Maria Dalva da Silva, uma mãe do Borel em busca por justiça

De Dicionario de Favelas Marielle Franco
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Por Núcleo Piratininga de Comunicação

Maria Dalva da Costa Correia da Silva tem 66 anos. É um exemplo de como transformar o luto em luta por justiça e pela memória das vítimas do Estado brasileiro. Moradora do Borel, seu filho foi assassinado na chacina ocorrida em 2003.

A história de Dalva

Nascida em Coqueiral, sul de Minas Gerais, Dalva veio para o Rio de Janeiro aos 16 anos para morar com uma tia, na Rua do Matoso, Praça da Bandeira. A vinda se deu por uma tragédia: quando Dalva tinha 14 anos, sua mãe morreu eletrocutada, estando grávida de oito meses.

Já no Rio, aos 18 anos, Dalva começou a trabalhar na fábrica da Souza Cruz, de 1975 a 1993. Operadora de máquina, ali aprendeu a lutar por maiores salários e melhores condições de trabalho. Ela e os demais operários participaram de greves devido à diferença de salário com relação aos funcionários da companhia de São Paulo, que exerciam a mesma função, mas ganhavam mais. Foi na fábrica que começou sua militância, e foi lá também que conheceu o marido. Em 1982 se casaram. Dessa união, veio o Thiago, o primeiro filho, nascido em 1983.

Primeiro moraram no Leblon, no conjunto habitacional da Cruzada São Sebastião. Com o sonho de ter uma casa própria, se mudaram para Jacarepaguá, na Gardênia Azul, perto da Cidade de Deus, zona oeste do Rio. Devido ao intenso tiroteio que era costume no local, e à distância para a fábrica onde trabalhavam – então localizada na Conde de Bonfim, na Tijuca – resolveram se mudar para o morro do Borel, na zona norte da cidade, onde a família do marido morava. É ali que Dalva vive até hoje, e foi onde o segundo filho, Diego, nasceu.

 

Chacina do Borel

Ver também: Chacina do Borel

Quando o primogênito Thiago completou 16 anos, a Souza Cruz, que naquele momento já se localizava em Caxias, ofereceu bolsa para filhos de funcionários fazerem um curso técnico, em um programa de “jovem aprendiz”. Foi a chance de ele começar a perseguir o sonho de ser engenheiro mecânico, fazendo cursos no Senai de Caxias, onde estudou por dois anos e meio. Concluído o curso de mecânico, já saiu com carta de recomendação para poder trabalhar.

Thiago casou e teve uma filha, Gabriela, hoje com 18 anos. No dia 16 de abril de 2003, com 19 anos, enquanto jogava videogame com o irmão, resolveu ir à barbearia cortar o cabelo, pois viajaria no dia seguinte para aproveitar o feriado da Semana Santa. Saiu às seis e meia da tarde, mas não voltou mais. Em casa, Dalva ouviu os tiros e teve uma certeza: Thiago estava morto. Ele e mais três jovens naquele dia foram executados pela polícia.

Além de Thiago da Costa Correia da Silva, as outras vítimas da Chacina do Borel são Carlos Alberto da Silva Ferreira, Carlos Magno de Oliveira Nascimento e Everson Silote. Foram executados com tiros à queima-roupa por policiais do 6º Batalhão de Polícia. Os assassinatos inicialmente foram registrados como “autos de resistência”, o que é comum nesses casos para “justificar” o ocorrido, tentando transformar as vítimas em possíveis criminosos. A versão inicial era a de que havia tido uma troca de tiros no local. Depois, graças à perícia e ao relato de testemunhas, concluiu-se que os quatro rapazes foram vítimas de uma execução sumária. Apesar disso, dos 16 policiais envolvidos, apenas cinco foram julgados. Hoje estão soltos. Para Dalva, o Judiciário não condena policiais. "Quando os réus são policiais, a demora do julgamento muitas das vezes faz com que os processos sejam arquivados, pois já prescreveram", denuncia.

 

Rede contra a violência

“Quem matou o meu filho foi o Estado brasileiro. A polícia só apertou o gatilho”, avalia Dalva. Depois de uma semana de luto intenso, ela resolveu ir à luta para provar a inocência do filho e para que casos como esse não continuem ocorrendo. Foi então que se juntou à Associação de Moradores do Borel e a movimentos de familiares de outras vítimas, como as das Chacinas de Acari (1990) e da Candelária (1993).

Ali começava sua incansável trajetória para denunciar o que a polícia fazia – e ainda faz – nas favelas do Rio de Janeiro. No ano seguinte, em 2004, esse movimento popular deu origem à Rede de Comunidades e Moradores Contra a Violência. Do grupo participam familiares de vítimas da violência policial, advogados, psicólogos, pesquisadores e demais defensores dos direitos humanos. Dalva atua na Rede até hoje, já que casos como o que vitimou seu filho continuam acontecendo. Hoje, a Rede de Comunidades integra a coordenação do Comitê Estadual para Prevenção e Combate à Tortura, da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Também conta com o apoio da Anistia Internacional e faz denúncias do Brasil na Organização dos Estados Americanos (OEA).

A luta permanece

Dalva é protagonista de diversas lutas. Em 2016, ela e outros integrantes da Rede organizaram a manifestação “Acorda, MP”. O objetivo era cobrar do Ministério Público do Rio de Janeiro a apuração de casos de assassinatos cometidos por policiais em favelas. Os manifestantes também cobraram autonomia e mais agilidade e transparência das ações do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (GAESP), do MP-RJ.

Dalva também lembra a convivência com Marielle_Franco, quando esteve à frente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, na época presidida por Marcelo Freixo. “A luta da Marielle foi muito importante em defesa dos direitos dos LGBTs, dos negros, das vítimas de remoções. Também foi ela que nos chamou a atenção para casos como os dos quilombolas e dos indígenas, que têm suas terras invadidas, mas precisam ter seus direitos respeitados como todos nós”, conta.

Outra vitória lembrada por Dalva foi a Lei que garantiu a criação da Semana Estadual das Vítimas de Violências no Estado do Rio. Desde 2017 ela vem sendo realizada de 12 a 19 de maio, inspirada na mobilização das Mães de Maio de São Paulo, que também garantiram uma semana no calendário oficial do Estado.

Apesar das conquistas, Dalva lamenta a falta de atendimento psicossocial por parte do Estado brasileiro aos parentes das vítimas da violência. Muitos acabam perdendo a vida por conta da depressão ou problemas físicos e psicológicos decorrentes do trauma pelo qual passaram, um número que não entra nas estatísticas.

Dalva, por sua vez, conseguiu transformar sua dor em luta. É presença marcante em manifestações, atos e na organização de eventos em defesa dos direitos humanos e contra a injustiça e a impunidade tão comuns nos casos de violência policial ocorridos em favelas do Rio de Janeiro. Quando questionada se não tem medo, ela logo lembra a música "Maria, Maria", de Milton Nascimento: "É preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre. Meu filho foi fuzilado. Se eu parar de lutar, sinto que estarei mais morta do que ele".