Seu Olívio (entrevista)

Por equipe do Dicionário de Favelas Marielle Franco
Material de pesquisa do Projeto do Campus Fiocruz da Mata Atlântica em parceria com a Cooperação Social, gentilmente cedido ao Dicionário de Favelas Marielle Franco.

A entrevista faz parte do projeto "Histórias, Memórias e Oralidades da luta social por terra e moradia na região de Jacarepaguá de 1960 a 2016", desenvolvido pelo Programa de Desenvolvimento do Campus Fiocruz- Mata Atlântica, em parceria com a Cooperação Social da Fiocruz. Nesse episódio, o entrevistado é seu Olívio.

Seu Olívio.jpg

Entrevista[editar | editar código-fonte]

Transcrição[editar | editar código-fonte]

Eu sou Olívio Bonna. Eu nasci em 1942, no estado Espírito Santo, e vim para o Rio de Janeiro em 1965. Vim direto para Jacarepaguá, e estou aqui até hoje. A minha ideia era vir, conseguir dinheiro, voltar para comprar um terreno. Eu sou apaixonado pelo interior, vim da lavoura. Mas eu não consegui. Estou tentando até hoje para conseguir o dinheiro para voltar. Mas estou feliz aqui, porque hoje com 71 anos, me sinto... Não realizado, mas eu sei que contribuí com Jacarepaguá, que eu adotei como minha terra mãe. Eu vivo mais aqui do que na minha terra natal.

Eu cheguei no Rio de Janeiro, e não sabia fazer nada, eu só sabia trabalhar na agricultura. Então o primeiro lugar que eu procurei trabalho foi no Porto Agrícola, para trabalhar com agricultura. Então eu comecei a fazer biscate. Tinha muitas chácaras. Naquela época Jacarepaguá era uma área rural, em 1965. A única coisa que descaracterizava a área rural era o bonde.

Quando cheguei, eu me senti em casa. Eu trabalhei na chácara de um alemão, na Rua Baipendí. Ele era dono de uma metalúrgica  e ele me levou para fábrica, trabalhei com ajudante geral e 2 anos depois eu já era serralheiro. Ele me perguntou o que eu sabia: eu sabia faz balaio, peneira, armadilha pra peixes, cortar cabelo, tocar viola. Nada disso servia pra ele. Ele me botou como ajudante, 2 anos depois eu já era serralheiro. E é por isso que estou aqui dando este depoimento.

Teologia da Libertação[editar | editar código-fonte]

Na prática, eu aprendia nas oficinas, mas e fui procurar algo mais teórico. Então eu fui pro sindicato dos metalúrgicos, lá tinha uns cursos. Naquela época já estava sob intervenção militar e eles só faziam cursos profissionais. Fui fazer o curso de serralheiro e não tinha no momento, então fiz de soldador. E lá comecei a encontrar alguns camaradas que, mesmo sob intervenção, falavam sobre política. Eu achava interessante. Naquele momento, paralelamente, eu estava estudando na Igreja Católica a Teologia da Libertação, as Conferências dos Bispos (Puebla e Medellin), nos anos 70. Eu estudava com o grupo MFC - Movimento Familiar Cristão, estudava e vinha de encontro a tudo que eu pensava da vida. Então eu achei que ia mudar a sociedade através da Igreja. Eu peguei a 1ª bandeira de luta.

A Teologia da Libertação levava a gente ao povo, a procurar as comunidades carentes para trabalhos. E nós criamos grupos, o Pe. Alexandre bem de idade, muito conservador, mas ele deixava a gente fazer e dizia "Cuidado, porque se vocês forem presos eu não vou lá soltar vocês não". A gente ia pra porta da Igreja para formar o Movimento dos Circulos Bíblicos: o 1º passo era fazer formação para depois ir para as CEBS - Comunidades Eclesiais de Base. Aí criamos a CEB de Shangrilá, com Pe. Jozino, e outra na Boiuna. E no Lote Mil - que não virou CEB. Em menos de 1 mês, criamos 25 grupos. Nós trabalhávamos, e no tempo vago só fazia isso. A ideia era fazer uma Igreja em cada casa, uma igreja doméstica-popular.

O pensamento do João XXIII, depois Paulo VI, que diziam que estavam virando comunistas na Igreja. Aí veio João Paulo II e acabou com a Teologia. Frei Leonardo Boff foi perseguido, foi pro tribunal da inquisição. O Papa Bento é que colocou a Teologia da Libertação. Ele sofreu com o próprio veneno.

Política[editar | editar código-fonte]

Bom, entrei nos movimentos populares, partido político, Associação de Moradores. Na igreja, na missa era só um lugar para recarregar a bateria, mas na rua, era o lugar de agir. Então o grupo pensou. Tinha um grupo jovem muito bom, muito grande, e então resolvemos reativar a AMOATA - Associação de Moradores da Taquara (1980/1981). Nós resolvemos assumir. E eu tinha pouca experiência, eu acreditava em tudo, era fácil me enganar. Então ia pra FAERJ e eu dava os informes, e os caras desciam o cacete em mim e eu percebi depois que era por questões politicas. Eu vi que não era isso que eu queria, eu queria mudar a sociedade, eu voltava dava informe, falava que quase me bateram e eles riam, porque sabiam o porquê. Daí percebemos que nós precisávamos de muito para encaminhar com nossos projetos, as coisas, muitos problemas, questão de luz, transporte. Se agora é ruim, antes era muito pior. Então a gente organizava comissões pra ir às secretarias. Aí percebemos que era preciso entrar, resolvemos ajudar e colher assinaturas para organizar o PT na política. Por isso me dói o coração, com as mazelas que estão aí hoje, a corrupção e tudo que aconteceu. Porque eu ajudei a criar esse partido com o maior boa fé, tenho certeza disto. E aí nós nos envolvemos o máximo com a política.

Eu acredito. Partido politico é uma parte da sociedade, que pensa igual. No PT, a coisa vinha de baixo pra cima, as propostas vinham de base, mas quando chegou ao poder, começa a vir de cima pra baixo. E hoje está difícil uma alternativa Se não houver uma reforma política muito forte mesmo, não tem PSOL, não tem partido nenhum – porque são 3 poderes. Eu estava muito desanimado, mas parece que o povo começa a enxergar e vir pra rua. Mas não basta isso. Eu acho que até para um governo de boa fé, o povo na rua é muito importante, vai servir muito. Agora não vai servir pros calhordas que estão pra seguir. Mas para o governo que tem boa fé, é muito importante esse pessoal na rua. Vai ajudar porque são 3 poderes e um travando o outro. O Judiciário travando o Executivo, os parlamentares travando o Executivo. É uma loucura essa política! Só que tá lá dentro, é um balaio de gato. E a reforma política, que vem do povo (as decisões)... Na constituição diz do povo, mas nas eleições, se submetem a pagar pessoas para fazer campanha.

A política moderna está profissional. Antigamente era a gente que fazia os panfletos. O que eu penso é que é difícil fazer hoje uma reforma política, porque os deputados que estão lá... Muitas pessoas acabam encantando quando conseguem uma viagem de avião.

A Igreja ajudou muito. A gente colocar a pessoa humana na frente de tudo. Na associação de moradores, eu fui presidente, nisso sem muita experiência, mas com bastante boa vontade. Nessa época, pipocou (sic) as ocupações e os conflitos. Como presidente da Associação, eu participei de muitas ocupações. Eu saía no jornal toda semana, em entrave. Me lembro de uma entrevista, quando falei do curso do Rio Limpo até certa altura, depois ficava poluído, depois publicaram que eu acusei certa comunidade (do Tancredo) e depois eu recebi ligação me questionando.

Movimentos comunitários, parcerias e conflitos[editar | editar código-fonte]

O passado não volta, mas é importante olhar o passado para aprender algumas estratégias. Dentro dos movimentos comunitários, nós fomos obrigados a fazer parcerias. Também os partidos políticos têm que fazer parceria. Na CEBE Pe. Jozimo, com nossos recursos, não conseguíamos fazer as casas e então fizemos parcerias com ONGs para apoio financeiro. O projeto técnico foi feito pela comunidade com ajuda de engenheiros e arquiteto. Mas o financiamento? Fizemos parceria. Mas perdemos o apoio político. Eles têm um preço e é muito caro às vezes. A divergência surgiu quando os parceiros queriam usar o projeto como sua bandeira, e nos atrapalhando. Eles conseguiram captar os moradores, daí tivemos que sair.

Outras experiências, outros conflitos. Nós tivemos duas ocupações muito complicadas. Na Meringuava e na Amaú, perdemos para militar. Na véspera do Natal, em Amaú, o telefone tocou. Eram gritos, pedindo ajuda. Tinham pessoas acampadas, parecia um campo de guerra: barracos queimados, encapuzados. Eram milicianos, que tinha a ver com o Eduardo Paes. Dois meses depois ele derrubou os barracos. Fizemos acampamento morando na rua. Novamente, às 6 horas da manhã, Eduardo Paes estava lá, com tratores derrubando os barracos. A imprensa chegou, ele foi embora, mas está tudo registrado nos jornais da época.

Na Meringuava, nós tentamos ocupar 3 vezes aquele terren. Quando chegava lá, a policia já estava lá, vazava do próprio grupo. Eu tenho muita esperança, se 5 ou 6 pessoas se entendessem de verdade. Ô, gente difícil de se entender! [A gente] dos movimentos sociais. Então formamos um grupo de total confiança: eu(Taquara), João Marco (Boiuna), Isabel (pastora da Igreja Batista) e o Tião Sem Medo, éramos 5 pessoas de total confiança. E as definições da ocupação só esses sabiam.

Aí as reuniões continuaram na Igreja Batista. Toda semana tinha. Meia noite, ocupamos o terreno. Em meia hora, fizemos 1 barraco de 5 metros. As crianças e as mulheres todas lá dentro. A polícia chegou e passou a noite do lado de fora. E nós cantando os hinos da Igreja. Passou a noite assim. De manhã chegaram os parlamentares. Edson Santos, Marcelo Dias e Eliomar Coelho. Aí começa o cadastramento e os conflitos. São tantos conflitos. Aí surge um desentendimento. Certo momento da proposta do Tião e Isabel, do Tião ficar no terreno. Eu discordei. Achava que ele até deveria ocupar depois, mas não naquele momento, apenas quando ganharmos o terreno. Mas houve votação e o Tião ficou. Nesse momento eu decidir sair.

Houve um dialogo entre nós, para que ele saísse. E ele perdeu a vida por isso, porque era a milícia que estava por trás. Ele perdeu a vida por causa disso. Aí a milícia tomou conta do terreno.

A falta de união é muito ruim. Por isso eu falo que todo esse movimento que está aí pode ser muito positivo, se a gente conseguir aproveitar isso de verdade, mas também pode sair um desastre total, pode acontecer tudo. Eu tenho que vai ser uma boa (sic). Tem que ter muito cuidado. Por isso é que temos que conversar pequenos grupos. Eu sou de um princípio que a gente vai ou não vai, não existe meio termo. Na Bíblia está escrito que Jesus vomitava o morno.

Fiocruz[editar | editar código-fonte]

A Fiocruz quando se instalou aqui, ela já começou a ajudar. Uma vez fui no Parque do Pau da Fome. Um dia um homem me chamou e me ofereceu um terreno, com o preço. Eu fiquei preocupado e assustado. Parecia terra de ninguém. Minha esperança é que isso não aconteça aqui, por causa da Fiocruz, dá uma garantia - até por quem é a Fiocruz. Se isto acontecer, eu falo com alguém.

A Fiocruz tem tudo para ajudar mais. O caminho é a conscientização. Porque tudo passa pela consciência. Eu tenho acompanhado os projetos da Fiocruz, acho tudo bom, é democrático, chama o povo para participar. Mas poderia um esforço maior. Mas eu estou com 71, e a idade é um limitador. Como vamos atingir a juventude? E tem bolsas. Eu até tenho resistência à bolsa. Sabe o que eu faço? Eu mando para uma moça lá no Ceará com câncer, conhecida, porque eu não preciso disso. De qualquer maneira, é útil, né, eu estou fazendo alguma coisa útil. Mas na política moderna (voltando à política), eu vejo que as pessoas não podem se dar o luxo hoje de parar a vida para fazer uma panfletagem, fazer um trabalho, sem receber alguma coisa. Então isso ajuda. Mas isso é negativo demais, porque tem gente que tira proveito disso, que faz salário com isso salário. Vi gente que quer receber uma bolsa aqui, outra lá... Igual o Bolsa Família. Ele é uma coisa positiva, mas passa a ser negativa dependendo do modo como ela é feita. Então como fazer isso? Eu acho que é uma questão que eu também estou procurando uma maneira pra utilizar isso de forma positiva. Porque se você não conseguir atrair essas pessoas pra conversa, como é que você vai conscientizar?

Quando eu estou deprimido, a viola é o meu consolo. Eu canto e fiz uma música sobre a história de Jacarepaguá, eu sou compositor também.

[Sr. Olívio canta um trecho]


Outros depoimentos[editar | editar código-fonte]

Para acessar os depoimentos e as transcrições, clique nos links abaixo:

  1. Histórias, Memórias e Oralidades em Jacarepaguá - João Marco: acesse clicando aqui
  2. Histórias, Memórias e Oralidades em Jacarepaguá - José Jorge: acesse clicando aqui
  3. Histórias, Memórias e Oralidades em Jacarepaguá - Renato Dória: acesse clicando aqui
  4. Histórias, Memórias e Oralidades em Jacarepaguá - Guaraci Jorge dos Santos: acesse clicando aqui
  5. Histórias, Memórias e Oralidades em Jacarepaguá - Sandra Maria Rosa: acesse clicando aqui
  6. Histórias, Memórias e Oralidades em Jacarepaguá - Maria Zélia Carneiro Dazzi: acesse clicando aqui
  7. Histórias, Memórias e Oralidades em Jacarepaguá - Luiz Alberto de Jesus: acesse clicando aqui
  8. Histórias, Memórias e Oralidades em Jacarepaguá - Noemia Caetano: acesse clicando aqui
  9. Histórias, Memórias e Oralidades em Jacarepaguá - Almir Paulo: acesse clicando aqui
  10. Histórias, Memórias e Oralidades em Jacarepaguá - Alexandre Grabas: acesse clicando aqui
  11. Histórias, Memórias e Oralidades em Jacarepaguá - Valmira: acesse clicando aqui
  12. Histórias, Memórias e Oralidades em Jacarepaguá - Altair Antunes de Moraes: acesse clicando aqui

Veja também[editar | editar código-fonte]