontra a história vivida.

Segundo Ecléa Bosi (1994), lembrar é sempre refazer, reconstruir com imagens e ideias do presente as experiências do passado. A autora também indica a participação determinante do grupo social na reconstrução das lembranças, e rompeu com a limitação do conceito plano individual ao afirmar que a memória é um fenômeno social.
A memória como fenômeno social é posta por Pollack (1992), em seu trabalho intitulado Memória e Identidade Social. O autor trata da questão da ligação entre memória e identidade social no âmbito das histórias de vidas, pois através delas de recolhem memórias individuais e se constroem imagens atuais.


Na manutenção da memória do grupo os mediadores exercem um papel fundamental, a função do mediador é representada pelos avós ou pelas guardiãs das lembranças. A priori a memória parece ser um fenômeno individual, mas deve ser entendida como fenômeno coletivo e social, um fenômeno construído coletivamente e submetido a flutuações, mudanças constantes. Entretanto, deve-se lembrar que na maioria das memórias existem marcos relativamente invariantes, imutáveis, pois há fatos que são solidificados pela memória em que os entrevistados retornam várias vezes aos mesmos acontecimentos sem respeitar a ordem cronológica.


Os elementos constitutivos da memória individual ou coletiva são os acontecimentos, os lugares e as pessoas. Esses três elementos podem ter sido vividos pessoalmente, ou vividos por “tabela” pelo grupo ou pela coletividade à qual se sente pertencer. Através da socialização política ou da socialização histórica acontece um fenômeno de projeção tão forte que se pode falar numa memória herdada, ou seja, acontecimentos marcaram tanto uma região ou grupo que sua memória pode ser transmitida ao longo dos séculos com altíssimo grau de identificação.


A memória é seletiva, nem tudo fica registrado, e em parte, ela é herdada; sofre flutuações de acordo com o momento em que ela é articulada, em que está sendo expressa. Sua organização em função das preocupações pessoais e políticas do momento mostra que a memória é um fenômeno construído; portanto há um vínculo muito estreito entre memória e sentimento de identidade, isto é, imagem de si, para si e para os outros.


Neste sentido pode-se afirmar que a memória e identidade são negociáveis; portanto não são fenômenos que devam ser compreendidos como essência de um grupo, e sim valores disputados na memória de um grupo que quer ser valorizado, e a memória política pode ser motivo de disputa em várias organizações. Cada vez que uma memória está sendo construída, ela efetua um trabalho de manutenção de coerência, de unidade de continuidade da organização.

A disputa entre a memória oficial dominante e a memória subterrânea com frequência se relaciona entre grupos minoritários e sociedade englobante. Para distinguir a conjuntura favorável ou não às memórias marginalizadas são importantes reconhecer a que ponto o presente colore o passado, pois é de acordo com as circunstâncias que ocorre a emergência de certas lembranças. Diante do exposto, meu retorno ao espaço da favela do Acari, num dia chuvoso, me fez relembrar a minha infância e adolescência e me reconectar com amigos e familiares, são relatos do cotidiano de sujeitos que habitam ou habitaram a Favela de Acari. 

Entrevistas[editar | editar código-fonte]

Para acessar as entrevistas, clique nos títulos abaixo: 


Temas Convidade Conteúdo 
Memórias de Acari  Vânia Dutra Apresentação do projeto Lives sobre Memórias do Acari
Memórias Culturais de Acari Jamaica das Luas Ele fala de sua infância e juventude no Acari e a influência de movimentos culturais em uma
mostra musical sobre Jongo. O jongo, ou caxambu é um ritmo que teve suas origens na região africana do Congo-Angola. Chegou ao Brasil-Colônia com os negros de origem bantu trazidos como pessoas escravizadas para o trabalho forçado nas fazendas de café do Vale do Rio Paraíba, no interior dos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo
Memórias da Infância no Acari  Vanise Gomes, Doutora em Educação pela UERJ As memórias de nossa infância no Acari. Vamos também abordar sobre as lembranças da infância no Acari e a trajetória acadêmico-profissional de Vanise Gomes
Memória da minha vida no Acari e a galinha comeu  Maria Cristina Porte Silva Maria Cristina, moradora do Acari, há mais de 50 anos, conta a história de sua chegada do Acari e o sustento da família do lixão chamado “ galinha comeu”
Memórias da minha adolescência no Acari Leandra Maria   Ela nos contou a sua trajetória de vida marcada pela ausência dos serviços de saúde e orientação sobre os direitos reprodutivos e sexuais. Também a marca profunda da violência e execução sumária de seu esposo, Eduardo, e seu filho Eduardo Vinicius.

Referências Bibliograficas[editar | editar código-fonte]

HALBWACH, MAURICE, MEMORIA COLETIVA, HTTPS://EDISCIPLINAS.USP.BR/PLUGINFILE.PHP/4005834/MOD_RESOURCE/CONTENT/1/48811
146-MAURICE-HALBWACHS-A-MEMORIA-COLETIVA.PDF

POLLACK, Maichael. Memória e Identidade Social. Estudos Históricos, Rio de  Janeiro, vol 5, n 10, 1992 , pp 200-212