Economia Cotidiana

De Dicionario de Favelas Marielle Franco
Ir para: navegação, pesquisa

Autora: Eugenia Motta[1]

Economia cotidiana (Motta 2016) é um termo que pretende dar conta de práticas econômicas reais a partir de seu vínculo com outras dimensões da vida social, especialmente as relações familiares e os espaços materiais. A ideia foi desenvolvida com base em pesquisa feita em uma favela carioca e pretende descrever o que ocorre nesses lugares, mas, como ficará claro a seguir, não se aplica somente a eles. É, portanto, uma ideia que nasce a partir da favela, para, de lá, oferecer uma visão sobre a economia que revela a centralidade das relações familiares, a relação com as casas e o papel das mulheres.  

 

Definindo economia  

Como definir economia quando o que queremos é compreender a vida nas favelas, valorizar a experiências dos seus moradores e oferecer bases para ações que melhorem suas vidas? Não existe consenso entre especialistas e estudiosos sobre o que seja economia. Para alguns é uma esfera da vida social com formas de agir específicas e diferentes daquelas presentes em outras, como, por exemplo, a nossos relacionamentos íntimos. Para outros, é o conjunto de empresas e instituições privadas e públicas que produzem e gerem a riqueza de um país. Cada diferente concepção carrega com ela uma série de ideias sobre a sociedade, sobre a natureza humana, sobre como funcionam ou deveriam funcionar as relações entre os cidadãos e os estados, por exemplo. Os diferentes pontos de vista não são neutros e definem, indiretamente, quais são as formas legítimas, corretas, aceitáveis de se lidar com a propriedade, o dinheiro, o trabalho. 

Mas o que isso tem a ver com as favelas? Como territórios historicamente marginalizados as favelas tiveram sua economia ocultada ou mesmo criminalizada por meio de  definições que excluem ou condenam aquilo que os moradores fazem no que diz respeito, por exemplo, à gestão dos seus negócios. Para trazer uma nova perspectiva sobre esses lugares é preciso trazer à tona sua economia real, de forma que se possa, por um lado, aprender com e sobre as práticas de seus moradores e, por outro, construir bases para intervenções, sejam elas públicas ou não, mais interessantes e afinadas com as aspirações das pessoas. 

Há três ideias correntes sobre a economia das favelas. A primeira delas está baseada na ideia de “informalidade”. A ideia de economia informal foi levantada na década de 1970 para chamar atenção justamente para formas de se trabalhar e ganhar dinheiro que não passavam por contratos escritos e grandes empresas. Dois trabalhos seminais, o do inglês Keith Hart sobre Gana (1973) e a dissertação de mestrado de Luiz Antônio Machado sobre o mercado de trabalho no Brasil (2018 [1971]), mostram que, uma parte importante da economia, tida como marginal, residual ou ignorada completamente, era a base sobre a qual as classes populares ganhavam a vida[2].

O conceito de informalidade foi sendo incorporado às políticas públicas, modificado, e hoje tem um lugar de destaque na ação estatal de governos ao redor do mundo. Em geral o objetivo é a “formalização”, que significa o registro perante órgãos de gestão e os deveres e direitos correspondentes a isso, como o pagamento de impostos ou a proteção pela previdência social, por exemplo. 

Ao longo das décadas o uso da ideia de informalidade levou a visão dicotômica e hierárquica da economia: de um lado negócios e pessoas submetidos à regulação estatal e, de outro, aqueles agentes que atuam fora desse sistema. Os primeiros, vistos e tratados como mais legítimos e os segundos, na melhor das hipóteses, como possíveis objetos de ajuda para que se igualem aos outros. Essa noção de circuitos apartados emprestou para a compreensão da relação da favela com a cidade a ideia dicotômica de “cidade formal” / “cidade informal”, por exemplo.

Examinando de perto os negócios na cidade vários pesquisadores chegaram à conclusão de que atividades e atores sociais considerados formais e informais estão integrados, atuando de forma coordenada nos mercados. Além disso, dificilmente existem, por exemplo, negócios que não se sirvam de mecanismos e espaços regulados e outros, não por agências estatais. Em resumo, não existe nem mercado, nem negócio, nem lugar na cidade em que formalidade e informalidade não se misturem e se complementem. Assim, voltando ao nosso tema, usar o termo “economia informal” para descrever a economia da e na favela é, no mínimo, reducionista.

A segunda ideia muito difundida é da associação da favela à economia ilegal ligada ao comércio no varejo de drogas proibidas. Essa é uma representação, não apenas reducionista, mas evidentemente criminalizante desses espaços. Embora esse tipo de comércio esteja presente em algumas favelas, esse mercado ultrapassa suas fronteiras, é claro. Além disso, está muito longe de sustentar a vida de parte grande de moradores. 

A terceira ideia se apresenta como positiva e ter a ver com a valorização do chamado “empreendedorismo”, ou seja, a suposta capacidade dos moradores das favelas de desenvolverem atividades baseadas na sua vontade e disposição de trabalho independente em um mercado pretensamente aberto, que oferece sucesso a quem tem suficiente força de vontade. Ao lado dessa ideia existe um discurso que valoriza o mérito próprio como requisito quase que único de êxito, que mascara as desigualdades estruturais e as crises conjunturais como barreiras difíceis de serem transpostas. 

Cada uma dessas visões comuns sobre a economia na favela tem seu lastro na realidade e pode estar na base de boas intenções e boas propostas. Não é o caso, evidentemente, de achar que se devem desprezar as iniciativas, projetos e concepções que utilizem esses conceitos, mas de buscar novas possibilidades compreensivas que superem suas limitações.

 Para tornar visíveis as práticas, conhecimentos, estratégias e atores econômicos da favela é preciso abrir mão dessas visões dicotômicas e observar a economia real desses lugares, que são integrados à cidade, parte de circuitos amplos de mercados (internacionais, inclusive) e espaços de produção, comércio e trabalho de grande parte dos moradores das cidades. Não se trata, com isso, de defender que a economia das e nas favelas seja melhor, pior, mais ou menos solidária ou que promova mais ou menos exploração, por exemplo. Entre a criminalização e a romantização, ficamos com a realidade, com seus vícios e suas virtudes.

Consideramos como economia e econômicos, portanto, o conjunto de práticas, ideias e atores sociais envolvidos nas atividades de provimento dos recursos necessários à manutenção da vida e do bem estar das pessoas. Simples. Mas cheio de consequências importantes. 

 

Economia da casa x economia doméstica  

Há muito se reconhece em várias disciplinas, que existe economia dentro das casas. Aliás, a própria palavra tem origem no termo grego que significa “administração da casa”. Desde sua origem grega a ideia de economia se transformou muito e foi preciso que pensadores chamassem de volta a atenção para a importância dos espaços domésticos na compreensão da economia. 

A atenção para esse tema se baseou fortemente na comparação entre o que acontecia no âmbito familiar com o que acontecia no chamado “mercado”. A distinção marxista entre “produção” e “reprodução”, por exemplo, marca a diferença entre formas de organizar a economia. Karl Polanyi reconheceu a domesticidade como um dos princípios da economia (1957) e o economista Gary Becker, que ganhou o prêmio Nobel da área em 1992, trabalhou com aspectos da vida doméstica (por exemplo, 1991). Em linhas teóricas distintas, a dicotomia entre mercado e espaço doméstico foi enfatizada ou problematizada. O que parecia consensual é que essa distinção existe.

Uma economia da casa se propõe a questionar a dicotomia mercado x espaço doméstico, enfatizando não distinções e aproximações de princípios econômicos, mas as conexões reais e práticas entre pessoas, que passam pela casa como espaço material e simbólico. Isso significa observar a economia por meio das pessoas e daquilo que elas transformam e põe em movimento e não por meio de conceitos abstratos. 

Isso implica considerar a casa não apenas como um lugar material (uma edificação), mas como tendo também significados importantes no que diz respeito ao que as pessoas reconhecem, por exemplo, como relações próximas ou distantes. Um exemplo dessa existência que podemos chamar de “simbólica” da casa são expressões conhecidas de todos nós: “você é de casa”, que significa que a pessoa é estimada, pode se sentir à vontade; “quem casa quer casa”, que significa que um casal almeja sempre um espaço de autonomia para si. 

Quando se dintingue, portanto, o que se chama de “economia doméstica” da proposta de se pensar a economia da casa (o melhor seria até “a economia a partir da casa”, mas ficaria muito longo) é se considerar as relações reais e práticas e pensar também a multidimensionalidade da casa. A economia da casa é o que aparece quando aplicamos à realidade da favela a definição de economia que aparece mais acima.  

 

Economia, família e moralidade  

A socióloga Viviana Zelizer, importante referência no estudo da economia na esfera das relações íntimas, formulou uma ideia muito interessante. Ela mostrou que em geral enxergamos a economia, o dinheiro e os mercados como um universo que é, e deve ser, separado das relações de amor e intimidade. O termo que ela usa para descrever isso é o de “mundo hostis” (2005).

Essa ideia se expande para além do nossa compreensão e moralidade cotidiana em relação ao dinheiro e se apresenta também como parte de verdadeiras teorias econômicas. Parte dos teóricos da disciplina Economia e de outras ciências humanas acreditou (e muitos ainda acreditam) que, no que diz respeito aos bens materiais, os seres humanos agem de maneira racional, procurando obter o maior ganho possível numa dada situação. Claro que essa é uma simplificação enorme, mas há uma forte presença desse racionalismo utilitário em muitas teorias políticas e sociais e também nas nossas cabeças. 

O que se percebe quando olhamos de perto para as relações de afeto e intimidade e, especialmente para aquelas de maior proximidade, que são as familiares, algumas coisas importantes ficam claras. A primeira delas é que a economia (na forma espacialmente de circulação de dinheiro) está intrinsecamente ligada à construção e manutenção dos laços entre as pessoas. Maridos e esposas trocam presentes, conversam sobre como dividir as despesas. Pais dão mesadas aos filhos, ajudam a realizar compras entre tantas outras formas de ajudar, presentear, mostrar consideração que conhecemos, exercemos e fazem parte da forma como reconhecemos e demonstramos amor e respeito.

A segunda coisa importante é que, longe de uma racionalidade calculadora, nos orientamos na prática, por moralidades, ou seja, por ideias sobre o que é o certo o errado, o bem e o mal. É fácil perceber isso quando nos lembramos de expressões comuns como “dinheiro sujo”, por exemplo. Você aceitaria dinheiro que foi roubado de alguém como presente? E diante de um grande negócio, que pode render muito no futuro? Você deixaria de comprar comida para dar a um parente em necessidade para fazer esse investimento? Independente da resposta que cada um daria, o próprio fato de que essas são perguntas que consideramos como dilemas mostra que, evidentemente fazemos cálculos, desejamos ganhos, mas isso está misturado a concepções sobre honra, justiça, obrigação.  

E o que isso tem a ver com a economia na favela? Reconhecer que valores, concepções de mundo, afetos, fazem parte das práticas econômicas, dá um sentido diferente a como se enxerga a economia em qualquer lugar. Especificamente sobre as favelas, associadas historicamente à pobreza, isso permite criticar duas coisas importantes. De um lado, a ideia de uma economia caótica e sem princípios, porque praticada por pessoas irracionais que “não sabem” administrar suas vidas econômicas ou, por outro lado, pessoas guiadas pela necessidade e ganho imediato produzindo uma economia predatória. Reconhecer a relação entre as moralidades, as relações e as concepções de mundo e as práticas econômicas significa reconhecer que existem princípios e sentidos nas formas como as pessoas fazem as coisas, independente da quantidade de dinheiro que elas possuam.  

 

Economia e gênero  

As práticas econômicas reais e cotidianas na favela mostram a centralidade das mulheres na gestão do dinheiro das famílias, no planejamento de curto e longo prazo. Permitir que as mulheres, suas habilidades e suas atividades, sejam visíveis é uma das coisas que uma visão da economia cotidiana permite.

Os homens estão mais presentes à frente de negócios, na direção de empresas, na tomada de decisão sobre políticas públicas. Uma percepção de que a economia se resume aos espaços formais e reconhecidos como exclusivamente “de mercado” dá a impressão de que economia “é coisa de homem”. Mas, vista a partir da favela e de suas casas, a economia é feminina.

Dentro das casas, em geral são as mulheres que controlam os gastos do dinheiro. Cuidam de fazer as costas e calcular o que se pode gastar com o quê, preveem e planejam gastos maiores, poupando e fazendo as adaptações necessárias. Nas famílias em que a alimentação representa grande parte dos gastos, escolher o que e onde comprar são decisões estratégicas que precisam ser combinadas com a disponibilidade de tempo para cozinhar ou capacidade de armazenar comida, por exemplo. Esses são cálculos complexos e estratégicos, fundamentais para entender como as pessoas organizam a vida.

Atividades mais associadas ao trabalho feminino doméstico e de cuidado com a família, como cuidar das crianças, cozinhar, costurar e fazer faxina, podem ser (e comumente são) revertidos em fontes de renda temporárias ou permanentes, ajudando a manutenção das casas. Esse mesmo tipo de atividade pode participar de maneira importante nas estratégias econômicas familiares mesmo quando não se fazem em troca direta de dinheiro. Um bom exemplo é o cuidado dos filhos de parentes e amigas, que permite às mães trabalharem fora de casa.

A transformação das próprias casas em espaços de negócios também são práticas importantes para entender a economia da favela. Oferecimento de serviços ligados à beleza (cabeleireiro e manicure), a venda de produtos em domicílio, por exemplo, podem ser feitos com pouco investimento e dentro do próprio espaço doméstico, permitindo às mulheres intercalar os cuidados da casa com comércio. 

A economia cotidiana torna visível a centralidade das mulheres na economia, os cálculos complexos que elas fazem, sua importância em garantir a continuidade da vida por meio do desenvolvimento de estratégias que conjugam demandas imediatas (haver comida para cada refeição) e planos de longo prazo (comprar uma casa, garantir a educação dos filhos).    

 

Especificidades das favelas  

Ao olhar para a economia da favela por meio da noção de economia cotidiana o que fica claro é que não distinção fundamental entre as práticas econômicas da e na favela e qualquer outro lugar. Ou melhor. Não existem princípios, sentidos exclusivos. Também não existe separação entre os mercados e atividades nas favelas do resto da cidade ou do mundo. Em termos fundamentais, a economia da favela é a economia. Ponto. Um conjunto de atividades humanas, sociais, integradas a todas as outras. 

Mas então, por que vem da observação da favela essa ideia de economia cotidiana? E, se não há uma “economia favelada”, ou coisa que o valha, porque chamar atenção para economia nesse espaço?

Existem algumas características, especialmente ligadas às formas de organizar o espaço, transformá-lo e usá-lo que conferem às favelas um caráter relativamente específico. Relativamente, porque, como muitos autores chamam atenção, não existe nenhuma definição objetiva e neutra que dê conta de caracterizar aquilo que (todas ou quase todas) as pessoas compreendem por favela. Esse é um termo em disputa, que transforma no tempo. Apontar as supostas especificidades de maneira peremptória seria entrar nesse debate, que não é objeto deste texto. Mas vamos a uma proposição provisória.

A liberdade construtiva, ou seja, a relativa facilidade de se construir e transformar edificações e espaços de circulação, participam de uma configuração da vida que permite algumas coisas. A transformação de espaços das casas em espaços de negócios, a multiplicação das casas por meio de expansões e divisões, por exemplo, dão características importantes ao mercado imobiliário nas favelas e oferecerem possibilidades para atividades econômicas. A alta densidade de ocupação também promove uma proximidade entre as pessoas que facilita certas transações e arranjos que conformas as condições para o desenvolvimento de atividades econômicas. 

A liberdade construtiva e a densidade são condições presentes nas favelas que oferecem restrições e possibilidades, que configuram a economia de maneira tal que a relação entre as práticas econômicas e as casas se apresenta de forma acentuada. Ou seja, não é que essas relações sejam específicas da favela, mas as especificidades da favela dão a elas maior destaque e importância.

 

Referências

BECKER, Gary. (1991) [1981]. A treatise on the family. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press. ISBN 9780674906983.

HART, Keith. (1973). Informal income opportunities and urban employment in Ghana. Journal of Modern African Studies, 11/1, p. 61-89.

MACHADO DA SILVA, Luiz Antonio. (2018). Mercados metropolitanos de trabalho manual e marginalidade. In: O mundo popular: trabalho e condições de vida. Org. Mariana Cavalcanti, Eugênia Motta & Marcella Araujo. Rio de Janeiro: Papéis Selvagens.

MOTTA, Eugênia. (2014). Houses and economy in the favela. Vibrant – Virtual Brazilian Anthropology, v. 11, n. 1. Brasília, ABA.

MOTTA, Eugênia. (2016). Casas e economia cotidiana. In: RODRIGUES, Rute (org.) Vida social e política nas favelas: pesquisas de campo no Complexo do Alemão. Rio de Janeiro: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA, 2016, p. 197-214.

POLANYI, Karl. (1957). Aristotle discovers the economy. In  POLANYI, Karl et al. (Eds.). Trade and Market in the Early Empires. New York: The Free Press.

RABOSSI, Fernando. (2019). Los Caminos de la Informalidad. Sociol. Antropol.,  Rio de Janeiro , v. 9, n. 3, p. 797-818.

ZELIZER, Viviana. (2005). The purchase of intimacy. Princeton, N.J.: Princeton University Press.

 

 

  1. Eugênia Motta é professora do Programa de Pós-graduação em Sociologia do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e bolsista de pós-doutorado PNPD Capes. É pesquisadora do Núcleo de Pesquisas em Cultura e Economia (NuCEC), uma das coordenadoras do Grupo CASA – Estudos Sociais sobre moradia e Cidade, consultora e conselheira do Instituto Raízes em Movimento e diretora do Instituto de Economia Real.
  2. Ver verbete Informalidade, neste dicionário.