Vila Vintém
A Vila Vintém, ou Vila do Vintém, é uma favela carioca localizada na Zona Oeste da cidade, entre os bairros Padre Miguel e Realengo. A favela é sede das escolas de samba Unidos de Padre Miguel e Mocidade Independente de Padre Miguel.
Autoria: Equipe do Dicionário de Favelas Marielle Franco a partir de outras fontes.
História[editar | editar código-fonte]
A região onde atualmente se encontra a Vila Vintém pertencia anteriormente ao Exército. Os pioneiros que se estabeleceram ali precisavam solicitar autorização aos policiais militares para erguer suas residências, que, em sua maioria, eram construídas com materiais simples, como barro e palha. A infraestrutura era precária: não havia sistema de esgoto (utilizavam-se fossas) nem energia elétrica (a iluminação era feita com velas e lamparinas). Os fogões funcionavam à base de lenha, e o abastecimento de água era feito por meio de torneiras comunitárias, onde os moradores enchiam seus recipientes.[1]
Em 1940, foi inaugurada a Estação Ferroviária de Moça Bonita, substituindo uma antiga parada de trem da Estrada de Ferro Central do Brasil. Com a chegada dos funcionários da ferrovia, a localidade começou a se desenvolver, recebendo o nome de Vila Vintém. Esse nome surgiu devido à distância do centro da cidade e ao fato de a área ser alagadiça, o que levava muitos a dizer que aquelas terras "não valiam um vintém".[1]
Os operários que trabalharam na construção dos edifícios da Rua Marechal Falcão da Frota também passaram a residir na comunidade, que crescia rapidamente. O comércio era escasso, limitando-se a pequenos armazéns e uma carvoaria. A energia elétrica chegou primeiro à associação de moradores, que a distribuía para o restante da favela. Já o saneamento básico, incluindo água encanada e rede de esgoto, só foi implementado durante a gestão de Carlos Lacerda.[1]
Na década de 1950, a Estação de Moça Bonita foi rebatizada como "Padre Miguel", em homenagem ao padre Miguel de Santa Maria Mochon, que dedicou sua vida à Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Realengo. Com o tempo, toda a região passou a ser conhecida pelo mesmo nome. No entanto, a ausência de políticas públicas voltadas para áreas mais distantes do centro urbano resultou em uma série de desafios sociais para Vila Vintém. A falta de investimentos em educação, saúde e lazer contribuiu para o aumento das dificuldades enfrentadas pela favela. Nesse contexto, o tráfico de drogas começou a se expandir, inicialmente de forma modesta, até a formação da Falange Vermelha, que mais tarde se transformaria no Comando Vermelho, dominando por anos o cenário do tráfico na região.[1]
No último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2022, a Vila Vintém possui aproximadamente 14.140 moradores. O censo de 2010, por outro lado, apontava que a favela era moradia de 15.298 habitantes.
Luta histórica por moradia[editar | editar código-fonte]
A partir da análise de registros disponíveis na hemeroteca digital da Biblioteca Nacional, Santos (2023)[2] observou um período marcado por fortes mobilizações em torno da luta por moradia nas favelas do Rio de Janeiro, com destaque para a participação da Vila Vintém nesse contexto. A pesquisa revelou que, mesmo estando localizada em uma área distante dos principais eixos de valorização imobiliária, como o centro e a zona sul da cidade, a Vintém também enfrentou pressões e tentativas de remoção por parte das autoridades. Esse cenário demonstra que, independentemente da localização geográfica, as favelas cariocas, incluindo a Vila Vintém, estiveram sujeitas a políticas que visavam ao deslocamento de suas populações, muitas vezes sem oferecer alternativas adequadas de reassentamento.
No final dos anos 1940, houve uma forte tentativa de eliminar as favelas, não apenas nas áreas centrais e valorizadas do Rio de Janeiro, mas também em regiões periféricas. Durante o governo Vargas, a política habitacional ganhou destaque, com a construção de moradias populares se tornando uma prioridade. O IAPI (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários) liderou essa iniciativa, criando o conjunto habitacional de Realengo, inaugurado em 1943 e expandido ao longo da década. O objetivo era oferecer moradias modernas para operários de baixa renda em uma região menos densa, distante do centro urbano.[2]
Enquanto isso, a Vila do Vintém, próxima a Realengo, consolidava-se como uma das favelas mais importantes da região. As favelas eram frequentemente vistas como um obstáculo ao progresso e à modernização da cidade, sendo alvo de discursos que defendiam sua remoção como necessária para o desenvolvimento. No entanto, os moradores desses locais se organizaram e resistiram, lutando pelo direito à moradia.[2]
As contradições do modelo varguista, que promovia a modernização enquanto marginalizava parte da população, geraram mobilizações e reivindicações por parte dos moradores de favelas. Essas lutas evidenciaram a resistência das comunidades, que buscavam garantir seu espaço na cidade, mesmo diante de pressões para sua remoção.[2]
Localização[editar | editar código-fonte]
A comunidade de Vila Vintém está situada entre dois bairros: Realengo, cujo limite começa na Rua Barão do Triunfo, e Padre Miguel, onde se estende até a Rua General Gomes de Castro.
Para acessar a localidade, é possível seguir pela Avenida Brasil, passando pela Estrada da Água Branca, Rua Barão do Triunfo e Rua Lomas Valentina, em Realengo; ou, pelo lado de Padre Miguel, pelas Ruas Jacques Ouriques, General José Faustino e General Gomes de Castro. Pela Avenida Santa Cruz, que fica do outro lado da linha do trem, é necessário cruzar os viadutos de Realengo ou Padre Miguel, seguindo pelas Ruas Barão do Triunfo ou General Gomes de Castro. Essas vias levam às Ruas Belizário de Souza e Mesquita, que são as principais artérias de Vila Vintém.[1]
Dados do território[editar | editar código-fonte]
Identificação[editar | editar código-fonte]
- Nome: VILA DO VINTÉM
- Código no SABREN: 279
- Data de Cadastramento: 02/09/1981
- Acesso principal: Rua General Gomes de Castro
- Complemento: 60
- Bairro: Padre Miguel
- Região Administrativa: Bangu
- Região de Planejamento: Bangu
- Área de Planejamento: 5
Identificação Alternativa[editar | editar código-fonte]
- Moça Bonita
- Vila Vintém
- Vintém
Urbanização[editar | editar código-fonte]
- Situação: Em complexo
- Complexo: Vila do Vintém
- Porte: > 500 domicílios
- Grau de Urbanização: Assentamento não urbanizado
1º Registro de ocupação[editar | editar código-fonte]
O primeiro registro de ocupação é datado em 1921, com base em depoimentos de moradores e líderes comunitários. O local era originalmente, uma área desocupada e pantanosa com vegetação densa. O início da ocupação, por volta de 1920, ocorreu de forma gradual, dificultada pela vegetação, mas por ser um local próximo a centros desenvolvidos foi sendo invadido.[3]
População e domicílios[editar | editar código-fonte]
Ano | População | Domicílios | Fonte |
---|---|---|---|
2000 | 15.621 | 4.451 | IBGE - Censo Demografico 2000 |
2010 | 14.647 | 4.728 | IBGE - Censo Demográfico 2010 |
2022 | 14.185 | 5.460 | IPP com base em IBGE - Censo Demográfico 2022 |
Variação da área ocupada[editar | editar código-fonte]
Unidos de Padre Miguel[editar | editar código-fonte]
Nascida no coração da Vila Vintém, em Padre Miguel, a Unidos de Padre Miguel (UPM) se consolidou como uma das escolas de samba mais tradicionais da Zona Oeste do Rio de Janeiro.
A escola surgiu a partir do bloco da Rua "D", em meados de 1954, mas foi oficialmente registrada na Associação de Escolas do Rio de Janeiro (ASESRJ) apenas em 12 de novembro de 1957, por iniciativa de Genésio da Cruz Nunes. Reconhecida pelo símbolo do Boi Vermelho, a agremiação representava a Zona Rural do Rio e já em 1959 conquistou seu primeiro título na Praça XI, garantindo vaga entre as grandes escolas no ano seguinte. Suas cores, vermelho e branco, foram uma homenagem a Guilherme da Silveira Filho, então proprietário da Fábrica Bangu, que fornecia os tecidos para os desfiles.
Em 1959, a escola iniciou a construção de sua quadra de ensaios, um terreno doado por Valdomiro José de Almeida, que além de mestre-sala era fazendeiro. Inaugurada em janeiro de 1960, a quadra ficou conhecida como "O Grande Terreiro" e, após reformas, ganhou o apelido de "Palácio do Samba". Localizada na Rua Mesquita, nº 8, em Padre Miguel, permanece até hoje como um importante ponto de encontro.
Símbolos
O apelido "Boi Vermelho" surgiu nos anos 1960, criado por Valdomiro José de Almeida, que, aos 72 anos, era o mestre-sala mais velho em atividade e encantava o público com sua dança. Outro símbolo marcante foi o escudo com mãos entrelaçadas, originalmente usado pela bateria "Guerreiros da Unidos" e adotado pela escola até 2020, quando o Boi Vermelho retomou seu lugar como emblema oficial.
Destaques
A UPM sempre valorizou o talento feminino no samba, tendo Yolanda Borges como sua primeira intérprete oficial (1963-1964), seguida por Leda Silva (1982) e Rutinha (1985-1990). Sua bateria, consagrada como "Melhor Bateria do Brasil" em 1964 pela Secretaria Estadual de Turismo, foi comandada por grandes mestres, como Cinco, Djalma, André, Coé e, desde 2012, por Mestre Dinho.
O renomado carnavalesco Arlindo Rodrigues deixou sua marca na escola em 1984 e 1985. Com o enredo "O Quilombo dos Palmares", a UPM sagrou-se campeã na Avenida Rio Branco. No ano seguinte, estreou na Marquês de Sapucaí com "Folia, Amor e Fantasia".
Compromisso social
A frase "Aqui se Aprende a Amar o Samba", criada pelo fundador Laudelino Libério, sintetiza o espírito da agremiação. Durante a pandemia de COVID-19, a escola transformou seus ateliês em oficinas de máscaras e promoveu ações solidárias, como distribuição de alimentos, kits de higiene e atendimento médico.
Retorno ao Grupo Especial
Famosa por seus enredos afro-brasileiros, a UPM vem reconquistando seu espaço no carnaval. Em 2024, foi campeã da Série Ouro e, em 2025, retornou ao Grupo Especial, reafirmando seu lugar entre as grandes do samba carioca.
Com uma história de resistência e amor ao samba, a Unidos de Padre Miguel segue como um símbolo de cultura e comunidade, levando a identidade da Zona Oeste para a avenida.
Mocidade Independente de Padre Miguel[editar | editar código-fonte]
Ao longo de sua trajetória no carnaval do Rio de Janeiro, a agremiação conquistou cinco títulos, apresentando enredos inesquecíveis que marcaram época. Sua bateria, reconhecida por um estilo único, se tornou um símbolo que a diferencia das demais escolas. Hoje, a escola conta com uma enorme torcida, consolidando-se como um importante patrimônio cultural da Zona Oeste e mantendo-se como a única representante do Grupo Especial na região.
A história da escola tem raízes em um antigo time de futebol, o Independente Futebol Clube, que vestia camisas listradas em verde e branco. Os jogadores, além de talentosos no esporte, eram apaixonados por música e, após as partidas, se reuniam no Ponto Chic, em Padre Miguel, transformando as comemorações em verdadeiras festas de rua. Segundo Adyr Alves, figura emblemática da Velha Guarda e guardião da memória do samba, os integrantes entoavam um grito de guerra que dizia: “Não é marra não, nem é bafo de boca, Independente chegou, deixando a moçada com água na boca!”
Conforme registros históricos, a escola foi oficialmente fundada em 10 de novembro de 1955, sob a liderança de seu primeiro presidente, Sylvio Trindade, e outros nomes importantes como Renato da Silva, Ivo Lavadeira, Djalma Ferreira e Garibaldi Faria Lima. No mesmo ano, realizou seu primeiro desfile no bairro, apresentando um samba em homenagem ao deputado Waldemar Vianna. Dois anos depois, em 1957, estreou oficialmente na Praça Onze com o enredo “Baile das Rosas”, alcançando a quinta colocação. Já em 1958, sagrou-se campeã do Terceiro Grupo com “Apoteose do Samba”, garantindo sua ascensão ao Primeiro Grupo, que à época desfilava na Avenida Rio Branco. Desde então, a escola mantém-se no Grupo Especial, sem jamais ter sido rebaixada.[4]
Data de fundação | 10 de novembro de 1955 |
Cores | Verde e branco |
Símbolo | Estrela |
Filiação | LIESA |
Grupo atual | Grupo Especial |
Endereço da quadra | Rua Coronel Tamarido, 38 - Padre Miguel |
Barracão | Rua Rivadávia Correa, 60 (Barracão 10), Cidade do Samba - Gamboa |
Estação de trem Mocidade/Padre Miguel[editar | editar código-fonte]
A estação Moça Bonita foi inaugurada em 1940, seguindo o modelo tradicional das estações ferroviárias suburbanas da época. Anteriormente, no mesmo local, havia apenas um ponto de parada com o mesmo nome, que naquela data foi oficialmente promovido a estação, conforme registrado no Diário de Notícias de 6 de abril de 1940.
Em 1º de outubro de 1948, a estação teve seu nome modificado para Padre Miguel, como noticiado pelo Correio da Manhã na mesma data. A mudança foi uma homenagem ao Monsenhor Miguel de Santa Maria Mochon, que em 1910 se tornou o primeiro vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, em Realengo.
Atualmente, a estação é administrada pela Supervia. Nas placas de sinalização, o nome foi adaptado para Mocidade de Padre Miguel, em alusão à famosa escola de samba local.[5]
Ramais atendidos
- Santa Cruz
Endereço
Rua Cel. Tamarindo, s/n Padre Miguel - Rio de Janeiro - RJ CEP 21.870-000
A história de Celsinho da Vintém[editar | editar código-fonte]
Celso Luís Rodrigues, conhecido como "Celsinho", é uma figura marcante na história de Vila Vintém. Filho de uma família humilde, ele ganhou notoriedade nos anos 90 ao liderar assaltos a caminhões na Avenida Brasil e distribuir parte dos produtos roubados entre os moradores. Com o apoio da favela e do Comando Vermelho, assumiu o controle do tráfico, tornando-se um dos traficantes mais famosos do Rio. Sua fama de "Robin Hood" e sua perseguição pela polícia o levaram à prisão, onde se aliou a "Uê" e "Escadinha" para fundar a facção ADA (Amigos dos Amigos).[1]
Celsinho sobreviveu à rebelião de 11 de setembro de 2002, que enfraqueceu sua facção, e foi solto em 2022. Em 2008, sofreu um golpe de seu genro, "Palhaço", que matou 19 pessoas na disputa pelo tráfico, expulsou sua família e fugiu com dinheiro, armas e drogas, deixando a Vila Vintém em crise.[1]
Ver também[editar | editar código-fonte]
- União Coletiva pela Zona Oeste
- Teia de Solidariedade da Zona Oeste
- Zona Oeste Ativa - produção cultural na ZO
- Esporte e lazer na Zona Oeste do RJ (relatório)
Notas e referências
- ↑ Ir para: 1,0 1,1 1,2 1,3 1,4 1,5 1,6 VILLA VINTÉM. In: Wikipedia: a enciclopédia livre. [S. l.], 2023. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Vila_Vint%C3%A9m. Acesso em: 21 mar. 2025.
- ↑ Ir para: 2,0 2,1 2,2 2,3 SANTOS, Henrique Mendes dos. A Vila do Vintém e a luta por moradia. In: 9º Encontro Internacional de Política Social; 16º Encontro Nacional de Política Social, Vitória (ES, Brasil), 13 a 15 de junho de 2023.
- ↑ Instituto Pereira Passos. Favela Busca. Disponível em: https://sabren-pcrj.hub.arcgis.com/pages/favelabusca. Acesso em: 21 mar. 2025.
- ↑ GALERIA DO SAMBA. Mocidade Independente de Padre Miguel. Disponível em: https://galeriadosamba.com.br/escolas-de-samba/mocidade-independente-de-padre-miguel/. Acesso em: 24 mar. 2025
- ↑ ESTAÇÕES FERROVIÁRIAS DO BRASIL. Estação Padre Miguel. Disponível em: http://www.estacoesferroviarias.com.br/efcb_rj_mangaratiba/padre.htm. Acesso em: 24 mar. 2025.