União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região - UNAS

De Dicionario de Favelas Marielle Franco
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Autor: Hugo Fanton.

A UNAS

A história da UNAS – União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região se inicia nos anos 1970, e acompanha a história de Heliópolis. Entre 1971 e 1972, a Prefeitura de São Paulo transferiu, para uma área próxima ao Hospital Heliópolis, 153 famílias provenientes de Vila Prudente, onde seriam realizadas obras de infraestrutura viária sobre o rio Tamanduateí. A proposta do poder público era de permanência das pessoas no local por seis meses, quando receberiam um imóvel definitivo em outra região. No entanto, apenas 15 anos depois foi apresentada uma alternativa de moradia a essas famílias, em local muito distante, Guaianazes. “Era no meio do nada. Não fomos”, afirmaram muitos dos moradores. Na gestão de Olavo Setúbal, em 1978, a administração municipal faria nova remoção de 60 famílias para Heliópolis, vindas agora da Favela do Vergueiro. Eram novamente moradias “provisórias” que se tornaram permanentes para a maioria das famílias. No entorno dos alojamentos provisórios e de fontes de água, novos moradores passam a construir barracos de madeira, lona e piso em terra socada, progressivamente substituídos por casas de alvenaria.

João Miranda e sua esposa Genésia Ferreira Miranda, atualmente duas das principais lideranças de Heliópolis, são migrantes nordestinos que chegaram na região em 1979. Na época, as características naturais da área dificultavam a vigilância e a ajuda mútua entre vizinhos para garantir segurança. Iniciou-se, a partir disso, o primeiro processo organizativo na comunidade. “A gente começou a organizar o povo por causa da necessidade de limpar o terreno, cortando as mamoneiras que existiam na região, de modo que se pudesse ampliar a visão. Surgiu daí um trabalho importante de formação”, explica João Miranda.

Com o crescimento da população, o território como um todo passou a ser controlado por, no dizer de Genésia, “vários grupos de grileiros, que cuidavam desta área se dizendo donos”. Os grupos armados, com apoio da polícia, autorizavam ou proibiam a construção de barracos em Heliópolis, sob pena de assassinato em caso de desrespeito à “ordem”.

A auto-organização dos/as moradores/as, com auxílio da Igreja Católica, contribuiu para que o grupo passasse “a se envolver na luta pela terra”. O apoio da “pastoral da favela” se deu na articulação dos moradores e na proteção das lideranças em casos de agressões, prisões e ameaças de morte. “Até quando estávamos sendo expulsos daqui, enfrentando muita repressão, eles estavam junto conosco”, afirma Genésia. Inicialmente, a Pastoral da Favela impulsionou um Clube de Mães, que reunia mulheres para trabalhos de caráter assistencialista e oficinas de corte-e-costura.

Naquele momento, Genésia enfrentava dificuldades para debater a questão da moradia com os demais moradores, pelo “medo que os maridos” tinham dos grileiros, que “torturavam as pessoas”. Com o Clube de Mães, o tema passou a ser debatido ao final das missas. “A partir daí, quando me nego a pagar aluguel para eles, é que consigo conversar com os moradores sobre nossa situação. Foi ficando claro que todos moravam aqui sem acesso a água, luz e esgoto, de forma que era absurdo pagarmos aluguel”, explica Genésia.

Nesse processo se dá a criação de uma Comissão de Moradores, que na luta pela permanência em Heliópolis daria origem à UNAS. Com o crescimento progressivo de Heliópolis, foi tornando-se necessário discutir a formação de núcleos, cada um deles composto por lideranças de rua que eram responsáveis por informar os moradores vizinhos. O objetivo era “envolver mais gente, trabalhar a formação das pessoas, discutir as necessidades do núcleo e, assim, se fortalecer”.

Com a criação da UNAS, além de se consolidar a permanência no local, houve conquistas muito concretas, como a infraestrutura de saneamento. “Começamos a criar projetos, buscando a prefeitura, o que ajudou nossa legalização”, explica Antonia Cleide Alves, atual presidenta da UNAS. Foi criado o Movimento de Alfabetização de Adultos (Mova), conquistaram-se Unidades Básicas de Saúde (UBS) e estabeleceram-se os primeiros convênios e projetos.

É também parte disso a criação, em 8 de maio de 1992, da Rádio Popular de Heliópolis. A necessidade de informar moradores sobre reuniões e demais atividades levou o grupo a espalhar 14 altofalantes por diferentes pontos da comunidade, conectados a uma vitrola com microfone, localizada na sede da entidade, na rua da Mina. A chamada “rádio corneta” era um serviço de informação, que divulgava para os moradores de Heliópolis as reuniões que aconteciam três vezes por semana. Além disso, era utilizada para organizar a coleta de lixo e anunciar crianças, documentos e animais perdidos. “Todo mundo passou a conhecer a rádio e a vir aqui, comunicar, por exemplo, que haveria uma reunião no Núcleo do Imperador ou do PAM, em determinado horário”, conta Mércia.

Cinco anos depois, em agosto de 1997, a rádio se tornou emissora FM, graças a uma doação feita por um grupo de alemães que visitou a comunidade e se impressionou com o serviço de altofalantes. Com a verba, foram instalados estúdio e antena, na própria rua da Mina.

No entanto, em razão da ilegalidade, a rádio sempre recebeu ameaças de fechamento pelo Poder Público. Durante esses anos, em diferentes momentos, a polícia apreendeu equipamentos e fechou a emissora. Apenas em 2008 a Rádio Heliópolis obteve licença para operar.

Ao longo de mais de quatro décadas, a UNAS consolidou sua atuação nas mais diversas áreas sociais em Heliópolis e região, destacando a importância da educação, cultura, esporte, lazer, habitação e saúde na garantia de qualidade de vida para os moradores. Em todas as suas iniciativas, a UNAS acredita na pessoa como sujeito de direitos, independentemente de idade, orientação sexual ou religião, fortalecendo sua autonomia para a efetivação da cidadania.

A entidade estabeleceu como missão “contribuir para transformar Heliópolis e região num bairro educador, promovendo a cidadania e o desenvolvimento integral da comunidade”. Seus princípios de atuação são: Autonomia; Responsabilidade; Solidariedade; Escola como centro de liderança na comunidade onde está inserida; e Tudo passa pela educação. O objetivo é “contribuir para a organização dos moradores por meio da mobilização social e ações de parceria, visando a melhoria da qualidade de vida, a superação da pobreza e miséria, promovendo a cidadania e a inclusão social”.

A UNAS em números

Para cumprir sua missão e contribuir com a efetivação de direitos, a UNAS encerra o ano de 2019 com 51 projetos sociais e atendimento de mais de 10 mil pessoas por mês. Suas ações são distribuídas por diferentes áreas, com destaque à educação e assistência social.

Nos 17 CEI’s – Centro de Educação Infantil - distribuídos por Heliópolis e Região, a UNAS atende 2880 crianças de 0 a 3 anos e 11 meses. Nos 8 núcleos de Mova – Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos, atende mais de 300 jovens, adultos e pessoas idosas, com 13 salas de aula. A UNAS também organiza um Cursinho preparatório para ingresso na ETEC Heliópolis, com 280 adolescentes de Heliópolis e região, e realiza formação permanente de 400 educadoras/es pelo projeto Diálogo com a Infância.

Nos 11 CCAs – Centros para Crianças e Adolescentes, espalhados por Heliópolis e Região, a UNAS atende 1560 crianças e adolescentes com educação no contra-turno escolar. O SASF - Serviço de Assistência Social à Família – CHICO MENDES – mais de 2800 famílias são atendidas em um serviço que tem por objetivo estimular o protagonismo das famílias na formulação e implementação de propostas coletivas por melhorias na qualidade da vida familiar e comunitária.

A UNAS possui outros projetos na assistência social e em diferentes áreas, como cultura, empreendedorismo, juventude, esporte e direitos humanos. Para mais informações, acesse: www.unas.org.br ou, no Facebook, na página UNAS Heliópolis.